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Primavera europeia marca o aprofundamento da crise

Quando o inverno vira primavera, as plantas brotam, as flores desabrocham. Na Europa, porém, a primavera não significa apenas flores, mas o retorno da crise.

O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2012 | 03h08

Eu estava na Alemanha na semana passada e vi flores. Mas vi também sinais de que a crise se agravará antes de melhorar. A primavera tipicamente pode trazer sentimentos de renovação, mas não neste ano.

Muitas explicações são oferecidas para a renovada volatilidade dos mercados financeiros europeus e o alargamento dos spreads dos títulos dos governos espanhol e italiano. Verifica-se uma forte queda nos preços dos imóveis na Espanha. Há novas evidências de problemas bancários ali e em outros países.

Embora possa haver um núcleo de verdade nessas histórias, a explicação fundamental para a nova intensificação da crise reside no simples fato de que as perspectivas de crescimento continuam piorando. Não foi surpresa quando o Banco da Grécia anunciou, no início da semana passada, que a queda da atividade econômica em 2012 será ainda mais acentuada do que se imaginava. O mais preocupante, contudo, é que a atividade na França, no setor de serviços em particular, está em forte declínio neste momento.

Em seu "Panorama Econômico Mundial", divulgado há 10 dias, o Fundo Monetário Internacional (FMI) rebaixou sua previsão de crescimento da zona do euro para 2012 de um mais otimista +0,2% há apenas três meses para -0,3%.

A ideia de que cortes profundos dos gastos públicos, ao causarem um aumento da confiança, restaurarão magicamente o crescimento mostrou-se ilusória. Por conseguinte, a consolidação fiscal ofereceu menos do que o prometido em termos de melhorias nos equilíbrios orçamentários. Os cortes dos gastos públicos, ao deprimirem a atividade econômica e a arrecadação fiscal, acabaram produzindo apenas a metade da melhoria esperada nas contas fiscais. Compreensivelmente, os investidores em títulos públicos não estão tranquilos.

Ademais, a recessão alimenta uma reação política contra governos que estão implementando medidas de austeridade. Vemos isso na França, onde a vitória de François Hollande no primeiro turno das eleições francesas se explicou, sobretudo, pela incapacidade de o programa de austeridade do presidente Nicolas Sarkozy gerar crescimento. Vemos isso no crescente apoio a partidos de extrema direita na Grécia, que vai às urnas dentro de duas semanas.

Mais revelador, vemos isso no colapso do governo holandês de Mark Rutte por não conseguir chegar a um acordo sobre cortes de despesas. Diferentemente das eleições francesas, cujo resultado era amplamente antecipado, foram os eventos na Holanda que mexeram com os mercados financeiros no início da semana passada.

A Holanda vem sendo a aliada mais firme da Alemanha por mais de 50 anos - desde o início da Comunidade Econômica Europeia. Antes da criação do euro, o florim holandês e o marco alemão se moviam no mesmo compasso. A Alemanha confiou em um holandês, Wim Duisenberg, para ser o primeiro presidente do Banco Central Europeu (BCE). Desde a eclosão da crise, a Holanda tem ficado no campo alemão, resistindo a qualquer acomodação monetária e insistindo na austeridade fiscal - até agora, pelo menos, quando a dor da austeridade a atingiu. A Alemanha, ao que parece, está cada vez mais isolada.

Endurecendo as posições, pode hoje recusar qualquer ajuda a seus vizinhos. Hollande, se for eleito, dará as costas à consolidação fiscal. Ele pressionará o BCE a adotar uma política mais expansionista. O BCE, para afirmar sua independência, provavelmente endurecerá sua posição da mesma maneira e fará ainda menos para amparar a economia europeia. Essa não é uma situação que possa terminar bem.

Poderá ser evitada? A única alternativa viável é uma que impulsione o crescimento na Europa, não no próximo ano ou no seguinte, mas agora. Uma reforma estrutural apenas não será suficiente. Mais austeridade só causará danos.

O que a Europa precisa é de apoio para gastar. Esse apoio pode vir do BCE na forma de cortes de taxas e reativação de seu Programa de Mercado de Títulos. Pode vir de uma moderação temporária nos planos de cortes de despesas dos governos. O que deixaria o BCE e o governo alemão confortáveis com esse Plano B?

Eles desejariam garantias de que os países em crise agiriam com seriedade para reduzir suas dívidas e déficits tão logo o crescimento fosse retomado. Na Espanha, isso significa que as autoridades centrais teriam de reprimir os gastos excessivos de governos provinciais - como se fez no Brasil a partir de 1995.

As autoridades centrais em Madri já deram alguns passos nessa direção, mas é preciso fazer muito mais. Na Itália, uma consolidação fiscal crível no médio prazo significa não apenas aumentar os impostos, mas descrever um caminho para cortar os gastos sociais a níveis sustentáveis. Por enquanto, o governo Monti encontrou dificuldade para fazer grandes progressos nessa direção.

Quanto à França, Hollande precisa explicar não só o que ele quer em termos de estímulo de curto prazo, mas precisamente que passos dará para equilibrar o orçamento no médio prazo. E deve reconhecer que impostos mais altos em si não serão suficientes. Alguns dirão que tudo isso é otimismo ingênuo, que não há meio de governos da Europa meridional se comprometerem crivelmente com reformas de médio prazo e que o BCE e o governo alemão antes acertarão um estímulo de curto prazo. Pode ser otimismo ingênuo, mas a alternativa é o desastre. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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