Ueslei Marcelino/Reuters
Ueslei Marcelino/Reuters

Privatização da Eletrobrás continua em discussão, diz Levy

Novo presidente do BNDES, Joaquim Levy afirmou que instituição vai 'apoiar a política que se fixar'

Renata Batista e Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

08 Janeiro 2019 | 15h17

RIO- Em coletiva após a cerimônia de transmissão de cargo, o novo presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Joaquim Levy, foi reticente em relação à venda da Eletrobrás, mas se mostrou otimista em relação à privatização das estatais federalizadas do setor elétrico. "A privatização da Eletrobrás continua em discussão e vamos apoiar a política que se fixar", disse.

Por outro lado, de acordo com o novo presidente do banco, a venda das empresas federalizadas é assunto resolvido. "O departamento de desestatização do banco não aparecia, mas continua ativo. Privatização das empresas estaduais de energia elétrica se arrastava há 20 anos e hoje é um tema resolvido", disse.

Levy defendeu nesta terça-feira, 8, o modelo de desestatização como saída "diante dos desafios fiscais de muitos Estados". Questionado sobre as declarações do governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, que é contrário à privatização da Cedae, Levy disse que a experiência em outros Estados é de que a venda das estatais ajudou a reduzir perdas e ineficiências "que se arrastavam", mas prometeu apoiar as decisões tomadas.

"Cada Estado tem que avaliar sua situação e ver as implicações jurídicas de suas decisões", afirmou. "Nosso papel é de apoiar as decisões tomadas. Somos prestadores de serviço, temos que apoiar o cliente", completou.

Levy evita falar sobre Embraer

Joaquim Levy evitou comentar a operação de compra da divisão de jatos comerciais da Embraer pela americana Boeing. O BNDES é o maior acionista individual da Embraer. Dyogo Oliveira, que deixou o BNDES para dar lugar a Levy, vinha defendendo a operação.

"Como participante minoritário, não é adequado me manifestar neste momento", disse Levy, ao ser questionando sobre sua posição em relação à operação, durante entrevista coletiva após a cerimônia de transmissão de cargo, na sede do BNDES, no Rio.

A Embraer tem uma "golden share" nas mãos de União, que pode vetar a operação. Como acionista, o BNDES poderá votar a favor ou contra o negócio na assembleia de acionistas que apreciará o tema.

Devolução do BNDES ao Tesouro dependerá do nível da retomada econômica

O valor definitivo da devolução antecipada do pagamento de dívida do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) com a União neste ano dependerá do ritmo da retomada da atividade econômica e de uma análise do balanço do banco, também afirmou Levy.

"O exato valor da definição vai ser em função tanto das perspectivas de retomada da economia quanto desse melhor uso do nosso balanço", afirmou, em entrevista coletiva, após a cerimônia de transmissão de cargo, na sede do BNDES, no Rio. Levy evitou citar valores. Disse que não queria se antecipar, pois é preciso, antes, fazer um levantamento para definir as metas, tanto de desembolsos quanto de devoluções antecipadas da dívida com a União - conforme uma reestruturação da dívida firmada em julho do ano passado, o BNDES devolveria R$ 26,6 bilhões neste ano, mas a equipe do Ministério da Economia já sinalizou que quer mais e a devolução poderá chegar a R$ 100 bilhões, como antecipou o Broadcast mês passado.

Segundo ele, a tendência é que, com a análise para fazer "melhor uso do balanço", o capital próprio se torne um fator chave. "Temos que ver quanto cada tipo de ativo ocupa do capital e se há maneira mais eficiente de usar o capital do banco", afirmou Levy.

O "melhor uso do balanço" poderá incluir operações que representem maior risco ou novos instrumentos, como garantias. Também inclui ampliação das vendas das participações detidas pelo banco de fomento, principalmente por meio da empresa de participações BNDESPar.

Levy disse que a forma como o banco fará os desinvestimentos será definida, mas destacou que é preciso olhar o impacto, no mercado, das vendas da carteira bilionária do BNDES. "O momento é bom (para desinvestir), a gente tem visto a Bolsa evoluindo bem", disse o novo presidente do banco.

Ao explicar a importância de focar no crédito às empresas de médio porte, Levy disse que a política monetária "é favorável". "Quando houver aumento de demanda, a oferta terá capacidade de responder sem inflação", afirmou o executivo.

Questionado se o atual nível de desembolsos do BNDES - R$ 69,16 bilhões em 2018, menor patamar desde 1996, como revelou o Broadcast na sexta-feira - não poderia frear o crescimento quando a demanda retomar em ritmo mais acelerado, Levy disse que temos que "separar desembolsos de apoio".

"Se eu usar outros instrumentos, como garantias, posso ter desembolsos com recursos privados, mas em que eu vou estar proporcionando parte da estrutura de financiamento", afirmou Levy, sem citar valores. Ele frisou, porém, que, com o aumento da demanda avançando, a expansão do crédito poderá vir do setor privado. "Em projetos mais complexos, o BNDES tem um papel a cumprir", disse Levy.

Caixa-preta

O aumento da transparência nas operações da instituição de fomento é um compromisso com a sociedade e uma promessa do governo Jair Bolsonaro, segundo o novo presidente do banco público.

"Parte importante disso vai ser organizar melhor os dados", disse Levy. "Alguns dados estão disponíveis, mas de uma maneira que fica difícil para as pessoas entender", completou Levy.

Segundo o novo presidente do BNDES, as medidas de aumento da transparência não podem "ficar só olhando para o passado", mas devem ter foco na clareza. "Uma caixa preta é preta enquanto você não decripta o que está ali dentro", disse Levy, ressaltando que "isso tem que ser feito de maneira institucional".

Sobre os novos nomes que vão compor as diretorias do banco, Levy afirmou que serão anunciados nos próximos dias. Sem citar nomes, ele disse que há a possibilidade de manutenção de alguns executivos da atual diretoria.

Conforme Levy, os nomes dos futuros diretores, inclusive no caso de eventuais nomes que manterão seus cargos, serão anunciados em conjunto. As indicações, contudo, ainda dependem de aprovação da Casa Civil, disse Levy.

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