''Privilégio à Oi na banda larga é inconcebível''

Entrevista[br][br]João Cox, Presidente da Claro

, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2010 | 00h00

O presidente da Claro, João Cox, não acredita que o governo escolherá a Oi como principal instrumento do Plano Nacional de Banda Larga. Na visão dele, as empresas de celular já estão popularizando a internet, enquanto as concessionárias locais, como a Oi, não conseguiram nem universalizar o telefone fixo. A seguir, os principais trechos da entrevista.

O que o senhor acha da proposta da Oi para a banda larga?

Acho que a sociedade tem de ver e o governo tem de ver. Você quer o monopólio?

O que poderia acontecer com o mercado, se o pleito da Oi fosse atendido?

Eu acho que o governo é soberano. Fico muito feliz enquanto brasileiro de ver a preocupação do governo em permitir o acesso à internet a todos os brasileiros, numa velocidade maior possível. Tenho certeza que esse é o desejo do governo, que está disposto a conversar com toda e qualquer empresa que ajude a atingir esse objetivo.

O senhor vê alguma possibilidade de a Oi se tornar a empresa do plano de banda larga?

Não consigo enxergar a lógica econômica, a lógica política e a lógica democrática em evitar que o cidadão, principalmente o de poucos recursos, possa acessar um serviço essencial para privilegiar uma empresa. Tenho certeza de que o governo não está discutindo isso, privilegiar uma empresa em detrimento do cidadão.

As concessionárias locais dizem que, até o fim do ano, todas as cidades estarão conectadas à web. O que o senhor acha disso?

Não quero dizer que somos melhores que outras empresas ou que não erramos. Agora, a gente procura ter coerência no que fala. Se elas são tão boas para o usuário, por que só existem 40 milhões de telefones fixos no Brasil? Será que é por que, neste caso, onde existe o monopólio, as pessoas têm de pagar quarenta e poucos reais por mês caso usem ou não usem o telefone? Será por que não oferecem a opção do pré-pago na telefonia fixa? A telefonia celular foi habituada desde a privatização à competição, e a competição exige, entre outras coisas, que a empresa seja eficiente. É o modelo de Darwin aplicado à economia. Monopólio não incentiva a redução de preços.

Qual é a sua opinião sobre o plano de banda larga?

É a mesma de quando começou a ser discutido, quando fomos todos chamados para uma reunião no Ministério das Comunicações, no ano passado. No fundo, no fundo, vai existir banda larga em todos os municípios do Brasil. Está na regra da Anatel. Quem comprou 3G, vai ter de levar 3G a todos os municípios. A gente tem de discutir é quando. Banda larga é essencial e viabilizá-la é extremamente importante. Para discutir isso, temos de discutir o produto. Daí, você consegue definir o tempo. Vamos fazer uma analogia. A gente está discutindo quem vai ser o diretor da fábrica, o presidente, a gente está discutindo um monte de coisa, mas não está discutindo o que a fábrica vai produzir, e quanto vai produzir. Não há dúvida nas empresas, na sociedade e no governo. O que falta é afinar a sintonia, é qualificar o que é banda larga e em quanto tempo queremos tê-la.

O que precisaria ser discutido?

Acho que a questão de impostos está totalmente equivocada na banda larga. Já me perguntaram: vocês estão querendo isenção tributária? Quem paga o ICMS não sou eu, é o consumidor. E ainda tem o PIS e Cofins, ainda tem o Fistel (Fundo de Fiscalização das Telecomunicações). Quem estava obrigado a promover a universalização da telefonia era a fixa, que não fez nada disso, que começou com 30 e poucos milhões de clientes há 10 anos e hoje tem 40 milhões. Abdicaram da obrigação que tinham de instalar telefones públicos em nome de uma fibra óptica que ninguém vê. Quem fez de fato a universalização da telefonia foi a celular. Quem está fazendo a expansão da banda larga e promovendo o acesso à internet é a telefonia celular. No Capão Redondo (periferia de São Paulo), quem leva a banda larga é o celular. Quem está chegando às zonas periféricas é o celular.

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