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Processo de desinflação deve ser mais lento por culpa da teimosia dos preços de bens industriais

O que preocupa é que esses preços já deveriam estar desacelerando para acomodar pressão crescente nos serviços, em meio à recuperação da economia

Fábio Alves*, O Estado de S.Paulo

16 de fevereiro de 2022 | 04h00

A persistência de alta nos preços de bens industriais, em particular de automóveis e artigos de residência, vem surpreendendo os analistas de mercado e tem sido um dos principais motivos para que os recentes resultados da inflação tenham ficado acima do esperado.

Depois de o IPCA encerrar 2021 em dois dígitos (10,06%), o processo de desinflação deve ser mais lento do que o Banco Central gostaria, em grande parte por culpa da teimosia dos preços de bens industriais em desacelerar.

Na última pesquisa Focus, o mercado projeta uma inflação de 5,50% neste ano, superando o teto da meta para 2022, de 5,0%. Será o segundo ano em que o índice de preços ao consumidor deve estourar o teto estabelecido pelo governo.

Em janeiro, o IPCA subiu 0,54% ante dezembro, acumulando alta anual de 10,38%. Mas os preços de bens industriais, que têm um peso de 23,3% no IPCA, subiram 1,22%, acumulando em 12 meses alta de 12,7%, a maior taxa anual em quase 20 anos.

Chega a ser chocante ao se levar em conta que a inflação média de bens industriais foi de 1,3%, entre 2017 e 2019, para 3,2% em 2020. Mesmo num horizonte de tempo maior, entre 2011 e 2020, a alta média anual desses preços ficou em 3,3%.

O economista para Brasil do banco Barclays, Roberto Secemski, explica que uma parte do processo dessa alta foi originalmente desencadeada pela disparada nos preços de commodities aliada à forte depreciação do real.

À medida que gargalos na cadeia mundial de produção se agravaram com a pandemia, resultando em escassez de insumos, esse efeito de matérias-primas mais caras e câmbio fraco foi intensificado, diz Secemski.

“A esta altura, o que surpreende, após 17 meses consecutivos de aceleração na inflação anual de bens industriais no IPCA, é a falta de sinais claros de exaustão desse processo”, diz. “É possível que produtores ainda tentem descomprimir suas margens de lucro, repassando o quanto puderem dessa pressão de custos para o consumidor final, a depender de quão aquecido esteja o mercado.”

Não à toa, o preço das geladeiras subiu 3,83% apenas em janeiro. O de fogões, 2,83%. Em 12 meses até janeiro, o preço de automóveis novos acumula alta de 17,2%, seguido por mobiliário (16,8%), eletrodomésticos (15,1%) e vestuário (11,6%).

O que preocupa é que esses preços já deveriam estar desacelerando para acomodar pressão crescente nos serviços, em meio à recuperação desse setor com a reabertura da economia. Resta à política monetária, portanto, tentar frear os efeitos secundários desse choque. 

*COLUNISTA DO BROADCAST

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