Amanda Perobelli/Estadao
Amanda Perobelli/Estadao

Procura por emprego demora quase um ano

Tempo que desempregado da Grande São Paulo leva em busca de uma nova vaga cai, mas ainda é o dobro do que era antes da crise

Douglas Gavras, O Estado de S.Paulo

28 Abril 2018 | 18h00

Há um ano e quatro meses, André Juvêncio, de 43 anos, espera o dia em que terá a carteira de trabalho assinada de novo. Ele tenta voltar para a indústria de cosméticos, onde atuou por seis anos como coordenador de desenvolvimento de embalagens, e, desde então, passou a engrossar a fila dos brasileiros que deixaram o mercado formal.

“A gente sempre acha que não vai ficar desempregado por muito tempo. Aproveitei esse intervalo para fazer intercâmbio e estudar inglês e pensava que o mercado estaria melhor na volta também, mas nada. As vagas que abriram são muito mais disputadas e oferecem um salário menor. Estou fazendo ‘bico’ de motorista, mas não deixo de mandar currículo.” 

No mês passado, um trabalhador da Grande São Paulo levava, em média, 47 semanas – pouco menos de um ano – procurando qualquer oportunidade de emprego, formal ou informal, segundo levantamento da fundação Seade, em parceria com o Dieese. Esse é o dobro do tempo que se levava para voltar ao mercado quatro anos antes, em março de 2014, quando a crise ainda não tinha chegado. 

“A vida mudou muito rápido. Tudo parecia bem, a gente estava morando de aluguel, mas já pensando na casa própria. A geladeira, o carro, toda conquista era comemorada”, lembra o operador de empilhadeira William Rosa, 35 anos – há quatro meses procurando trabalho. 

A empresa em que ele trabalhava, uma fabricante de vidros, demitiu 200 pessoas nos anos de crise e não tem previsão para voltar a contratar. “É difícil confiar no nosso País, a felicidade aqui parece que já vem com prazo de validade.”

Pela série histórica da pesquisa Seade/Dieese, que começa em 1988, é possível perceber o quanto as idas e vindas do País podem prolongar, e muito, a busca pelo emprego. A procura registrou um pico, de 57 semanas, no início dos anos 2000. 

Com a economia se aquecendo, essa espera saiu de 39 semanas, no final de 2009, e teve quedas constantes até 2012. Pelos três anos seguintes, permaneceu na casa de 20 semanas. Até explodir ao longo de 2017.

“A crise econômica em si durou até 2016, mas ela demorou a refletir no mercado trabalho. Demitir não é uma decisão fácil e o empregador acha que tudo pode melhorar rapidamente, por isso a recessão bate no trabalho com atraso”, explica o economista Fernando de Holanda Barbosa Filho, da Fundação Getulio Vargas (FGV). 

Lenta e gradual. O tempo que se espera até encontrar a recolocação vem diminuindo desde o fim do ano passado, mas ainda assusta. Com a recuperação da economia após a recessão ainda tímida, essa queda é lenta. 

“A recuperação é lenta e gradual, porque a queda foi muito grande e agora a cabeça do empregador funciona no sentido contrário ao de 2015 e 2016: ele se pergunta se vale começar a recontratar com tantas incertezas. Como saber o rumo que o País irá tomar a partir do próximo governo a ser eleito?”

Esse ritmo de recuperação já levou os analistas a revisarem as projeções para o emprego. Nos primeiros três meses do ano, o total de trabalhadores com carteira assinada no setor privado recuou ao menor nível já registrado pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, do IBGE, divulgada na última semana. Entre janeiro e março, o desemprego em todo o País subiu para 13,1%, e o número de brasileiros à procura de trabalho bateu em 13,7 milhões. 

“O mercado de trabalho é muito sensível a crises e precisa de uma recuperação consolidada da economia para reagir com mais vigor”, diz a analista de mercado de trabalho da Fundação Seade Leila Luiza Gonzaga. 

Ela avalia que ainda é cedo para dimensionar o impacto que a reforma trabalhista, em vigor desde novembro, terá no mercado de trabalho. “A reforma flexibilizou as modalidades de contratação, mas isso sozinho não é suficiente para aumentar o número de postos. A queda no emprego foi tão grande que ainda não há consenso quanto à velocidade da recuperação.”

Na avaliação de Holanda, a perspectiva é de que o desemprego volte ao patamar de um dígito apenas no ano que vem. “Ainda assim, não é garantido, todo o esboço de recuperação pode facilmente ser revertido a depender dos resultados da próxima eleição.”

Sete meses. No sexto semestre, a mensalidade da faculdade de administração ficou pesada demais. “Escolhi uma universidade particular mais cara, sem bolsa, na esperança de que conseguiria me destacar no mercado depois de formado. Não queria estudar por estudar. Tentei levar o curso até onde deu, mas o dinheiro foi ficando mais curto e acabei tendo de trancar a matrícula faltando dois semestres para concluir o curso, quando a crise apertou de vez”, diz o paulistano Francesco Forte, de 28 anos.

“Quero terminar a faculdade, mas ainda não sei se no mesmo curso. Esse tempo parado acabou me deixando um pouco perdido.” 

Ele procura um emprego há cerca de sete meses. Chegou a trabalhar um tempo como vendedor em uma loja, ganhando entre R$ 1.600 e R$ 1.900. 

“A parte boa dessa história toda é poder mudar de área. Era uma vida muito corrida e não tinha fim de semana, nem tempo para nada. Eu queria trabalhar em um escritório, com horários mais fixos, mas aceito o que aparecer.”

Ele diz que o impacto de ficar sem emprego só não é tão pesado, porque ainda mora com os pais. “Mas, mesmo assim, as coisas não estão fáceis em casa, porque o meu pai e o meu irmão também estão sem emprego. Torço para que tudo melhore logo.”

Cinco meses. Cinco meses se passaram desde que João Vicente da Silva Filho, de 32 anos, voltou para São Paulo com a mulher e o filho, na tentativa de achar uma oportunidade de trabalho. E nada. “Se eu dissesse que não desanima, estaria mentindo, mas tento não pensar no desemprego, no tempo que já fiquei parado. Dizem que nordestino em São Paulo nunca desiste, acho que criaram essa frase na crise passada.”

O piauiense se mudou para a capital paulista quando tinha 26 anos. Procurando uma função que pagasse um pouco melhor que o trabalho no campo, ele deixou a casa dos pais e foi morar com parentes na periferia de São Paulo. “Vim para cá em 2012. Para todo o lado que olhava, via um prédio sendo construído. Precisava de um emprego logo e pensei que a melhor coisa a fazer seria aprender um ofício na construção civil.” Logo que aprendeu o ofício de gesseiro, as vagas apareceram.

Quando a crise começou a apertar o mercado imobiliário, João Vicente percebeu que os anos de emprego farto tinham ficado para trás. Já casado, ele e a mulher resolveram tentar a vida no Rio de Janeiro. “Era na época da Olimpíada de 2016, e tudo parecia que ia ficar bem, mas veio a crise no Estado, o mercado de trabalho ficou pior que em São Paulo e voltamos.” Na zona sul da cidade, ele faz bicos em reformas e espera que tudo volte ao normal. 

Dois meses. Leandra Paula, de 43 anos, achou que não seria tão difícil conseguir voltar para o mercado de trabalho depois de ter sido demitida de uma empresa de telemarketing, onde trabalhou por quatro anos. “Achava que a experiência contaria a meu favor, mas parece que, quanto mais tempo a gente se dedica a uma profissão, mais complicado fica voltar a trabalhar depois.” 

Em fevereiro, entrevistas de emprego eram mais raras do que em abril, conta ela, enquanto anota o telefone de duas empresas que anunciam vagas para atendentes em uma agência de empregos na zona oeste de São Paulo. “É a minha rotina agora, andar pelos quatro cantos da cidade, currículo debaixo do braço e a esperança que não vai embora, apesar de tudo.”

Ela ainda não entende como, em tão pouco tempo, as ofertas de emprego foram de R$ 2 mil para R$ 800. “O pior é que a gente primeiro estranha e depois se acostuma com essas propostas de salário mais baixo. Não tem jeito, quanto mais gente procurando emprego, menos vão querer pagar.”

Para não atrasar o aluguel e manter a filha mais nova, ela vai procurar também por outras funções. “Vou começar a me candidatar a vagas de limpeza. Hoje não dá para ficar escolhendo.” 

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