Procura por hotéis deve superar oferta na Copa

Aumento projetado da oferta supera a demanda em pelo menos quatro capitais

24 de fevereiro de 2012 | 23h00

A dois anos da realização da Copa do Mundo de 2014, só agora investimentos na ampliação do parque hoteleiro das 12 cidades-sede começam a acelerar. Em pelo menos quatro delas, a projeção de novos quartos ainda é inferior à demanda esperada para o ano seguinte ao mundial.

Enquanto isso, a linha especial de crédito do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) para o setor, criada há dois anos, consumiu menos de 25% do orçamento de R$ 1 bilhão.

O Placar da Hotelaria, levantamento da consultoria Hotel Invest, mapeou 20 mil novos quartos previstos para inauguração até 2015 nas doze cidades que sediarão jogos da Copa. Desse total, quase 40% são de projetos anunciados no segundo semestre de 2011.

Em Curitiba, Rio, São Paulo e Fortaleza, as unidades planejadas ainda estão aquém da alta do turismo de lazer e de negócios. Isso eleva taxas de ocupação e, consequentemente, preços e a dificuldade de reservas na Copa.

O BNDES financia 10 dos 12 estádios, com quase R$ 3,6 bilhões já comprometidos. Já o programa ProCopa Turismo, lançado em 2010, teve até agora uma demanda de R$ 633 milhões. Desse total, só R$ 245 milhões já foram aprovados.

A maior parte foi concentrada no Rio em projetos como unidades da bandeira Ibis, da rede Accor, na zona sul, e a reforma do luxuoso Hotel Glória, do empresário Eike Batista. O empreendimento da EBX consumiu sozinho R$ 146,5 milhões da linha do BNDES, mais da metade do aprovado até agora. Nessas operações, o banco oferece taxas entre 6,9% e 8,8% ao ano e prazos de até 18 anos.

Chama a atenção também a aprovação de R$ 32,5 milhões para um hotel na Cidade do Romeiro, em Aparecida (SP), bem longe do roteiro da Copa. A chefe do departamento de Cultura e Turismo (Decult) do BNDES, Luciane Gorgulho, diz que, apesar do nome, o objetivo do ProCopa Turismo é aproveitar a oportunidade do mundial para estimular o turismo em todo o País.

"O programa foi prorrogado até o final de 2012 e acreditamos que vamos emprestar todo o orçamento de R$ 1 bilhão, podendo ampliar, se necessário. Para nós, a linha é um sucesso, porque o BNDES só havia financiado R$ 43 milhões para esse setor antes do ProCopa", diz Luciane.

Segundo ela, a maioria das grandes operações em análise é de hotéis novos, mas chama a atenção para o aumento da participação do setor nas operações indiretas do BNDES, que financiam pequenas reformas, equipamentos e mobiliário. Somaram outros R$ 222 milhões em 2011, alta de 270% ante 2009.

Mudança

Paulo Fabbriani, presidente da incorporadora Fator Realty, diz que o mercado de hotéis está crescendo sem a ajuda do BNDES porque a atividade é cada vez mais imobiliária. O banco de fomento só financia projetos de operadores donos dos imóveis. Poucas redes, como Othon e Windsor, no Rio, crescem erguendo seus próprios hotéis. A maioria opera imóveis que pertencem a um conjunto de investidores, geralmente donos de uma fração equivalente a um quarto.

"O mercado cresce porque há uma demanda enorme e pouca oferta. Nenhum Estado hoje tem mais do que 50 mil quartos. São Paulo tem 42 mil. É muito pouco para uma economia como a brasileira", diz Fabbriani, à frente de 12 projetos hoteleiros da incorporadora, parceira da bandeira Caesar Park (Posadas), que somam R$ 1 bilhão. Para ele, o governo ajudaria mais o setor trocando o BNDES pela Caixa para financiar hotéis como empreendimentos imobiliários.

"O BNDES nunca quis ser o principal financiador de hotéis para a Copa porque não faz crédito imobiliário. As incorporadoras encontram financiamento nesse tipo de modelo", diz Marcus Vinicius Alves, gerente do Decult/BNDES. Segundo ele, o banco tem uma função complementar e só financia projetos que sejam sustentáveis após a Copa.

No levantamento da Hotel Invest, capitais como Salvador, Belo Horizonte, Manaus, Cuiabá e Brasília não preocupam pela falta, mas pelo excesso de oferta com a onda recente de empreendimentos. Nelas, há mais unidades projetadas do que a demanda esperada para 2015, elevando o risco de estarem construindo hotéis que ficarão às moscas após os jogos.

 

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