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Procuram-se culpados

Promessas de campanha de Trump, feroz discurso de posse e suas manifestações coletivas vêm produzindo interminável sucessão de acusações

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

19 de fevereiro de 2017 | 02h00

Para certos políticos, arrumar um culpado é sempre melhor do que arrumar uma solução.

No seu tempo, o presidente Jânio Quadros funcionava assim. Para ele, os culpados dos males do Brasil eram alternadamente os Estados Unidos, os corruptos, os “tubarões” que atuavam contra a economia popular ou, até mesmo, as tais “forças ocultas”, as mesmas que seu adversário Adhemar de Barros ironizava com gesto largo que sugeria a ingestão de alentados goles de cachaça. 

Desde o Êxodo, quando o povo hebreu descarregava suas frustrações sobre um bode expiatório, produzir catarse coletiva costuma sair mais barato do que enfrentar e resolver os problemas reais.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, já demonstrou que não consegue governar sem apontar culpados. Suas promessas de campanha, seu feroz discurso de posse e suas manifestações coletivas vêm produzindo interminável sucessão de acusações. Os alvos têm variado, de acordo com as conveniências e circunstâncias. São os imigrantes ilegais, os mexicanos que invadem a fronteira para vender cocaína e semear o crime. É o establishment que abandonou o desempregado à sua própria sorte. É o sistema plantado em Washington que prospera à custa do povo. É a política econômica dos governos anteriores que espalhou “fábricas enferrujadas como lápides”. É a indústria estrangeira que se enriqueceu com recursos do setor produtivo dos Estados Unidos. E são “os outros países que roubaram nossas empresas e destruíram nossos empregos”.

Agora, os ataques estão sendo dirigidos tanto contra o Judiciário dos Estados Unidos, que, segundo ele, produz sentenças que favorecem o jogo do terrorismo, como contra a imprensa, que, ainda na opinião do presidente norte-americano, é desonesta e vive do vazamento de notícias falsas.

Os comentaristas vêm se desdobrando para explicar esse comportamento do ponto de vista da racionalidade da política que se espera do presidente dos Estados Unidos.

Um caminho é entender que o presidente Trump tem de dar satisfação a seus eleitores e, assim, garantir a reeleição em 2020. Por mais que se empenhe em cumprir suas promessas de campanha, não tem como garantir as principais. É improvável que os trabalhadores do Cinturão da Ferrugem e a vasta classe média descontente que o elegeram terão de volta seus empregos de ponta e os salários dos bons tempos, num ambiente que já é de pleno-emprego, enquanto avança a utilização de tecnologias altamente poupadoras de mão de obra. 

Nessas condições, convém manter sob a alça de mira os culpáveis da hora: chineses, mexicanos e imigrantes, acusados de roubar empregos com salários rebaixados; a imprensa e o Judiciário, instituições que se encarregam de impedi-lo de agir e de cumprir o prometido.

Não há como saber aonde esse cabo de guerra vai parar, porque também não se sabe como os políticos vão reagir a Trump. O risco para ele é o de que esse jogo se desmoralize antes que a política desenvolvimentista (e protecionista) produza resultados que se traduzam por crescimento econômico e mais renda para a população norte-americana.

CONFIRA:

Aqui você tem a evolução da entrada de capitais de investimento nos últimos sete anos.

Investimento Estrangeiro

As Contas Externas de janeiro trouxeram boa surpresa: entrada recorde de US$ 11,5 bilhões em Investimento Direto no País. É mais do que o dobro de janeiro de 2016. Reflete o aumento da confiança na política econômica. O Banco Central prevê para 2017 a entrada total de R$ 75 bilhões e o mercado, de US$ 70 bilhões. É provável que essas previsões sejam largamente ultrapassadas. 

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