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Procuram-se R$ 300 bilhões

Como achar R$ 300 bilhões? Assim, de forma muito sintética, pode ser resumido o principal desafio econômico do presidente em exercício, Michel Temer, e de seu ministro da Fazenda, Henrique Meirelles. A conta simplificada é de Fernando Rocha, sócio e economista-chefe da gestora de recursos JGP. O déficit primário em 12 meses (exclui juros) do setor público está em torno de 2,5% do PIB em termos recorrentes, isto é, que desconsideram receitas e despesas excepcionais.

Fernando Dantas, O Estado de S.Paulo

13 de maio de 2016 | 05h00

Para equilibrar a trajetória da relação entre a dívida pública e o PIB, seria necessário chegar a um superávit primário recorrente de cerca de 2,5% do PIB. É um buraco, portanto, de 5% do PIB, ou de R$ 300 bilhões.

Os economistas podem empilhar todas as medidas que já foram cogitadas para dar conta da atual crise fiscal: CPMF, Cide, corte de programas sociais, reforma da Previdência, congelamento de salários de servidores, etc. A pilha nem de longe vai chegar aos R$ 300 bilhões. Para piorar, as medidas de ajuste fiscal que serão efetivamente implementadas devem ser bem menores do que aquela pilha, que já é bem menor que os R$ 300 bilhões necessários.

Pelo lado tributário, a própria base social que apoiou o impeachment, como bem ilustra o caso da Fiesp, não quer nem ouvir falar de aumento de impostos.

Pelo lado da despesa, também não será fácil. A nova oposição vem afiando uma história simples, mas com potencial de ser eficaz: a presidente afastada, do partido que tirou dezenas de milhões da pobreza, foi derrubada num “golpe” cujo objetivo é tirar direitos de trabalhadores e pobres em nome do lucro de empresários e especuladores do mercado financeiro.

E as complicações não param por aí. Desde 2013, as ruas proclamam que querem mais, melhores e mais baratos serviços públicos, o que não combina com ajuste fiscal. Estados estão quebrados e de pires na mão. Temer dará partida ao seu governo com um calendário atravancado pela Olimpíada e pelas eleições municipais. É difícil que qualquer medida complexa e impopular seja votada no Congresso antes de outubro.

Finalmente, o fantasma da Lava Jato paira sobre diversos ministros importantes de Temer, e até sobre o próprio presidente.

Visto na perspectiva delineada acima, o governo Temer, no campo econômico, parece uma missão impossível. No entanto, há um tímido otimismo no mercado, baseado em uma série de fatores positivos.

Em primeiro lugar, se a situação fiscal é um horror, a inflação hoje parece mais manejável e o ajuste externo já aconteceu. A recessão e o desemprego são brutais, mas, exatamente por partir de nível tão baixo, a melhora pode ser rápida se a confiança for recuperada (embora o mercado de trabalho, que costuma ser mais defasado, ainda deve piorar por um tempo antes de melhorar).

Na crucial área fiscal, talvez uma forte indicação de que o buraco será fechado gradativamente, num cronograma crível, possa satisfazer os investidores, se o ambiente externo de liquidez abundante se mantiver. Se houver surpresa positiva em termos de retomada da economia e das receitas, e de queda do juro real, a conta muda e o buraco pode se tornar menor que os R$ 300 bilhões.

E, finalmente, em termos de equipe econômica, são muito bons os nomes já escolhidos, como os de Meirelles e de Ilan Goldfajn no Banco Central, e aqueles ainda não confirmados, como Mansueto Almeida, especialista em contas públicas, no Tesouro Nacional, e alguns outros bem conhecidos e admirados nos meios econômicos e financeiros. “São ótimos nomes e mostram disposição de ir com força na questão fiscal”, diz Solange Srour, economista-chefe da gestora ARX.

Se virar o jogo é extremamente difícil, é fundamental que o time esteja repleto de craques. Esta é uma obviedade que, pelo menos na área econômica, Michel Temer parece compreender.

 

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