Produção de aço no Brasil registra queda pela primeira vez desde 2008

O setor siderúrgico registrou este ano a primeira queda de produção desde 2008, quando a crise desencadeada pela quebra Banco Lehman Brothers arrastou a economia mundial para um período de forte retração. O Instituto Aço Brasil (IABr) prevê que a fabricação de aço bruto alcance 34,8 milhões de toneladas, uma queda de 1,1% em relação ao ano passado. Para 2013, o cenário ainda é muito nebuloso. Tanto que o instituto nem se arriscou a fazer uma projeção.

MÔNICA CIARELLI / RIO, O Estado de S.Paulo

28 de novembro de 2012 | 02h09

"Esse é um retrato de um mercado que não cresceu na expectativa que nós tínhamos", disse o presidente do IABr, Marco Polo de Melo Lopes. Além de fatores internos, como a parada do alto forno da usina da ArcelorMittal, o fraco desempenho reflete também uma superoferta de aço no mercado mundial de mais de 500 milhões de toneladas.

Um problema que tende a se agravar ao longo de 2013, segundo o instituto. Para o presidente do conselho do IABr, Albano Chagas Vieira, o excedente de produção deve crescer puxado pela China. Este ano, as siderúrgicas brasileiras sentiram em seus resultados a menor demanda por aço no exterior. Pelos cálculos do instituto, a exportação de produtos siderúrgicos brasileiro caiu 10,9%, totalizando 9,7 milhões de toneladas.

"(A situação) aqui está difícil, lá fora está ruim. Por que colocar capacidade nova? Não há viabilidade econômica", afirmou Lopes, ao descartar novos investimentos em aumento de capacidade de produção no setor no curto prazo. "Todos os projetos de expansão estão suspensos", garantiu. No início do ano, a previsão era US$ 16 bilhões fossem investidos no Brasil até 2016 em projetos de expansão de capacidade produtiva.

Além de projetos engavetados, o setor vive também o drama de ter uma siderúrgica recém-inaugurada, a Companhia Siderúrgica Atlântico (CSA), já colocada à venda pela controladora, a alemã ThyssenKrupp. O momento de retração da economia mundial não tem favorecido as negociações. O quadro de incertezas pode atingir os investimentos em siderurgia da Vale, que tem três projetos no portfólio. Em dezembro, a mineradora brasileira anuncia seu novo plano estratégico e deve informar sobre o andamento desses projetos.

Capacidade. O presidente do conselho do IABr se mostrou preocupado com os dados de utilização da capacidade instalada do setor. Segundo ele, a atual capacidade ociosa poderia atender a 100% da demanda interna de aço no País. A previsão da entidade é de que o uso da capacidade do setor fique em 72,5% este ano.

O executivo lembrou que, até 2008, a taxa de uso de capacidade variava na casa dos 80%. A queda começou em 2009, no auge da crise financeira mundial, quando a retração da economia internacional levou ao fechamento de seis altos-fornos. "O problema é que o mercado não pode crescer apenas para fora, tem de crescer para dentro."

O cenário traçado pelo IABr é ratificado pelo analista Vitor Penna, do Banco do Brasil. "Enquanto o espaço ocioso de capacidade das empresas não for ocupado, não haverá uma recuperação firme. O setor vai continuar patinando." Para ele, o comportamento do setor em 2013 vai depender também da adoção ou não de medidas de estímulo pelo governo, que pode contribuir para aumentar as vendas e, com isso, ajudar na melhoria do desempenho das usinas nacionais.

Mesmo sem fazer previsões para o comportamento da produção em 2013, Vieira aposta em melhores resultados. Segundo ele, conta a favor do setor siderúrgico a perspectiva de queda na tarifa de energia, a alta do dólar e a possibilidade de o governo ampliar a taxação sobre a importação de produtos siderúrgicos.

Vieira prevê uma queda de 4% nos custos de produção do setor siderúrgico com a redução de 20% na tarifa de energia elétrica pretendida pelo governo. Segundo ele, esse corte nos custos será importante para as companhias, que apresentaram resultados muito negativos este ano em função da fraca demanda por produtos siderúrgicos no Brasil e no mundo.

Além disso, acredita, o fim da guerra fiscal nos portos brasileiros a partir de janeiro também deve beneficiar o segmento, Com isso, explica Vieira, as usinas brasileiras devem conseguir recuperar parte da participação de mercado perdida para as importações ao longo deste ano.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.