Produção de álcool já caiu 25,5% neste ano, até maio

Problemas climáticos atrasaram a moagem, mas também houve redução da área plantada

DANIELA AMORIM / RIO, O Estado de S.Paulo

26 de julho de 2012 | 03h05

A produção nacional de álcool recuou 25,5% de janeiro a maio deste ano, na comparação com o mesmo período do ano passado, segundo cálculos do economista Silvio Sales, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), feitos a pedido da 'Agência Estado'.

Problemas climáticos prejudicaram a produtividade da cultura de cana este ano e atrasaram a moagem, mas também houve redução na área plantada, o que deve afetar ainda a safra de 2013. As perdas foram calculadas com base nos dados da Pesquisa Industrial Mensal, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). "Na produção industrial, o que está puxando o setor de refino são os derivados de petróleo, não o álcool. A produção de álcool está caindo muito", notou Sales.

A concorrência com os preços do açúcar e a falta de investimentos no setor também estão prejudicando a produção. Como consequência, torna-se menos viável uma decisão do governo em prol do aumento do porcentual de etanol na gasolina, de 20% para 25%, ainda este ano, conforme cogitou o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, em evento no Rio, no dia 10.

Segundo Lobão, a proposta de aumentar o teor do álcool anidro na gasolina foi apresentada pela Petrobrás, na tentativa de reduzir a importação de gasolina. Porém, o ministro reconheceu, dez dias depois, que a oferta de etanol no País ainda é insuficiente para aumentar a mistura. "De onde vão tirar esse álcool?", questionou o engenheiro de produção Cristiano Guimarães, consultor da indústria sucroalcooleira.

Guimarães apontou como problema a margem de lucro apertada do setor sucroalcooleiro, o que deixa os empresários desestimulados a investir ante um cenário de incertezas e dos altos juros nas linhas de crédito. "A lavoura de cana é intensiva em investimentos. Mas a linha de crédito do BNDES para incentivar o setor não adianta nada. O produtor tem margem de lucro de 10%, enquanto a linha de crédito do BNDES cobra juros de 8%. O produtor só pega financiamento se for maluco."

O pesquisador Mauro Andreazzi, gerente da Coordenação de Agropecuária do IBGE, confirma que a crise no crédito vem atrapalhando o ritmo de crescimento da produção de cana desde 2008. Os planos de novas usinas não teriam saído do papel por falta de recursos disponíveis. Também houve perdas pela falta de renovação no plantio. "A cana dá vários cortes, mas, se não houver investimento na lavoura, o rendimento vai caindo", contou Andreazzi.

O IBGE calcula que a área plantada este ano é 10% menor do que em 2011. "Então a gente pode concluir que a produção também vai cair no ano que vem, porque se plantou menos", alertou o gerente do IBGE.

O Levantamento Sistemático da Produção Agrícola do IBGE estima produção de 662.014.177 toneladas de cana-de-açúcar em 2012, uma redução de 7,4% em relação a 2011. A estiagem no início do ano em São Paulo, maior região produtora, retardou o desenvolvimento da planta. As chuvas só chegaram na hora da colheita, o que também atrasou a moagem e prejudicou o conteúdo de açúcar.

A produção de açúcar vinha ganhando do etanol pela valorização do produto no mercado internacional. No entanto, os problemas climáticos que deixaram a cana com menor teor de açúcar este ano podem até favorecer a produção do biocombustível.

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