Produção de carros pode superar demanda em 1,8 milhão de unidades

Para a consultoria Roland Berger, se todas as fábricas anunciadas saírem do papel, produção, em 2017, será muito superior ao mercado

MARINA GAZZONI, O Estado de S.Paulo

20 de setembro de 2012 | 03h06

Os investimentos das montadoras em novas fábricas e na ampliação de unidades no Brasil vão elevar a capacidade de produção de carros e veículos comerciais leves em quase 60% no País até 2017, segundo levantamento da consultoria Roland Berger com base nas informações divulgadas pelas empresas.

Os projetos vão adicionar 2,5 milhões de unidades à capacidade instalada no Brasil e poderão provocar um excesso de produção de até 1,8 milhão de unidades, segundo a consultoria. "Se todos os investimentos se concretizarem, teremos excesso de capacidade em 2017", disse Stephan Keese, sócio da Roland Berger e especialista no setor automotivo. "Esse cenário é ruim para as montadoras. Pode provocar guerra de preços e corroer a rentabilidade."

A capacidade instalada das montadoras no País subirá dos atuais 4,3 milhões para 6,8 milhões em cinco anos, segundo estimativas da Roland Berger. Só as montadoras asiáticas elevarão sua capacidade de produção de 287 mil carros neste ano para 830 mil em 2017, diz a consultoria. A construção da nova fábrica da japonesa Toyota em Sorocaba (SP) e da unidade da coreana Hyundai em Piracicaba (SP), por exemplo, entram nessa conta.

A produção total de veículos no Brasil é projetada em 5,4 milhões de unidades em 2017, considerando a manutenção da taxa de ocupação das fábricas em cerca de 80%. Mas a Roland Berger estima que o País precisará produzir menos - entre 3,7 milhões e 5,2 milhões de unidades, dependendo do aquecimento da economia. Isso poderá gerar um excesso de produção entre 200 mil e 1,8 milhão de unidades por ano, segundo o estudo. A conta considera que o nível de importação se manterá estável e que a venda de veículos no País ficará entre 4,3 milhões e 5,8 milhões.

O mesmo movimento deve ocorrer no segmento de caminhões e ônibus, estima a Roland Berger, que prevê um aumento da capacidade de quase 80%.

"Devemos ter investimentos postergados para evitar a corrosão da rentabilidade", disse Keese. Segundo ele, esse movimento já começou. A fabricante de caminhões MAN, por exemplo, colocou na gaveta seu plano de construção de uma fábrica no Rio, em meio à queda nas vendas neste ano. A JAC Motors foi outra que adiou sua fábrica na Bahia, aguardando as definições do novo acordo automotivo, que deve ser anunciado hoje.

"Não acredito que todos os investimentos anunciados se concretizem. Muitos não vão se enquadrar no novo regime automotivo", disse o presidente da associação dos importadores, a Abeiva, Flavio Padovan. As fábricas precisão atender índices de nacionalização para pagar menos tributos. Assim, companhias que pretendiam importar a maior parte das peças para montar o carro no Brasil terão menos benefícios tributários.

Balança comercial. A consultoria PricewaterhouseCoopers estima que as novas fábricas no Brasil farão a produção local de veículos empatar com a demanda em 2015. No ano passado, o Brasil produziu 3,4 milhões de veículos, mas vendeu um pouco mais - 3,6 milhões, segundo dados da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea).

"O ponto-chave para o equilíbrio é a balança comercial. Se a exportação for maior que a importação, não teremos excesso de produção. Mas, se for o contrário, podemos ter problemas", disse o sócio da Price responsável pelo segmento automobilístico, Marcelo Cioffi.

Para ele, até 2011, o cenário era favorável à produção no exterior. "Tanto que as próprias montadoras que têm fábrica no Brasil importaram 650 mil unidades em 2011, cerca de 75% do total", disse Cioffi.

Medidas protecionistas tomadas pelo governo, como o aumento de 30 pontos porcentuais no Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) de veículos importados, podem inverter o cenário nos próximos anos, avaliou o sócio da Price.

"Mesmo as montadoras que produzem em países que têm acordo com o Brasil, como o México, tendem a substituir essas importações por produção local para conseguir crescer", explicou Cioffi. As empresas terão de respeitar uma cota de importação para preservar os benefícios tributários.

Procurada, a Anfavea não quis comentar a questão.

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