Taba Benedicto/Estadão
Taba Benedicto/Estadão

Produção industrial sobe 3,9% em 2021, aponta IBGE

Setor interrompeu sequência de seis meses sem alta e subiu em dezembro

Vinicius Neder e Cícero Cotrim, O Estado de S.Paulo

02 de fevereiro de 2022 | 09h04
Atualizado 02 de fevereiro de 2022 | 15h05

RIO E SÃO PAULO - A produção industrial subiu 3,9% em 2021 em relação ao ano anterior, de acordo com os dados da Pesquisa Industrial Mensal, divulgada nesta quarta-feira, 2, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Foi o maior avanço anual desde 2010, mas insuficiente para recuperar totalmente as perdas de 2020, quando o tombo de 4,5% na produção foi marcado pela pandemia de covid-19.

Na comparação mensal, a produção industrial subiu 2,9% em dezembro em relação a novembro, a primeira alta desde maio de 2021. Interrompeu uma sequencia de seis meses de desempenhos negativos ou com variação nula. Foi a maior alta desde agosto de 2020, quando avançou os mesmos 2,9% ante julho daquele ano, ainda nos primeiros meses de recuperação após o fundo do poço atingido no início da pandemia. O IBGE também divulgou que revisou o resultado da produção industrial em novembro ante outubro de 2021, de uma ligeira queda de 0,2% para variação nula. A taxa de outubro ante setembro passou de -0,6% para -0,5%. 

A alta de dezembro ocorreu em 20 dos 26 setores investigados na Pesquisa Industrial Mensal - Produção Física e foi puxada pelo salto de 12,2% na produção de veículos automotores, reboques e carrocerias e pelo avanço de 2,9% na fabricação de produtos alimentícios.

Também contribuíram para o desempenhos os setores de equipamentos de informática, produtos eletrônicos e ópticos (alta de 12%), metalurgia (3,8%), indústrias extrativas (1,6%), produtos de minerais não-metálicos (2,0%), máquinas e equipamentos (1,3%), celulose, papel e produtos de papel (1,7%) e couro, artigos para viagem e calçados (4,5%)”.

Problemas estruturais

Segundo especialistas, os problemas estruturais de competitividade persistem, e os gargalos nas cadeias globais de produção (que levam à escassez e encarecimento de insumos, como semicondutores) ainda não ficaram totalmente para trás. Para piorar, a variante Ômicron do novo coronavírus e a fraqueza do consumo doméstico representam riscos para este ano.

O avanço de 2,9% produção industrial em dezembro ante novembro foi “fora do padrão” mostrado pelo setor industrial ao longo de 2021, segundo André Macedo, gerente da Coordenação de Indústria do IBGE. “Dezembro traz alento, vínhamos com quedas sucessivas, mas ainda assim é um primeiro ponto. Não temos uma leitura que nos permita colocar que está iniciando uma trajetória ascendente da produção”, afirmou Macedo.

Mesmo a disseminação do crescimento – a produção cresceu em 20 dos 26 ramos pesquisados pelo IBGE, na passagem de novembro para dezembro passado – estaria mais associada a uma correção após meses de queda do que a uma perspectiva de aumento de demanda ou de solução dos gargalos nas cadeias globais de produção, disse o pesquisador do IBGE.

O mesmo vale para a indústria automotiva, uma das mais atingidas pela escassez de insumos, que viu sua produção saltar 12,2% ante novembro. A produção de veículos, ao lado da alta de 2,9% na fabricação de alimentos, puxou o crescimento agregado na passagem de novembro para dezembro.

“A produção industrial surpreendeu, sem dúvida, mas acho que vale a pena contextualizar esse avanço, depois de uma sequência longa de declínios”, disse o estrategista-chefe do Banco Mizuho para América Latina, Luciano Rostagno. “Me parece mais um ajuste do que uma mudança de tendência, porque o cenário para a indústria este ano é desafiador”, completou.

Em nota, o estrategista-chefe do banco digital Modalmais, Felipe Sichel, citou como elementos do cenário desafiador novas restrições nas cadeias de produção que poderão ser causadas pelo avanço da Ômicron, a continuidade do ciclo de alta da taxa básica de juros no Brasil (que arrefece o ímpeto de consumo, especialmente de bens duráveis), a perspectiva de alta de juros também nos Estados Unidos (que pode elevar ainda mais a cotação do dólar) e a incerteza trazida tanto pelas eleições gerais de outubro quanto pelo desequilíbrio das contas do governo.

“A surpresa positiva (em dezembro passado) ainda não apaga o cenário desafiador para a indústria nos próximos meses”, escreveu Sichel.

Trajetória de piora

Macedo, do IBGE, destacou ainda que o avanço mais acelerado de dezembro não apagou a trajetória de piora ao longo de 2021, ano que era mesmo para ser marcado por forte alta, que já 2020 foi de queda grande, por causa da pandemia. O pesquisador lembrou que, em agosto do ano passado, a produção industrial registrava avanço de 7,2% no acumulado em 12 meses. Essa alta foi minguando mês a mês, até chegar aos 3,9% no fechamento do ano.

Além disso, mesmo com a alta de 2,9% ante novembro, o nível da atividade da indústria ainda está 0,9% abaixo do registrado em fevereiro de 2020, antes de a covid-19 se abater sobre a economia. Na comparação com o pico da produção na série histórica do IBGE, registrada em maio de 2011, o desempenho de dezembro passado ainda está 17,7% abaixo.

Outro sinal de alerta é que essa retomada perante ao quadro anterior à pandemia é desigual entre as atividades industriais: 16 ramos ainda estão abaixo do nível de produção de fevereiro de 2020, nove estão acima do visto antes da pandemia, enquanto um setor, a indústria extrativa, está exatamente no mesmo patamar pré-pandemia.

A discrepância ocorre também entre as categorias econômicas da indústria, lembrou Macedo. Enquanto o nível de produção de bens duráveis estava, em dezembro, 16,4% abaixo do registrado em fevereiro de 2020, a produção de bens de capital estava 22,7% acima do patamar pré-pandemia.

A fabricação de bens de capital fechou 2021 com salto de 28,3% ante 2020. Segundo Macedo, o bom desempenho foi puxado por caminhões, maquinário destinado à agropecuária, como tratores e colheitadeiras, e maquinário destinado para a construção civil. Os bens de capital utilizados pela própria indústria são exceção, especialmente quando se compara o desempenho de dezembro passado com o de igual mês de 2020, disse Macedo. A alta de 5,8% na produção de bens de capital ante dezembro de 2020 foi espalhada, mas a produção de máquinas industriais caiu 13% na mesma base de comparação.

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