Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Produção industrial sobe 0,1% em abril ante março, diz IBGE

No acumulado do ano, que tem como base de comparação o mesmo período do ano anterior, a indústria teve uma queda de 3,4%

Daniela Amorim, O Estado de S.Paulo

03 de junho de 2022 | 10h26
Atualizado 03 de junho de 2022 | 13h07

RIO - A indústria brasileira começou o segundo trimestre no azul. A produção teve ligeira alta de 0,1% em abril ante março, segundo os dados da Pesquisa Industrial Mensal divulgados nesta sexta-feira, 3, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 

A melhora na produção já perdura por três meses, mas é ainda insuficiente para recuperar todas as perdas recentes provocadas pelos problemas que persistem tanto pelo lado tanto da oferta quanto da demanda, avaliou André Macedo, gerente da Coordenação de Indústria do IBGE.

“Há melhora clara do ritmo de produção muito associada a uma volta à normalidade, a uma melhora da circulação das pessoas, fim da restrição de mobilidade”, justificou Macedo.

 

Para Cláudia Moreno, economista do C6 Bank, a produção industrial “anda de lado”, influenciada pelo preço das commodities e pelos juros altos.

“A pequena expansão industrial registrada nos últimos meses e os dados fortes de serviço corroboram nosso cenário de PIB de 1,5% ao final do ano, mas não descartamos um crescimento um pouco mais forte”, disse Moreno, em nota. “O que ajuda a explicar essa tendência são, do lado positivo, o preço das commodities, que está em alta no mercado internacional, e, do lado negativo, os juros altos, a desaceleração da economia global e novas rupturas das cadeias globais de produção decorrentes do conflito na Ucrânia e do recrudescimento de casos de Covid na China”, completou.

Apesar de pequeno, o crescimento na produção em abril deve ser comemorado, defende Sérgio Duarte, presidente da Rio Indústria,  Associação de Industrias do Estado do Rio de Janeiro.

“Com o avanço da vacinação já percebemos o mercado consumidor melhorando um pouco, mas a indústria ainda tem desafios muito fortes, como a alta dos preços das matérias-primas, um custo de energia muito alto, como gás e petróleo. Isso tudo afeta muito os custos do setor industrial. Do outro lado, temos um consumidor com perda de renda por causa da inflação, e isso afeta diretamente o seu consumo. Mas, seguimos acreditando que o setor industrial do Brasil vai se recuperar, mas com muitos desafios", afirmou Duarte, em nota.

A produção industrial ficou praticamente estável em abril após expansões de 0,6% em março e 0,7% em fevereiro, acumulando no período um avanço de 1,4%. No entanto, em janeiro de 2022 ante dezembro de 2021, tinha havido recuo de 1,9%.

"É um resultado positivo (em abril), embora muito próximo à margem (estabilidade)", afirmou André Macedo, do IBGE. "Tem de fato uma melhora da produção industrial, mas ainda insuficiente para superar não só a perda de janeiro, mas a perda de meses passados", ponderou.

Em abril, a indústria brasileira operava 1,5% aquém do patamar de fevereiro de 2020: apenas dez das 26 atividades investigadas se mantinham em nível superior ao pré-crise sanitária. Entre as categorias de uso, a produção de bens de capital estava 7,1% acima do nível de fevereiro de 2020, e a fabricação de bens intermediários, 3,0% além. Já os bens duráveis ficaram 27,4% abaixo do pré-pandemia, e os bens semiduráveis e não duráveis, 6,6% aquém.

"(A indústria) ainda está muito aquém de eliminar perdas do passado, haja vista que ainda está abaixo do patamar pré-pandemia. Ainda há espaço importante a ser superado", afirmou Macedo.

Segundo o gerente do IBGE, o mau desempenho de veículos automotores ajuda a explicar que a categoria de bens duráveis esteja em patamar abaixo do pré-pandemia. Na passagem de março para abril, a produção de bens de consumo duráveis caiu 5,5%, enquanto a de bens de capital encolheu 9,2%. A atividade de veículos teve uma queda de 4,2% na produção no período.

"As duas categorias têm em comum serem afetadas por veículos. A produção de automóveis vai impactar a produção de duráveis, e também a produção de caminhões vai impactar a produção de bens de capital", explicou Macedo.

Em duráveis, houve contribuição negativa também da menor produção de motocicletas e de eletrodomésticos da linha marrom. Já em bens de capital, houve perdas importantes ainda no segmento voltado para a própria indústria, modernização de parque produtivo.

No caso de veículos, Macedo aponta que o encarecimento do crédito e a inadimplência em patamar elevado afetam o desempenho do setor, assim como a falta de insumos e componentes, que levam a paralisações em montadoras.

“A dificuldade de acesso a matérias-primas, acesso a componentes eletrônicos, faz com que várias plantas industriais estejam ainda interrompendo processo produtivo, concedendo férias coletivas”, disse Macedo. “O comportamento dessa atividade tem correlação importante com outros segmentos industriais, e isso, claro, traz toda a cadeia para o comportamento negativo”, frisou ele, sobre os reflexos negativos em outros segmentos.

Para o gerente do IBGE, a indústria ainda enfrenta problemas de oferta e de demanda. Pelo lado da oferta, ele menciona o desabastecimento de insumos e os aumento nos custos de produção, enquanto que a demanda doméstica sofre com encarecimento do crédito, inflação alta e massa salarial depreciada.

“Os juros em elevação encarecem as condições de crédito, a inflação em patamares mais altos diminui a renda disponível. O mercado de trabalho, embora mostre alguma recuperação, tem a massa de rendimento ainda aquém do que tinha em anos anteriores”, explicou. “Mesmo considerando algumas medidas de governo de estímulo à renda, como Auxílio Brasil, liberação de FGTS, mesmo assim, ainda tem uma demanda doméstica afetada pela inflação mais elevada, que corrói a renda da população”.

Nos próximos resultados, o desempenho da produção industrial deve ser limitado, com expectativa de retração, prevê Samanta Imbimbo, analista da Tendências Consultoria Integrada.

“O cenário para o restante do ano contempla, especialmente, o quadro de desaceleração da demanda interna por bens industriais, considerando tanto o aumento da demanda por serviços, dada a normalização do quadro sanitário, quanto o cenário de menor dinamismo do mercado de trabalho, manutenção de pressões inflacionárias e alta de juros, aspectos que restringem o consumo das famílias e desestimulam investimentos. Por fim, o segmento industrial ainda enfrenta pressões de custo de produção e escassez de alguns insumos, sob efeito do desbalanço das cadeias globais de suprimentos e logística, fatores que também limitam a produção do setor”, corrobora Imbimbo, em nota.

 

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