Taba Benedicto/Estadão
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Produção industrial cresce 1,4% em maio após três meses de queda

Segundo o IBGE, a indústria voltou ao patamar de fevereiro de 2020, antes da pandemia

Daniela Amorim e Cícero Cotrim , O Estado de S.Paulo

02 de julho de 2021 | 09h43
Atualizado 02 de julho de 2021 | 14h16

RIO e SÃO PAULO - Após um período de dificuldades em meio à segunda onda da pandemia de covid-19, a indústria brasileira mostrou reação em maio. A produção cresceu 1,4% em relação a abril, recuperando apenas parte da perda de 4,7% acumulada nos três meses anteriores de retração. Os dados são da Pesquisa Industrial Mensal, divulgados nesta sexta-feira, 2, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O relaxamento de restrições sanitárias em combate à disseminação da covid-19 e a reedição do pagamento do auxílio emergencial ajudaram o desempenho em maio, afirmou André Macedo, gerente da Coordenação de Indústria do IBGE.

“A questão da pandemia permanece, mas há claramente um relaxamento maior das questões sanitárias e restrições de mobilidade em relação a março e abril. Em abril, tem o pagamento do auxílio emergencial. Embora em magnitude muito abaixo do que foi pago no ano passado, é algo que incorpora um pouco de renda na economia. A grande questão é se isso vai permanecer daqui para frente ou não”, disse Macedo.

A retomada firme da economia global e a recuperação da confiança dos empresários também contribuíram para a melhora em maio, acrescentou o economista Rodolfo Margato, da XP Investimentos, que estima nova expansão da indústria em junho, de 1,5%.

“É claro que existem riscos importantes (para os próximos meses), fatores que pesam no sentido contrário, como o atraso de entrega de matérias-primas em algumas cadeias, aumento de custos de alguns insumos como aço e o aumento da eletricidade. Mas, considerando tudo, há sinais de continuidade da recuperação”, avaliou Margato.

Na passagem de abril para maio, houve expansão em 15 dos 26 ramos industriais pesquisados. As maiores contribuições positivas partiram de produtos alimentícios (2,9%), derivados do petróleo e biocombustíveis (3,0%) e indústrias extrativas (2,0%).

"A alta em maio é incapaz de reverter perdas recentes do setor industrial. A trajetória descendente permanece", ponderou André Macedo, do IBGE.

O recrudescimento da pandemia de covid-19 no País e seus efeitos sobre a produção e a demanda doméstica ainda prejudicam o desempenho da indústria neste ano, defende Macedo. Ele sustenta ainda que a melhora no comportamento industrial observada em maio se deu em relação a uma base de comparação depreciada, o que inspira cautela. 

O baixo dinamismo da indústria atualmente é explicado em parte pela taxa de desemprego ainda bastante elevada no País, massa de salários sem avanços, renda mais baixa e inflação mais alta, enumerou Macedo. “Isso tudo explica muito esse comportamento de 2021”, resumiu o gerente do IBGE.

Com a melhora registrada na produção em maio, a indústria brasileira voltou a operar no patamar de fevereiro de 2020: 13 das 26 atividades investigadas se mantêm operando em nível superior ao pré-crise sanitária. Os níveis mais elevados em relação ao patamar pré-pandemia foram os registrados pelas atividades de máquinas e equipamentos (18,4%), minerais não metálicos (14,4%) e metalurgia (12,8%). No extremo oposto, os segmentos mais distantes são vestuário (-14,8%), couro e calçados (-12,5%) e veículos (-11,3%).

Em janeiro deste ano, quando ainda se recuperava ininterruptamente do choque inicial da pandemia, a indústria alcançou um saldo positivo de 3,5% em relação ao pré-covid. Após três quedas seguidas, em abril, a produção chegou a ficar 1,4% aquém do nível de fevereiro de 2020.

"O principal determinante do crescimento da indústria daqui para a frente, arrisco dizer, nem vai ser a demanda por bens, mas a superação de gargalos na cadeia produtiva", afirma o economista Homero Guizzo, da Guide Investimentos. "Acho que o setor mais emblemático que vai continuar sofrendo ainda por algum tempo é a indústria de automóveis. A cadeia de suprimentos de eletrônicos embarcada nos automóveis enfrenta sérias dificuldades e isso aparentemente vai demorar um pouco mais para normalizar."

A produção industrial cresceu 24% em maio de 2021, na comparação com maio de 2020, impulsionada pela base de comparação baixa. Naquele mês, o setor tinha registrado uma queda de 21,9% ante maio de 2019, devido aos impactos da pandemia sobre o funcionamento de plantas industriais.

Se comparado o patamar de produção de maio deste ano com maio de 2019, a indústria teve uma queda de 3,1%, ressaltou André Macedo, gerente do IBGE.

“É só para relativizarmos a disseminação e magnitude das taxas”, disse Macedo. “Há uma melhora até o final do ano passado, até início de janeiro desse ano, mas ainda é insuficiente para garantir toda e qualquer trajetória ascendente para esse setor industrial”, completou.

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