Taba Benedicto/Estadão
Taba Benedicto/Estadão

Ainda sob efeito da pandemia, produção industrial fica estável em junho

Mesmo com o indicador geral com variação nula no mês, 14 das 26 atividades investigadas pelo IBGE tiveram queda

Vinicius Neder, Cícero Cotrim e Guilherme Bianchini, O Estado de S.Paulo

03 de agosto de 2021 | 09h40
Atualizado 03 de agosto de 2021 | 13h58

RIO e SÃO PAULO - Após subir em maio, a produção industrial ficou estável em junho, com variação nula frente ao mês anterior, confirmando as dificuldades de a retomada da economia se sustentar no longo prazo, ainda sob os efeitos da pandemia. Com a estabilidade, a atividade da indústria terminou o segundo trimestre com queda de 2,5% ante os três primeiros meses do ano, informou nesta terça-feira, 3, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Ao longo do segundo semestre do ano passado, na retomada após afundar no início da pandemia, a atividade da indústria se recuperou para além do registrado em fevereiro de 2020, ante de a covid-19 se abater sobre a economia. Em janeiro deste ano, após nove meses de alta, ficou 3,5% acima do mês pré-pandemia. Desde fevereiro último, porém, a recuperação vem rateando. Em junho, assim como em maio, a produção industrial ficou no mesmo nível de fevereiro de 2020.

O resultado de junho foi marcado pelo predomínio de desempenhos negativos entre os segmentos da indústria - 14 dos 26 ramos pesquisados pelo IBGE tiveram queda. O destaque negativo foi a queda de 3,8% na produção de veículos, atingida, principalmente, por restrições causadas pela falta de matérias-primas, como os microchips usados nos carros, o que deixa claro que a crise causada pela covid-19 está longe de ficar para trás.

Desde o segundo semestre do ano passado, a escassez e o encarecimento dos insumos são atribuídos à alta do dólar e a uma desorganização nas cadeias globais da indústria, inclusive por problemas logísticos. Segundo André Macedo, gerente da Coordenação de Indústria do IBGE, em junho, o desarranjo das cadeias na indústria automotiva ficou claro nas paralisações e reduções de jornada de trabalhadores.

Só que o setor automotivo não fica isolado. Sozinha, a fabricação de veículos automotores responde por de 10% a 11% da produção industrial nacional agregada, disse Macedo. Além disso, ao demandar insumos de diversas outras indústrias, como metalurgia, outros produtos químicos, borracha, máquinas e aparelhos elétricos, o setor automotivo tem efeito ainda maior.

“Em diversos segmentos, há algum ponto de ligação com a indústria automobilística. As ramificações em outros setores ajudam no comportamento negativo predominante na indústria”, afirmou.

Para o pesquisador do IBGE, uma recuperação mais consistente da produção industrial depende da “normalização dos efeitos da pandemia”, como a “readequação das cadeias produtivas e a normalização da chegada de insumos”. O avanço da vacinação também deverá ter impacto positivo no curto prazo. Só que isso não basta. A fraqueza na demanda doméstica, com desemprego elevado, restrições nos rendimentos das famílias e inflação impedem uma retomada mais sustentável da indústria.

“O consumidor tem menos renda disponível, já que a inflação de bens essenciais está muito alta e o mercado de trabalho não está dinamizado”, disse a economista Andressa Guerrero, da Tendências Consultoria.

A queda na produção de veículos puxou o recuo de 0,6% nos bens de consumo duráveis em junho ante maio. A única categoria de produção que não registrou queda nessa base de comparação foi bens de capital, com avanço de 1,4%, o terceiro mês seguido de alta.

Para Daniel Xavier, economista-sênior do banco ABC Brasil, o desempenho de bens de capital foi o destaque positivo dos dados do IBGE, pois são “sinal de ganho de confiança dos empresários no sentido de impulsionar o investimento doméstico”. Por outro lado, Macedo, do IBGE, lembrou que, nos três meses de alta, essa categoria acumulou avanço de 5,9% na produção, abaixo da queda acumulada de 9,5% em fevereiro e março.

No caso da produção de bens de consumo, analistas esperam um desempenho melhor neste segundo semestre, à medida que a escassez e encarecimento de matérias-primas forem gradualmente resolvidos. Só que a retomada poderá ser freada pelo baixo apetite das famílias em consumir.

“No segundo semestre, esses segmentos [bens de consumo] têm algum espaço para recuperação gradual, mas, do ponto de vista geral, o número é enfraquecido por conta do mercado de trabalho, e a inflação corrói o poder de consumo das famílias de renda mais baixa”, disse Mauricio Nakahodo, economista-sênior do banco MUFG Brasil.

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