Taba Benedicto/Estadão
Taba Benedicto/Estadão

Produção industrial sobe 0,3% em março ante fevereiro

Em 12 meses, a produção acumula alta de 1,8%, segundo dados do IBGE

Daniela Amorim e Guilherme Bianchini, O Estado de S.Paulo

03 de maio de 2022 | 09h25
Atualizado 03 de maio de 2022 | 13h23

RIO E SÃO PAULO - A indústria brasileira encerrou o primeiro trimestre do ano com melhora na produção, embora insuficiente para recuperar todas as perdas recentes provocadas pelos problemas ainda persistentes tanto pelo lado da oferta quanto da demanda.

A produção cresceu 0,3% em março ante fevereiro, após uma expansão de 0,7% no mês anterior, acumulando no período um avanço de 1%. O setor, porém, vinha de um recuo de 2% em janeiro ante dezembro, mostraram os dados da Pesquisa Industrial Mensal, divulgados nesta terça-feira, 3, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)

Houve expansão em março em 14 dos 26 ramos pesquisados, mas a indústria brasileira ainda operava 2,1% aquém do patamar de fevereiro de 2020, antes do agravamento da covid-19 no País. Apenas nove atividades investigadas se mantinham em nível superior ao pré-crise sanitária.

“Ainda temos setores industriais, plantas industriais, sentindo efeitos de desabastecimento de matérias-primas e insumos”, frisou André Macedo, gerente da Coordenação de Indústria do IBGE, acrescentando ainda que o setor produtivo também vem afetado pelo encarecimento dos custos de produção, entre eles energia, insumos e frete.

Pelo lado da demanda doméstica, Macedo menciona que a inflação pressionada permanece reduzindo o poder de compra das famílias, os juros em elevação seguem encarecendo o crédito, e o mercado de trabalho ainda tem um contingente elevado de desempregados, enquanto a massa de rendimentos se mantém sem avanços.

“Embora tenha mudança de comportamento, o saldo negativo permanece na indústria”, disse Macedo. “Nos últimos cinco meses são quatro taxas positivas, apenas uma negativa, mas o saldo ainda é negativo”, afirmou.

O crescimento da indústria brasileira em março foi um bom sinal, por ter ocorrido a despeito dos impactos da invasão da Ucrânia pela Rússia, opinou o economista-chefe da consultoria MB Associados, Sergio Vale.

"Março era um dado interessante de se observar porque foi o primeiro mês cheio da guerra. Também é uma notícia positiva o crescimento em dois meses consecutivos, mesmo com os impactos da Ômicron e da economia enfraquecida com juros altos", justificou Vale.

No entanto, a queda de 2,1% registrada na produção em relação a março de 2021 mostra que a preocupação com o setor permanece.

"A indústria de bens duráveis está encolhendo de forma significativa, por conta de um mercado doméstico que também encolheu, renda baixa, desemprego alto e crédito mais caro, pelos juros", listou Vale, que prevê queda de 1,9% da produção industrial em 2022.

O resultado da pesquisa do IBGE em março demanda cautela, na visão do economista Lucas Maynard, do banco do Santander Brasil, ressaltando que, isolada a indústria extrativa, os dados mostram que a indústria de transformação teve uma queda de 0,6% na produção em relação a fevereiro.

"A demanda para a parte de bens é um cenário desafiador, especialmente no segundo semestre. E temos a persistência dos problemas da cadeia produtiva, ainda mais com a guerra atrasando a normalização, além da pressão inflacionária e da subida de juros", disse Maynard, que projeta crescimento de 0,7% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em 2022 - a partir de uma alta de 0,5% no primeiro trimestre, estabilidade (0,0%) no segundo e quedas de 0,3% no terceiro e no último trimestres.

A produção industrial cresceu 0,3% no primeiro trimestre de 2022 ante o quarto trimestre de 2021, após quatro trimestres seguidos de quedas. Na comparação do primeiro trimestre de 2022 ante o mesmo trimestre do ano anterior, a produção industrial caiu 4,5%.

Segundo André Macedo, do IBGE, houve melhora em alguns segmentos de bens de capital e de bens intermediários, relacionados à produção de caminhões, ao setor extrativo (tanto minério de ferro quanto petróleo e gás), a outros produtos químicos, minerais não metálicos e metalurgia, entre outros. “Alguma parte relacionada a commodities, parte da construção, alguma parcela do setor de alimentos voltada às exportações”, enumerou o pesquisador do IBGE.

Por outro lado, a fabricação de bens de consumo segue prejudicada por uma demanda doméstica reprimida, além de restrição de oferta de insumos, corroborou.

Em março de 2022, os níveis mais elevados em relação ao patamar de fevereiro de 2020, no pré-covid, foram os registrados pelas atividades de produtos de fumo (18,1%), máquinas e equipamentos (16,5%), outros produtos químicos (8,1%), minerais não metálicos (5,3%) e produtos de madeira (4,9%). No extremo oposto, os segmentos mais distantes do patamar de pré-pandemia são móveis (-27,9%), artigos de vestuário e acessórios (-20,9%), produtos têxteis (-14,3%), máquinas, aparelhos e materiais elétricos (-14,2%) e couro e calçados (-13,8%).

Entre as categorias de uso, a produção de bens de capital está 16,1% acima do nível de fevereiro de 2020, e a fabricação de bens intermediários está 1,9% acima do pré-covid. Os bens duráveis estão 23,1% abaixo, e os bens semiduráveis e não duráveis estão 8,5% aquém.

"As categorias de uso que operam acima do pré-pandemia estão ainda muito abaixo dos seus pontos mais altos da série histórica", ponderou André Macedo, gerente da Coordenação de Indústria do IBGE.

Em março, a indústria brasileira ainda operava 18,5% aquém do pico alcançado em maio de 2011. Na categoria de bens de capital, a produção estava 23,6% abaixo do pico registrado em abril de 2013, enquanto os bens de consumo duráveis operavam 41,6% abaixo do ápice de março de 2011. Os bens intermediários estavam 15,4% aquém do auge de julho de 2008, e os bens semiduráveis e não duráveis rodavam em nível 17,2% inferior ao pico de junho de 2013.

 

No acumulado do ano, que tem como base de comparação o mesmo período do ano anterior, a indústria teve uma queda de 4,5%. Em 12 meses, a produção acumula elevação de 1,8%.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.