Bruno Domingos/Reuters
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Produção industrial recua 1,3% em abril e fica abaixo do patamar pré-pandemia

Com o terceiro resultado negativo consecutivo, a indústria está 1% abaixo do nível registrado em fevereiro de 2020, aponta o IBGE

Daniela Amorim e Thaís Barcellos , O Estado de S.Paulo

02 de junho de 2021 | 09h15
Atualizado 02 de junho de 2021 | 13h11

RIO e SÃO PAULO - A indústria brasileira voltou a registrar perdas em abril. A produção recuou 1,3% em relação a março, segundo os dados da Pesquisa Industrial Mensal, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta quarta-feira, 2. O setor já acumula uma queda de 4,4% em três meses de recuos consecutivos.

Com o mau desempenho recente, a indústria passou a operar 1,0% abaixo do patamar de fevereiro de 2020, no pré-pandemia, após se manter por sete meses em nível mais elevado.

 

“Quando ainda crescia, em janeiro (de 2021), a indústria alcançou um saldo positivo de 3,5% em relação ao pré-pandemia”, observou André Macedo, gerente da Coordenação da Indústria do IBGE.

O recrudescimento da pandemia de covid-19 no País e os problemas na demanda doméstica afetaram diretamente o desempenho da indústria em abril, justificou o pesquisador.

“Mais do que o resultado negativo em si, a gente observa claramente um predomínio de taxas negativas. Isso de alguma forma reforça o que a gente vinha colocando em meses anteriores, o recrudescimento da pandemia e todos os efeitos que isso traz para o setor produtivo”, disse Macedo.

Na passagem de março para abril, houve perdas na produção em 18 das 26 atividades investigadas. Segundo André Macedo, a piora da pandemia afetou a indústria pela dificuldade no acesso a matérias-primas e pela elevação dos custos de produção. Ao mesmo tempo, uma série de fatores associados à demanda doméstica também atrapalham o setor industrial, como a reedição tardia do auxílio emergencial e em valor mais baixo que o do ano passado, a inflação em patamar elevado e o alto nível de desemprego no mercado de trabalho.

“São fatores que já vêm há algum tempo e explicam essa perda de ritmo que o setor industrial vem mostrando nos últimos meses”, disse o gerente do IBGE.

Para o economista Homero Guizzo, da corretora Guide Investimentos, os dados da pesquisa industrial de abril sugerem que parte do mau desempenho está relacionada à restrição de oferta, com falta de insumos, e não a uma resposta do setor a uma demanda mais fraca.

"Alguns setores que tiveram maior contribuição para a queda da produção industrial, como produtos alimentícios (-3,4%) e vestuário (-5,20%), me fazem lembrar o que aconteceu no segundo semestre de 2020, quando começou a faltar matéria-prima e insumo. Na indústria de alimentos, faltou embalagem", afirmou Guizzo.

A produção industrial deve voltar a se fortalecer com a redução das medidas de restrição à atividade econômica e aumento da mobilidade a partir da segunda metade de abril, mas limitada no curto prazo às pressões de custos e fricções na cadeia de abastecimento, prevê o banco Goldman Sachs, em relatório.

"Várias montadoras de automóveis interromperão a produção por vários dias em junho devido a limitações no fornecimento de peças", estimou o banco.

Na comparação com abril de 2020, a produção industrial teve um avanço de 34,7% em abril de 2021, o resultado mais elevado da série histórica iniciada em janeiro de 2002, com expansão em 23 dos 26 ramos industriais investigados. No entanto, o crescimento foi decorrente de uma base de comparação extremamente baixa. Em abril de 2020, o setor industrial tinha registrado uma queda recorde de 27,7%, devido ao “aprofundamento das paralisações em diversas plantas industriais, por causa da pandemia”, lembrou o IBGE.

“Em março, a base de comparação já era depreciada. Em abril, então, ela fica mais baixa ainda. Março, abril e maio de 2020 são meses em que o setor industrial apresentou os níveis mais baixos da série histórica. Tinha o isolamento social como alternativa para conter avanço da pandemia da covid-19. Isso claramente afetou o processo de produção dentro de unidades produtivas em todo o País”, frisou André Macedo, gerente da pesquisa do IBGE.

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