Produtividade industrial cresceu 1,7% em 2002

A indústria brasileira voltou a ter ganhos de produtividade no ano passado, depois de uma estagnação em 2001. A produtividade do trabalho nas fábricas cresceu 1,7% em 2002, de acordo com levantamento inédito da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Para este ano, a previsão é de um novo crescimento, de 2%. Embora a sinalização seja positiva, a questão é que esses resultados têm sido alcançados principalmente à custa de corte de funcionários e aumento da carga de trabalho sobre quem continuou empregado. Agora, o desafio é o País criar condições para que as empresas invistam pesado em inovação tecnológica, de forma a garantir um salto na produtividade com criação de postos de trabalho. "Os ganhos de produtividade caíram para zero em 2001, por causa das expectativas negativas desencadeadas pelo racionamento de energia, que afetaram os projetos de investimentos. Em 2002, quando se pensava que haveria uma recuperação, a economia voltou a ser afetada por uma nova crise, provocada pela indefinição eleitoral", afirma o coordenador da Unidade de Economia e Estatística da CNI, Renato Fonseca. A forte desvalorização do real em relação ao dólar, destaca Fonseca, foi outro fator que afetou a disposição das empresas em melhorarem seu desempenho. Com importações mais caras, as companhias brasileiras foram menos pressionadas pela competição dos artigos estrangeiros. No ano passado, a produção da indústria de transformação cresceu 1,5%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Já o número de trabalhadores ocupados no setor apresentou queda de 0,12%, conforme a CNI. Com base no desempenho desses dois indicadores, a CNI estima que a produtividade na indústria cresceu 1,7%. Para este ano, a previsão do economista da CNI é de que a produção industrial cresça 2% e o emprego fique estável. "Com isso, vamos voltar a ter um ganho marginal de produtividade, na faixa de 2%, como no ano passado." SobrevivênciaNa década de 90, marcada pela abertura do mercado aos produtos importados, as indústrias se viram obrigadas a investir em produtividade para sobreviver à concorrência estrangeira. Na avaliação da CNI, o ganho de produtividade chegou a 60% nesse período. "A indústria brasileira ganhou competitividade e conseguiu se aproximar dos resultados de produtividade dos principais concorrentes. Para não voltar a perder terreno, temos de fazer como os estrangeiros: investir pesado em inovação tecnológica." A decisão de investir em novas tecnologias não é simples. Além de juros mais baixos do que os atuais, os empresários alegam que é necessário ter um quadro mais claro do futuro da economia antes de desembolsar grandes cifras em projetos de longa maturação e de risco maior. "Hoje, o caminho mais barato para obter ganhos de produtividade ainda é o aperfeiçoamento dos processos de produção", diz o diretor industrial da BSH Continental Eletrodomésticos, Valter Santos. Segundo ele, a empresa não tem planos de investir em inovação tecnológica neste ano, por causa das incertezas com relação ao crescimento econômico. Já no aperfeiçoamento dos processos de produção, a BSH pretende investir R$ 20 milhões neste ano, ante R$ 17 milhões em 2002. Com isso, a meta da companhia é dobrar o ganho anual de produtividade, chegando a uma taxa de 6%. Há alguns anos, o cenário era bem mais favorável aos investimentos em novas tecnologias. A General Motors do Brasil (GMB), por exemplo, investiu cerca de US$ 600 milhões na construção de uma fábrica em Gravataí (RS), que é considerada a mais moderna do grupo em todo mundo. Inaugurada em meados de 2000, a nova unidade é especializada na fabricação do Celta. Ela tem capacidade para produzir 120 mil veículos por ano e está bem próxima desse limite. Cada trabalhador produz o equivalente a 70 carros por ano, bem acima da média do setor e das demais fábricas da GM no País, que está em torno de 40 veículos. No setor de autopeças, a concorrência acirrada e a maior demanda por parte das montadoras fizeram com que os fabricantes apertassem o passo na busca de produtividade. Com 850 funcionários, a Rolamentos Fag produz hoje praticamente a mesma quantidade de rolamentos que fabricava há dez anos, quando empregava 1.200 trabalhadores. São cerca de 42 mil unidades por dia. Em muitos casos, as empresas conseguem ganhos de produtividade sem necessidade de grandes investimentos ou redução de pessoal. A Companhia Suzano de Papel e Celulose tem obtido ganhos de produtividade na faixa de 5% ao ano só com pequenas melhorias no processo de produção. Segundo o diretor Industrial Marcos Vettorato, as duas fábricas instaladas em Suzano (SP) produziram juntas no ano passado 534 mil toneladas de papel, com 1.650 funcionários. Para este ano, a meta é fabricar 553 mil toneladas com o mesmo número de trabalhadores. "Em vez de parar as máquinas por 12 horas para a manutenção mensal, fizemos uma programação mais inteligente que possibilita uma interrupção de apenas 8 horas", conta Vettorato, citando o exemplo como uma das formas que a empresa encontrou para obter ganhos de eficiência com simples mudanças na rotina de trabalho.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.