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Produtividade na veia

A presidente Dilma tem de fato muito a comemorar com o excelente desempenho do agronegócio. É o Brasil que funciona e que busca a modernidade.

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

12 de fevereiro de 2014 | 02h08

Ontem, em discurso de "inauguração da safra" pronunciado em Lucas do Rio Verde (MT), ela se referiu à "produtividade na veia" que está sendo injetada na economia, graças ao aumento de 221% da produção de grãos em 20 anos, com aumento da área plantada de apenas 41%.

A agricultura apresenta resultados brilhantes em condições adversas, que infelizmente a indústria não consegue repetir, nem mesmo com os benefícios com que vem sendo contemplada.

O setor conseguiu aproveitar a boa fase de demanda e preços das commodities agrícolas e hoje, bem mais capitalizado, está bem mecanizado e opera com tecnologia de ponta.

Mas não dá para alimentar ilusões demais. Esse alto desempenho está acontecendo apesar da atuação do governo e seu Ministério da Agricultura, um dos mais inexpressivos da Esplanada. E, também, apesar do governo que, há alguns anos, trabalhou contra o uso de sementes geneticamente modificadas (transgênicas) de grãos.

Se dependesse tão somente da política adotada, a agropecuária estaria mal parada. Castigada por uma infraestrutura precária e cara, esta sim, fortemente dependente de decisões do governo, enfrenta altos custos de produção e escoamento da safra que impedem a obtenção de resultados melhores. Os recursos do financiamento das safras, os tais R$ 136 bilhões mencionados pela presidente Dilma, provêm mais do setor privado do que de recursos oficiais.

Ela própria admitiu ontem as fortes deficiências na rede de armazenamento. É o que obriga o agricultor a despachar depressa demais sua produção e, na prática, a usar inadequadamente a frota de caminhões como instrumento improvisado de depósito de safra. Como nada de especial aconteceu nessa área nos últimos 12 meses, nas próximas semanas os noticiários de TV e os jornais deverão voltar a publicar fotos de congestionamentos das rodovias que dão acesso aos portos.

Nada mais eloquente para mostrar os contrastes, vale focar o que acontece no setor sucroalcooleiro. No último sábado, o provável candidato do PT ao governo de São Paulo e ex-ministro da Saúde, Alexandre Padilha, ouviu um rosário de queixas e de reivindicações dos empresários, em solenidade realizada em Ribeirão Preto. Eles acusam o governo de quebrar o setor com a política de dumping imposta ao setor dos combustíveis. A presidente da União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica), Elizabeth Farina, lembrou o governo que 44 usinas foram fechadas ao longo das últimas cinco safras e que outras 12 não estão em condições de processar a cana-de-açúcar que, no Sudeste, estará disponível para corte a partir de abril.

Mais decepcionado com a política da presidente Dilma do que o setor sucroalcooleiro, só mesmo o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST). Para seus líderes, o governo faz o jogo do agronegócio e não liga mais para a reforma agrária. Quem diria que o governo do PT fosse assim avaliado por suas próprias bases.

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