JOSE PATRICIO/ESTADÃO
JOSE PATRICIO/ESTADÃO

Karla Spotorno, O Estado de S. Paulo

26 Maio 2015 | 07h00

O antídoto para o baixo crescimento do Brasil é simples e óbvio, na visão de vários especialistas. O País precisa melhorar a produtividade. Não é mais possível crescer pela inclusão das pessoas no mercado de trabalho. É preciso ganhar eficiência e produzir mais, dizem consultores e pesquisadores.

Um diagnóstico tão evidente para a letargia econômica não significa que seja simples administrá-la. Pelo contrário. A solução para o brasileiro tornar-se mais produtivo é tão vasta e generalizada quanto os motivos que levam ao problema. "São vários fatores que levam a isso", afirma o coordenador do Centro de Políticas Públicas do Insper, Naércio Menezes Filho. "É difícil dizer qual (de tantos motivos) é o principal", diz a diretora no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Fernanda de Negri. A complexidade da baixa produtividade no Brasil é o tema de reportagens especiais do Broadcast, serviço de notícias em tempo real da Agência Estado, na segunda-feira, quando se comemorou o Dia Nacional da Indústria.

O fato é que a produtividade brasileira cresce lentamente, segundo estudo do Boston Consulting Group, e está entre as mais baixas do mundo, segundo o Conference Board. No setor industrial, especificamente, o indicador neste ano retrocedeu ao nível de cinco anos atrás, segundo metodologia dos economistas do Banco Fator. De forma geral, a produtividade brasileira equivale a 17,2% da registrada nos Estados Unidos, como mostra pesquisa de 2013 do Conference Board. Em outras palavras, o brasileiro produz cinco vezes menos que o americano médio.

O primeiro motivo para tamanha ineficiência produtiva é a insuficiência do investimento em capital de produção, especialmente em tecnologia e inovação, na avaliação de Fernanda, coorganizadora do livro "Produtividade no Brasil - Desempenho e Determinantes", lançado pelo Ipea e pela Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) no ano passado. A falta de concorrência explica em parte a inapetência do empresário brasileiro em investir, segundo Fernanda e Menezes. "O empresário se acomoda porque não tem um competidor comendo o mercado dele", diz Fernanda. "O excesso de proteção e de favores do governo leva a essa acomodação do empresário", diz o professor do Insper.

Os dois especialistas se unem ao consultor-sênior do Banco Mundial, Otaviano Canuto, que, no início deste ano, publicou artigo sobre a "curiosa história do Brasil fechado para o comércio". No artigo, Canuto destaca que a corrente de comércio (soma de importações e exportações) é três vezes menor que o porte de nosso País impõe. Em janeiro, representava 27,6% do PIB brasileiro. Está longe do considerado ideal (85%) e também da média (55%) das seis maiores economias globais. Como afirmou o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Armando Monteiro, em sua posse, o Brasil é o "sétimo PIB mundial e apenas o 22º País em termos de exportação". "Temos uma participação de apenas 1,2% no volume total de exportações no mundo e 0,7%, se considerarmos os bens manufaturados", afirmou Monteiro.

Mas a ideia de abrir a economia brasileira para aumentar a concorrência é mais polêmica do que avaliada como eficaz. O gerente de pesquisa e competitividade da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Renato da Fonseca, concorda que aumentar a competição é saudável. Mas argumenta que uma concorrência repentina muito maior "pode matar a indústria aqui dentro". Em muitos casos, o custo de produção no exterior é mais baixo em razão da assimetria nas regulações trabalhista, previdenciária e ambiental do Brasil e de outros países. Ninguém precisa visitar um curtume em Bangladesh, como fez a equipe do documentário "Marcas da Água", para entender essa assimetria. Considerando essas diferenças, Fonseca pondera que é muito difícil saber o nível de concorrência que o empresariado brasileiro suportaria sem perder competitividade.

Menezes, do Insper, defende uma abertura gradual. O ideal, diz o professor, seria liberar, num primeiro momento, a importação de bens de capital e insumos. "Por si só, isso já aumenta a produtividade, como mostram algumas pesquisas", diz o professor, citando estudos como o que realizou com o presidente do Insper, Marcos Lisboa, e a economista Adriana Schor. Depois de alguns anos, o governo facilitaria a importação de bens finais. "Deve ser uma abertura programada porque senão quebra todo mundo", diz. 

Mais conteúdo sobre:
produtividade

Encontrou algum erro? Entre em contato

Karla Spotorno, O Estado de S. Paulo

26 Maio 2015 | 07h00

Abrir mão da classificação de economia altamente fechada é apenas um passo para o Brasil fomentar a melhora da produtividade. Outro é reduzir o prêmio de risco de investir no Brasil. Com os juros nominais mais altos em um conjunto de 30 países do G-10, da Ásia e da América Latina, o Brasil impõe naturalmente uma dificuldade para o empresário. Para se mexer, o empreendedor precisa acreditar que vai lucrar mais investindo em um projeto inovador do que colocando seu dinheiro em títulos públicos. "Aula clássica de industrialização. O negócio do empresário é ganhar dinheiro. Não é ser produtivo. Ele vai ser mais produtivo se essa for a melhor maneira de ele ganhar dinheiro", diz o economista-chefe do Banco Fator e professor da FEA-USP, José Francisco de Lima Gonçalves.

Sendo assim, a política monetária brasileira tem, em certa medida, influenciado historicamente o baixo investimento em pesquisa e desenvolvimento (P&D). Segundo a mais recente Pesquisa de Inovação Tecnológica (Pintec) do IBGE, a indústria investe 5% em P&D. "A inovação é naturalmente uma atividade arriscada. Além de o risco ser grande, o retorno do investimento acaba indo para toda a sociedade", afirma Fernanda, do Ipea. Ela exemplifica. O retorno social da invenção de um computador é muito maior do que o retorno do empresário. Por isso, o Estado teoricamente investiria bastante em inovação e novas tecnologias, como ocorreu escancaradamente na Coreia do Sul, benchmark habitualmente citado por especialistas pró-abertura de mercado.

Não só a política macroeconômica, mas iniciativas do governo também podem desestimular o investimento em inovação e P&D. Fernanda dá como exemplo uma contradição entre o programa Inova Empresa da Finep, empresa pública ligada ao Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), cuja missão é estimular P&D, e o Programa de Sustentação do Investimento (PSI), voltado para fomentar renovação de frotas e bens de capital. "Houve um período, em 2012, que o governo brasileiro cobrou das linhas 'procaminhoneiro' e 'bens de capital' taxa de 2,5% enquanto, nesse mesmo período, as linhas de inovação (da Finep) operavam a 4%", diz a diretora do Ipea. "Ora, porque alguém se arriscaria em um projeto de inovação tecnológica se era mais barato comprar tecnologia já conhecida?", questiona a pesquisadora.

Imprevisibilidade. O caráter mutável das regras e programas federais também atrapalha, na avaliação de Fonseca, da CNI, e do coordenador executivo do Fórum de Economia da Fundação Getúlio Vargas em São Paulo (FGV-SP), Nelson Marconi."É ruim quando o governo lança uma política e depois volta atrás", diz Marconi. Fonseca dá como exemplo a desoneração da folha de pagamento. A redução dos impostos surgiu para alguns setores em 2011. Depois foi ampliada, tornou-se permanente e agora está prestes a ser extinta como forma de cumprir a meta de ajuste fiscal. "Como o empresário sabe que vai ter a redução de custo por apenas um período, ele não faz o investimento", afirma Fonseca.

É como Fernanda, do Ipea, afirma: "Tudo na vida econômica é questão de incentivo". Mas depende do incentivo e da firmeza do estímulo. Entre 2011 e 2014, o governo federal anunciou 64 medidas, segundo levantamento da gestora Quantitas. Foram iniciativas micro e macroeconômicas com a capacidade de gerar uma repercussão grande, média ou pequena. O resultado de tanto esforço é conhecido. O PIB brasileiro cresceu 0,1% em 2014, e a projeção mediana da pesquisa Focus para 2015 é de uma contração de 1,20%.

Marconi, da FGV-SP, afirma que "nada deu certo" porque, em parte, os preços de juros e câmbio estão fora de lugar. "Os países asiáticos fizeram políticas industriais e se desenvolveram porque os preços macroeconômicos estavam no lugar", diz o professor. No Brasil, a história é um pouco diferente. 

Mais conteúdo sobre:
produtividade

Encontrou algum erro? Entre em contato

Karla Spotorno, O Estado de S. Paulo

26 Maio 2015 | 07h00

Não só a política econômica e a imprevisibilidade nas regras dos negócios no Brasil desfavorecem o aumento da produtividade no Brasil. Especialistas apontam a má qualificação profissional do brasileiro como uma barreira para essa melhora. O coordenador executivo do Fórum de Economia da Fundação Getúlio Vargas em São Paulo (FGV-SP), Nelson Marconi, pondera que uma melhora na educação é condição necessária, ainda que não suficiente, para uma melhora da produtividade no Brasil. "Poderemos ter um aumento da escolaridade do País em um momento em que não há geração de empregos que demandam maior escolaridade", afirma Marconi.

De toda forma, o Brasil tem muito a avançar em termos de educação. Segundo levantamento do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), os adultos no Brasil têm 7,2 anos de estudo; os americanos, 12,4 anos; os alemães, 12,2; os japoneses, 11,6, e os franceses, 10,6 anos. Esse contexto é levado em conta pelo empresário na hora de investir, na avaliação do gerente de pesquisa e competitividade da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Renato da Fonseca. "Uma empresa pode querer importar uma máquina para inovar, mas se o trabalhador não está capacitado, de nada adianta", diz Fonseca.

O baixo nível de escolaridade também traz implicações diretas nas práticas de gestão das empresas, na avaliação do coordenador do Centro de Políticas Públicas do Insper, Naércio Menezes Filho. A menor qualificação profissional e a consequente gestão empresarial menos eficiente ajudam a explicar, na avaliação de Menezes, a baixa produtividade brasileira. "As práticas gerenciais são melhores nos Estados Unidos, por exemplo, que nas firmas brasileiras", diz.

O que é ruim para a competitividade brasileira é motivação para o trabalho de consultores do Boston Consulting Group (BCG). Em apresentação para executivos na Câmara Americana da Comércio (Amcham) em abril, o sócio e diretor do BCG, Masao Ukon, defendeu que um momento de crise como o atual, em que o PIB recua e a inflação avança, é o ideal para uma empresa investir em uma agenda de transformação. "Crise é o melhor momento para mudar, para questionar crenças e modelos. (Na atual situação), a produtividade é um tema ainda mais crítico", disse Ukon.

No estudo "Brasil: Enfrentando o Desafio da Produtividade", os consultores do BCG mostraram que 78% do crescimento de 3,3% do valor agregado no Brasil entre 2001 e 2013 deveu-se ao aumento no número de pessoas trabalhando, e que apenas 22% podem ser atribuídos a ganhos de produtividade, definida como o valor agregado por população ocupada. "Assim, temos um contraste claro com o padrão de crescimento de outras importantes economias emergentes nesse período", escrevem os consultores. A produtividade foi responsável por 89% dos 10,1% de crescimento anual da China no mesmo período, por 83% dos 7,1% de crescimento anual da Índia e 71% do crescimento de 4,2% da Coreia do Sul, segundo estudo do Boston Consulting Group. No contexto brasileiro, um salto na gestão empresarial, defende Ukon, fará muita diferença.

Para melhorar a eficiência, Menezes, do Insper, também defende regras trabalhistas mais flexíveis no Brasil. "Nos Estados Unidos, é possível ajustar o emprego e a produção de forma mais rápida do que no Brasil", diz. Nesse tema, o País convive com um embate no Congresso Nacional sobre o projeto que regulamenta a terceirização do trabalho. Na Câmara dos Deputados, foi aprovada a terceirização de qualquer atividade de uma empresa. No Senado, ainda não foi votada. O tema é tão polêmico que o governo brasileiro ainda não tem uma posição claramente definida, como declarou o ministro do Trabalho e Emprego, Manoel Dias, na semana passada. Ele receia que haja uma precarização do trabalho caso a terceirização geral seja aprovada.

Mais conteúdo sobre:
produtividadeeducação

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.