Nelson Andrade
Nelson Andrade

Produtores do País descartam milhões de litros de leite

Greve dos caminhoneiros leva à perda do alimento; no Sul de MG, 500 mil litros já foram jogados fora

Rene Moreira, especial para O Estado, O Estado de S.Paulo

24 Maio 2018 | 10h28
Atualizado 24 Maio 2018 | 16h58

FRANCA - Produtores de leite de todo o País sentem os efeitos da greve dos caminhoneiros e veem milhões de litros serem descartados. Na região de Passos, no Sul de Minas Gerais, mais de 500 mil litros já foram jogados fora porque, com a falta de transporte o produto se perde em pouco tempo e não há como utilizá-lo.

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Nas proximidades, caminhões seguem parados em mais de 20 rodovias, porém, os protestos afetam também outras regiões do estado, caso do Sudoestes Mineiro, onde 150 mil litros serão descartados nesta quinta-feira, 24. Segundo a Associação dos Produtores de Leite, a situação gera "sentimentos de tristeza, indignação e revolta com nossos governantes".

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A entidade explicou em nota que o alimento será descartado como chorume nas fazendas, "enquanto tantas pessoas necessitam dele, pois somos proibidos de doá-lo sem que seja pasteurizado". Para piorar, além de jogar o leite fora, produtores dizem que o risco é grande de começar a faltar ração para os animais.

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Em outros estados, o problema também é sentido. No Rio Grande do Sul, o Sindicato da Indústria de Laticínios estima que 4 milhões de litros já deixaram de ser captados devido ao movimento dos caminhoneiros. No Mato Grosso do Sul, que soma 24 mil produtores, a falta de transporte também ocorre e eles dizem que começarão a descartar o produto. No estado são mais de 30 pontos de bloqueios nas rodovias.

Em Bandeirantes, interior do Mato Grosso do Sul, produtores chegaram a jogar 2,5 mil litros de leite pelo ralo porque não havia como escoar o produto. Conforme Renato Gasparini, diretor comercial do principal laticínio da cidade, o produtor precisa retirar o leite das vacas para que não adoeçam e, não conseguindo vender, é obrigado a jogar. Mesmo as leiterias que têm resfriadores conseguem reter o leite por no máximo 48 horas.

A Federação da Agricultura e Pecuária de Santa Catarina (Faesc) estima que ao menos dois milhões de litros de leite – 25% da produção do Estado - foram jogados fora nesta quinta-feira. Em Itapeva, interior de São Paulo, produtores carregaram tambores de leite em carros de passeio para fazer a entrega ao laticínio, em Itapetininga, a 120 quilômetros. Os automóveis conseguiram passar pelos bloqueios montados nas rodovias Francisco Alves Negrão (SP-258) e Antonio Romano Schincariol (SP-127).

Racionamento. A falta de leite e outras mercadorias levou supermercados a adotarem racionamento de produtos. A rede Produtor, com lojas em Queluz, Cruzeiro e Cachoeira Paulista, no Vale do Paraíba, limitou a venda de itens como o leite, a seis litros por cliente, açúcar a dez quilos, e arroz a cinco quilos. Conforme a gerência, a medida é reflexo da greve dos caminhoneiros e visa a evitar o esgotamento rápido dos estoques, que não estão sendo repostos. Em algumas lojas, consumidores tiveram de ser barrados nos caixas por estarem levando produtos acima da quota.

Em Sorocaba, supermercados de bairro também adotaram o racionamento. No Central Parque, na zona oeste, a venda de óleo de cozinha estava limitada a três litros por cliente e o leite, a dez litros. Conforme a gerência, estoques de biscoitos e café tinham acabado, deixando as prateleiras vazias. Uma rede de hipermercados confeccionou cartazes alertando os consumidores para a falta de itens como óleo de cozinha, cenoura e cortes de carne em decorrência da greve.

Armazenamento. No Paraná, o Sindicato das Indústrias de Laticínios e Produtos Derivados (Sindileite) informou que o leite é jogado fora pelo produtor "por não ter como estocar em suas propriedades". E que diversas agroindústrias suspenderam as atividades e não estão recebendo o produto in natura.

Já no Rio de Janeiro, a Cooperativa Agropecuária de Barra Mansa esclareceu que "com muito ressentimento e dor no coração", os produtores serão obrigados a descartar mais de 130 mil litros de leite por dia "que centenas de pessoas envolvidas labutaram para produzir".

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Hortaliças. Sem conseguir frete para encaminhar a produção para a Ceagesp de Sorocaba, o agricultor Nelson Luís Fogaça deu para os porcos 32 caixas de repolhos que havia colhido em sua lavoura, quarta-feira, 23, em São Miguel Arcanjo, interior de São Paulo. Na manhã desta quinta-feira, 24, ele passou o trator sobre uma área de 5 mil metros quadrados cultivada com alfaces lisa, crespa e americana. “Mesmo com os preços melhorando, não compensava colher, pois não tem como entregar”, disse, estimando o prejuízo em cerca de R$ 1,5 mil.

Em Piedade, produtores de morango estão perdendo a produção por falta de escoamento, segundo o engenheiro agrônomo Osmar Borzachini, da Secretaria da Agricultura. “Quem tem câmera fria ainda consegue segurar um ou dois dias, mas já ouvi relato de perda de morango que foi colhido e o produtor não conseguiu entregar. Tem barreira de caminhoneiro em tudo quanto é estrada”, disse. Conforme o técnico, produtores reportaram também perdas na produção de beterraba e cenoura por falta de escoamento. “Se o produtor deixa de colher, os tubérculos passam do ponto e racham, ficando imprestáveis para comercialização”, explicou.

Somente na Central de Abastecimento de Campinas (Ceasa), cerca de 15 mil toneladas de alimentos, especialmente frutas e legumes, deixaram de ser comercializados desde o início da greve, na segunda-feira, 21. O diretor operacional Claudinei Barbosa estimou o prejuízo em R$ 25 milhões. Nesta quinta-feira, 24, apenas 100 caminhões conseguiram chegar ao entreposto, de um total previsto de 3,5 mil. Os preços de alguns produtos dispararam. O quilo da batata saltou de R$ 1,40 para R$ 5 nos boxes. No Mercado de Flores, dos 60 caminhões esperados, chegaram 20.

Saque. Três homens foram presos, na madrugada desta quinta-feira, 24, depois de saquear um caminhão carregado com cebola, laranja e batata, no bairro Terras da Conceição, em Jacareí, interior paulista. Os suspeitos, de 21, 32 e 34 anos, atacaram o caminhão-baú depois que o motorista foi parado num bloqueio de caminhoneiros. Sem poder seguir viagem, o motorista estacionou na avenida Alfredo de Moraes e dormia na cabine, quando o baú foi invadido. Ele chamou a Polícia Militar, que deteve os suspeitos e recuperou a carga roubada.

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