Epitácio Pessoa/Estadão
Epitácio Pessoa/Estadão

Produtores europeus se unem contra acordo com o Mercosul

Entidades do setor do açúcar enviam carta à Comissão Europeia, acusando o Brasil de concorrência desleal e de distorcer preços com apoio 'artificial' do governo

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

20 Dezembro 2017 | 18h56

GENEBRA - Os produtores de açúcar da Europa se unem contra o acordo comercial entre Bruxelas e o Mercosul. Numa carta enviada às principais autoridades do bloco europeu, entidades que representam os fabricantes e produtos insistem que querem a sua mercadoria fora de um eventual entendimento com os países sul-americanos.

Enviada ao presidente da Comissão Europeia, Jean Claude Junker, a Associação Europeia de Produtores de Açúcar (CEFS, sigla em inglês) e a Confederação Internacional de Produtores de Beterraba (CIBE) alertam que "o açúcar deve ser excluído" das negociações.

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Tradicionalmente protecionista, o setor foi sempre contra um entendimento com o Brasil, o maior exportador mundial. Mas enquanto o impasse marcou a negociação entre os dois blocos, suas entidades se mantiveram em um silêncio estratégico.

Agora, com a possibilidade de um acordo em 2018, depois de troca de ofertas, os produtores e fazendeiros voltaram a se mobilizar para pressionar os governos europeus contra a ideia de um tratado.

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Na semana passada, em Buenos Aires, europeus e sul-americanos não conseguiram fechar o processo negociador, que já dura 18 anos. Um dos principais entraves foi justamente o setor do açúcar. Bruxelas havia oferecido uma cota de 600 mil toneladas por ano para importar o produto sul-americano, sem taxas. Mas o montante é inferior até mesmo ao que já foi apresentado pelos europeus, em 2004.

O Brasil insiste que não há um acordo sem o setor de açúcar e etanol e quer 1,1 milhão de toneladas em sua cota.

Para Bruxelas, a ideia de uma expansão da oferta é inaceitável. "Nosso setor passa por um período sem precedentes de transição", dizem na carta as entidades, que apontam que o fim das cotas internas de produção levou à uma "incerteza estrutural para fazendeiros e produtores, o que tem sido ainda alimentado por uma queda de preços".

Artificial. O foco dos ataques é mesmo o Brasil. "Não podemos nos dar ao luxo de realizar uma nova abertura do mercado de açúcar da UE ao produto de terceiros países que empregam um apoio financeiro e regulatório para artificialmente incrementar sua competitividade", dizem. "O Brasil é um desses países", denunciam.

O temor concreto dos europeus é de que, em uma eventual aberta, o produto brasileiro afetaria a renda de 140 mil produtores no Velho Continente.  "Não podemos ser sacrificados para satisfazer os interesses expansionistas do setor do açúcar brasileiro, patrocinado pelo governo", alertam.

Ao Estado, a diretora-geral da CEFS, Marie-Christine Ribeira, insiste que o setor "chegou a seu limite". "Fomos usados como moeda de troca em diversos acordos", contou. "Para que champagne ou outros produtos que os europeus queiram exportar fossem recebidos de forma mais aberta em mercados terceiros, era no açúcar que se pagava, com uma abertura de nosso mercado", acusou.

Segundo ela, além de Bruxelas, um lobby importante tem sido realizado em capitais europeias para tentar evitar que um acordo com o Mercosul seja assinado com a liberalização de seu setor.

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