Produtos básicos são seguro do Brasil contra crise, diz ex-presidente do BC

Carlos Langoni diz que exportação de commodities deve continuar em alta.

Denize Bacoccina, BBC

23 de janeiro de 2008 | 10h20

O economista Carlos Langoni, diretor do Centro de Economia Mundial da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e ex-presidente do Banco Central, diz que a exportação de alimentos e minério de ferro para a China devem manter as exportações brasileiras aquecidas mesmo com uma desaceleração da economia mundial."O Brasil está bem protegido", diz Langoni, ao explicar que as commodities que o Brasil mais exporta, como alimentos e minério de ferro, devem continuar em alta mesmo com um crescimento menor.A China, diz ele, mesmo se crescer menos ainda deve ter uma expansão de pelo menos 9%, o suficiente para manter aquecida a demanda por estes produtos. Langoni afirma que o governo brasileiro tem razão em dizer que o país está protegido contra a crise por causa do elevado nível de reservas e de um crescimento a partir do mercado interno."O Brasil tem um impulso do ano passado, e só isso já garante um crescimento de uns 2%. É a expansão do crédito, o consumo, a construção civil, o investimento crescendo o dobro do PIB. Uma súbita parada em tudo isso é pouco provável", afirmou em entrevista à BBC Brasil.BBC Brasil - De que maneira a crise financeira nos mercados vai afetar o Brasil?Carlos Langoni - Basicamente, é um fato que vai haver desaceleração. A dúvida é saber quão profunda. Por outro lado estamos vivendo hoje num mundo multipolar, em que o peso daqueles que eu chamo de superemergentes, China e Índia, aumentou muito desde a crise de 2001. A participação da China no mundo saiu de 4% em 2001 para 8% este ano. Já é um peso bastante relevante. Mesmo se a economia americana mergulhar em direção à estagnação, crescimento zero, e a China desacelerar de 11,5% para 9%, ainda assim a economia mundial vai permanecer positiva. O crescimento mundial vai cair de 4,8% para algo em torno de 3%, ainda longe de uma recessão. Para o Brasil, o grande teste foi ontem (segunda-feira). No meio daquela histeria, o risco-país foi a 250 pontos, o dólar ficou pouco acima de R$ 1,80. O que mostra que a economia brasileira hoje é completamente diferente de outras crises, como 2002 e final de 98, quando teve disparada do risco-país e desvalorização do real. Minha avaliação é que mesmo com a economia americana caminhando para estagnação, a economia brasileira vai absorver esse choque externo com muito mais eficiência do que no passado. Vamos crescer menos, em torno de 3% a 3,5%, mas ainda satisfatório. O câmbio, como o Brasil conta com um colchão de liquidez de mais de US$ 180 bilhões, quase igual à dívida externa de US$ 200 bilhões, deve interromper a valorização e ficar pouco acima de R$ 2,00, o que significa que não haverá muitas pressões inflacionárias pela via cambial, como no passado.BBC Brasil - O Brasil não será afetado pelo crescimento menor de outro importadores de produtos brasileiros e exportadores mundiais, como a China?Langoni - Sim, as exportações vão crescer menos, o saldo comercial deve cair de US$ 30 bilhões para US$ 20 bilhões. O preço das commodities pode se estabilizar ou mesmo cair, especialmente as metálicas. As commodities de alimentos subiram 50% em janeiro em relação ao ano passado, enquanto os metais subiram 5%. Provavelmente, com o desaquecimento da economia americana mundial, metais podem até cair, mas alimentos continuam.BBC Brasil - E no Brasil, especificamente, que tipo de alimento e que tipo de metal?Langoni - Neste aspecto, o Brasil está bem protegido. Alumínio vai sofrer, níquel pode sofrer, mas são exportações menores. O grande componente da exportação brasileira é minério de ferro, que deve ter um aumento expressivo este ano, porque continua com uma demanda extremamente aquecida. Depende principalmente da China, que continua crescendo, e é usado em construção. Os outros dependem da Europa, dependem dos Estados Unidos, são mais usados em automóveis e eletroeletrônicos.BBC Brasil - Mesmo se a China crescer menos por conta dos Estados Unidos, ainda vai continuar crescendo o suficiente para manter aquecido este mercado?Langoni - Acho que sim, porque a China sai de 11,5% para 9%. E a China depende muito menos hoje das exportações do que em 2001. O grande fator de expansão é o mercado interno. Há uma compensação que não havia no passado. Então no Brasil o superávit comercial, em vez de US$ 30 bilhões seria US$ 20 bilhões, o déficit em conta corrente em vez de US$ 5 bilhões pode chegar a US$ 10 bilhões, mas nada disso tem impacto no câmbio, que seria uma variável-chave, nem na percepção do risco-país. Tudo isso, se o governo continuar preservando a autonomia do Banco Central - e acho que o Copom vai manter a taxa de juros na reunião desta semana e ao longo de todo o ano.BBC Brasil - E é o que deveria fazer?Langoni - Acho que sim, não há necessidade de mudar. E não há espaço para queda. E o governo tem que continuar comprometido com a austeridade fiscal. Tem que repetir pelo menos o superávit primário do ano passado, que deve ter ficado em torno de 4%, acima da meta. Isso é fundamental para continuar reduzindo a relação dívida-PIB. Se isso acontecer, o risco Brasil não vai mudar muito, os investimentos vão continuar, ainda que num ritmo um pouco menor.BBC Brasil - Este dinheiro não pode secar?Langoni - Não vai secar, porque a liquidez continua muito alta. Mas vai ficar mais seletivo. O que está havendo é uma restrição a financiamento, mas investimento direto são decisões tomadas já no ano passado. Na América Latina o país que vai mais sofrer é o México, pela proximidade com os Estados Unidos. O Brasil não, o Brasil é um global player, com exportações cada vez mais diversificadas. Vai ter uma queda, mas não é nada assustador.BBC Brasil - O presidente Lula e o ministro (da Fazenda) Guido Mantega disseram com muita firmeza que o Brasil não vai sofrer o impacto da crise porque a economia está forte e o nível de reservas muito elevado. Dá pra dizer isso com esta certeza?Langoni - Eu acho que sim. Se os Estados Unidos mergulharem numa depressão, com uma queda de 2%, 3%, o que não acontece há muitos anos, todo mundo vai sofrer. Mas o que todo mundo está falando é no máximo em uma estagnação. O Brasil tem um impulso do ano passado, e só isso já garante um crescimento de uns 2%. É a expansão do crédito, o consumo, a construção civil, o investimento crescendo o dobro do PIB. Uma súbita parada em tudo isso é pouco provável. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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