Produtos primários e industrializados
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Produtos primários e industrializados

Ainda há quem defenda o argumento de que a produção intensiva de bens primários prejudica o crescimento da indústria brasileira - o que não é verdade

Celso Ming*, O Estado de S.Paulo

20 de abril de 2022 | 20h08

Antigo preconceito continua encontrando defensores no Brasil. É o de que a produção intensiva de bens primários prejudica o crescimento da indústria, não só porque concentra capitais em atividades de baixa densidade de valor, mas, também, porque suas fortes exportações tendem a derrubar a cotação do dólar no câmbio interno e, assim, prejudicam a competitividade da indústria.

Um dos equívocos deste ponto de vista é o de que o desenvolvimento industrial seja necessariamente incompatível com uma alta produção de bens primários. Os Estados Unidos, por exemplo, são o maior produtor de primários do mundo e, no entanto, também lideram em produção industrial. E, por lá, ninguém reclama de que a enorme produção de primários atrapalha a produção industrial.

 

O definhamento da indústria dos Estados Unidos, que vem crescendo desde o início deste século, tem mais a ver com a concorrência da indústria asiática do que com o sucesso da produção de grãos, petróleo e minérios.

No Brasil, foi o excelente desempenho das exportações de café e de açúcar que acumulou os capitais que permitiram o início da indústria de transformação a partir dos anos 50.

Um dos argumentos recorrentes é o de que a exportação de primários pelo Brasil produz grande entrada de dólares e, portanto, a valorização do real que, por sua vez, tira competitividade da indústria nacional, porque favorece a entrada de importados e reduz a rentabilidade das exportações de manufaturados. É a posição dos que entendem que a força dos primários produz doença holandesa, que derruba a cotação do dólar.

Alguns dos economistas que identificam a existência da tal doença holandesa no Brasil defendem a criação de impostos sobre a exportação de produtos primários. É proposta de alto risco que tende a inibir o setor primário sem garantia de que a indústria se recupere. A Argentina tem há anos esse imposto (as tais retenciones) que incide sobre grãos e carne e, no entanto, a indústria de lá não consegue sequer competir no âmbito do Mercosul.

Mais de 70 anos de indústria no Brasil mostram que seus pontos fracos estão na excessiva proteção, na falta de acordos comerciais que abram mercado externo para os manufaturados e no chamado excessivo custo Brasil, que é sobrecarga de impostos, infraestrutura precária, burocracia e insegurança jurídica.

Nem sempre vale a pena agregar valor ao produto primário. A Vale não pretende produzir aço com seu minério. E como já ficou dito nesta Coluna em outras oportunidades, a Embraer é um sucesso, apesar do custo Brasil, apesar dos juros altos e do câmbio supostamente supervalorizado. 

*CELSO MING É COMENTARISTA DE ECONOMIA

 

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