Produtos sob medida para brasileiros

O Brasil não sabe as medidas corretas dos brasileiros. O País carece de dados rigorosos que sirvam de referência para traçar com fidelidade os tamanhos de produtos, o que incomoda os mais variados segmentos da indústria. Para acabar com a dor de cabeça, a Associação Brasileira do Vestuário (Abravest) colocou em andamento o Censo Antropométrico Brasileiro, um projeto de vulto para descobrir qual é o padrão brasileiro para ajustar definitivamente os tamanhos.A falta de informações básicas, como a largura dos pés ou as distâncias médias do cotovelo até o pulso, e até do joelho ao calcanhar, cria situações inusitadas no dia-a-dia. Dedinhos escapam da base de alguns modelos de sandália. Camisas vestem bem no dorso, mas sobram além do pulso. E cruzar as pernas é proibido quando se está sentado diante de determinadas mesas. "Usamos medidas européias de cem anos atrás", diz Roberto Chadad, presidente da Abravest. A entidade considera que tudo o que se falou sobre altura média, massa corpórea e outras medidas do corpo humano até hoje no Brasil não passa de especulação.Outros setores da indústria concordam. Tanto que a idéia do censo nasceu para a indústria de vestuário, mas, nos seis meses em que o censo vem sendo discutido pela entidade, outros segmentos aderiram ao projeto. Fabricantes de móveis, calçados, construção civil, componentes aeronáuticos e a indústria automobilística mostraram interesse na proposta, pois todos ganham com os resultados do estudo. O censo deve ser realizado ainda este ano. BumbumPara trabalhar sobre o tema, a Abravest reuniu notáveis de universidades especialistas em ergonomia, anatomia, design, puericultura e tecnologia têxtil. Informações curiosas já foram levantadas durante as discussões do grupo, como a medida dos glúteos do homem brasileiro. A indústria de vasos sanitários utiliza o padrão europeu, que considera um bumbum mais largo. Mas o bumbum do brasileiro é mais empinado e avolumado atrás, o que pode significar pouco conforto no banheiro.O projeto do censo foi levado ao governo federal, que custeia parte do estudo, por meio do Ministério do Desenvolvimento, da Indústria e Comércio e do Ministério de Ciência e Tecnologia. A outra parte deve ser rateada entre as entidades setoriais interessadas no projeto. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) dará suporte sobre como a pesquisa deve ser implementada na prática. No total, 12,5 mil pessoas de diferentes pontos do País, entre homens, mulheres e crianças, serão "radiografadas" sem roupas por body scanners, equipamentos no estilo das cabines de bancos 24 horas, que fazem a leitura tridimensional das medidas de uma pessoa. O tamanho da cabeça, braço, as medidas entre as pernas, distância do busto, perímetro da panturrilha e outros detalhes serão mensurados para chegar ao tamanho padrão do brasileiro. São no mínimo 45 medidas, que terão uma margem de erro quase nula, de 0,002%.O presidente da Abravest avalia que o censo vem atender uma necessidade básica do setor, que já deveria ter tratado do assunto há muito tempo. "Antes de fabricar uma peça, seria necessário ter todas as indicações do consumidor que será atendido", diz ele.A idéia do censo, aliás, surgiu quando a Abravest convocou as confecções nacionais a aderirem à certificação de qualidade da associação, há três anos. Para ganhar um selo de aprovação, que poderia ser reproduzido nas etiquetas dos produtos, era preciso passar por uma comissão de controle de qualidade. De 1999 a 2001, duas mil indústrias solicitaram o certificado, mas 60% foram reprovadas por diferenças de tamanhos das roupas. "Várias peças iguais classificadas como de tamanho médio, por exemplo, apresentavam diferenças", diz Chadad. O assunto foi levado à diretoria da associação, que chegou ao consenso do estudo.Em campoJá foram selecionadas algumas cidades para onde os scanners serão levados, em caminhões. Goiânia, Maringá, Florianópolis, Porto Alegre, São Paulo e Rio de Janeiro são algumas. De cara, já se sabe que os tamanhos devem variar de região para região. A metodologia empregada envolve tecnologia de ponta, como os próprios body scanners, que devem ser desenvolvidos pela empresa francesa Letra System, responsável pelos equipamentos para um censo europeu. O custo das três máquinas está avaliado em US$ 750 mil.Além disso, um computador central, avaliado em R$ 100 mil, vai receber as informações dos scanners e fará o cruzamento dos dados. Os dados finais serão registrados pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), que vai legitimar os novos padrões para a indústria nacional. Para ganhar a adesão de populares ao projeto, a Abravest pensa até em convocar artistas de renome para participar do censo. Assim, Xuxa, Ratinho ou o Supla poderiam ajudar a encontrar o tamanho padrão brasileiro.Para ver mais informações sobre o setor de varejo, acesse o portal de Comércio e Serviços do AE Setorial ( www.aesetorial.com.br), o serviço da Agência Estado voltado para o segmento empresarial.

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