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Professor de Harvard diz que calote e abandono do euro beneficiariam Grécia

Pressão por austeridade diminuiria e país poderia tentar incentivar crescimento, diz Jeffrey Miron.

Jeffrey Miron*, BBC

26 de outubro de 2011 | 05h48

Jeffrey Miron, professor de economia da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, acredita que as consequências de um calote da Grécia são superestimadas. Ele não só acha que um default seria uma boa opção para a Grécia como também para toda a União Europeia. Veja o artigo escrito por Miron para a BBC:

Na esperança de receber ajuda da União Europeia, o Parlamento grego adotou novas medidas de austeridade - cortes no serviço público, aumento de impostos e endurecimento nas negociações com os sindicatos. A população reagiu com protestos violentos e greves. Ainda está por se ver como a União Europeia irá responder a isso.

A questão que se coloca para a Grécia é se ela segue nesse caminho - medidas de austeridade que pouco fazem para conter o deficit, seguidas de ajuda europeia suficiente apenas para evitar o default - ou se finalmente admite o óbvio: que deveria dar calote em sua dívida soberana, abandonar o euro e seguir seu próprio rumo.

Se a Grécia der um calote, o país conseguirá alívio imediato do pagamento dos juros sufocantes de sua dívida, ficando com um deficit primário relativamente modesto, que exclui o pagamento das altas taxas de juros com as quais o país se depara agora.

Nesse cenário, a pressão por austeridade diminuiria. Isso permitiria à Grécia escolher políticas que incentivem o crescimento, ao invés daquelas que até encolhem o deficit mas retardam o crescimento por causa das altas taxas (de juros).

Restaurando a competitividade

Ao abandonar o euro e adotar uma moeda com valor apropriado, a Grécia poderá restaurar sua competitividade internacional. Isso significa maior oferta de empregos, tanto de fontes domésticas quanto estrangeiras.

O lado negativo do calote é que a Grécia deve perder, temporariamente, acesso ao mercado internacional de crédito (ainda que se torne um lugar muito mais seguro para investimentos do que é neste momento).

Ficar sem empréstimos internacionais por alguns anos não é um desastre. Isso pode inclusive incentivar cortes no gastos dispendiosos do governo.

O risco maior do calote é que uma vez passada a crise a Grécia diminua a pressão para a resolução dos problemas fundamentais de sua economia: o capitalismo de compadrio, um código fiscal bizantino, o excesso de regulamentação e o inchaço da máquina do governo.

Se a Grécia fracassar nas reformas necessárias, sofrerá em breve uma desaceleração no seu crescimento e uma outra crise, a despeito das medidas que tome agora.

Primeiro passo

O default não é uma panaceia para a Grécia, assim como declarar falência não é garantia de que alguém endividado terá de volta a saúde financeira: depende das ações a serem tomadas após o calote.

Mas o default é um primeiro passo necessário para que a Grécia consiga respirar e estabelecer sua política econômica de forma tranquila e racional. Muitas pessoas, empresas e países já se recuperaram de falências e calotes.

Para os credores europeus, o default grego pode apresentar dois lados negativos: a perda de pagamentos futuros e um risco maior de calote em outros países, como a Itália.

Ainda assim, os riscos têm sido exagerados. É pouco provável que a Grécia honre suas dívidas em um futuro próximo e só o fará se os países ricos lhe derem dinheiro para tanto.

Mensagem correta

Será mais fácil lidar com o risco de calote em outros países se a Europa deixar de injetar dinheiro nos países em situação pior e direcionar sua ajuda aos países que ainda podem ser salvos. O calote grego reduziria as incertezas, o que facilitaria, mais do que impediria, uma solução ordenada de outros países endividados.

Para o contribuinte europeu, o default grego trará outro benefício: irá enviar uma mensagem aos credores que emprestam em meio ao risco, o que os fará serem mais cuidadosos no futuro.

A realidade fundamental é que a Grécia e boa parte da Europa fizeram empréstimos e consumiram muito nas últimas décadas. Alguém tem de pagar.

O defaulf fará com que isso ocorra rapidamente, impondo perdas àqueles que ganharam nos tempos de fartura. Isso é o correto.

*Jeffrey Miron é professor da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, e membro do Instituto Cato. Também é autor do livro Libertarianism, from A to Z. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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