Professor doutor Robô

Vistas como um porto seguro no passado, as profissões de nível superior agora estão no olho do furacão

O Estado de S.Paulo

19 Outubro 2015 | 02h04

Em 1933, com a Grande Depressão ainda fazendo estrago, dois sociólogos britânicos, Alexander Carr-Saunders e Paul Wilson, publicaram um livro celebrando as profissões que envolvem treinamento prolongado e qualificação formal. Os autores diziam que elas eram "elementos de estabilidade" num mundo turbulento, "herdando, preservando e transmitindo tradições". Funcionavam como "centros de resistência às forças brutas que põem em risco uma evolução constante e pacífica".

As profissões de nível superior resistem a essas "forças brutas" estabelecendo barreiras de entrada. Algumas, como medicina e direito, exigem a obtenção de licenças para o seu exercício e, às vezes, o ingresso em órgãos profissionais. Outras requerem longos períodos de aprendizagem: embora qualquer um possa se autodenominar consultor empresarial, consultorias de primeira linha oferecem treinamento extensivo aos profissionais que ingressam em seus quadros, e só promovem uma minoria à condição de sócio. As profissões mais antigas também realçam a importância da tradição: os professores universitários envergam mantos medievais em determinadas cerimônias e os advogados britânicos que atuam nos tribunais de segunda instância usam perucas.

Hoje, porém, essas ilhas de segurança estão sob artilharia pesada. A prestação de serviços especializados é cada vez mais imbuída de mentalidade empresarial: a consultoria Accenture vem terceirizando grande quantidade de trabalho para profissionais de países emergentes, e abandonou o modelo de sociedade simples para se tornar uma empresa de capital aberto. Os clientes estão mais exigentes: as empresas já não toleram consultorias que tentam seduzi-las com profissionais que chegaram à condição de sócio para depois pôr uma turma de juniores para cuidar de sua conta. A mais importante fonte de instabilidade, porém, é a tecnologia da informação, dizem os autores de The Future of the Professions ("O Futuro das Profissões de Nível Superior"), livro recém-publicado pelo consultor Richard Susskind e pelo professor titular da Universidade de Oxford, Daniel Susskind.

As máquinas desafiam os dois fundamentos mais importantes para a pretensão das profissões de nível superior a uma condição especial: a competência para fazer avançar as fronteiras do conhecimento e a licença exclusiva para aplicar sua expertise a uma comunidade de leigos. A IBM e o Bayor College of Medicine desenvolveram um sistema chamado KnIT (sigla em inglês para "kit de ferramentas de integração de conhecimento") que passa em revista a literatura médica e gera novas hipóteses para problemas de pesquisa. Cientistas da computação da Universidade de Tel Aviv criaram um algoritmo que, usando um software de reconhecimento facial, está solucionando um problema com que há décadas os estudiosos da Torá vinham quebrando a cabeça: a organização de 300 mil manuscritos judaicos antigos, encontrados no sótão de uma velha sinagoga, no Cairo. Diversos aplicativos conseguem prever o resultado de ações judiciais com mais precisão do que juristas, de disputas em torno de patentes a decisões da Suprema Corte dos Estados Unidos.

Novas tecnologias permitem que máquinas e paraprofissionais se encarreguem da execução de muitas tarefas rotineiras. Programas desenvolvidos pela startup Kensho oferecem respostas a dúvidas financeiras, como, por exemplo, o que acontece com as ações de tecnologia quando empresas do setor se envolvem em algum tipo de violação de privacidade. Enfermeiros equipados com computadores e ferramentas de diagnóstico executam um número cada vez maior de atividades antes reservadas aos médicos.

Alguns serviços online e aplicativos para smartphone dão aos leigos a oportunidade de dispensar o auxílio de profissionais qualificados, ou, pelo menos, de fazê-los descer do pedestal. Todos os meses 190 milhões de pessoas visitam o site WebMD (que oferece várias informações médicas) - número superior ao de consultas realizadas com profissionais de medicina nos Estados Unidos. Na App Store, da Apple, depois dos games, os aplicativos educacionais são os mais populares, e os MOOCs (cursos online, dirigidos ao grande público) atraem milhões de alunos. É cada vez mais comum que juízes e advogados resolvam pequenas causas por meio de "e-julgamentos". Trata-se de uma das técnicas utilizadas pelo eBay para solucionar os mais de 60 milhões de desentendimentos que ocorrem por ano entre seus usuários.

Até onde vai essa revolução? Susskind e Susskind acreditam que o desfecho será o "desmantelamento das profissões de nível universitário tradicionais". Essas atividades profissionais, argumentam eles, são uma solução para o problema de que as pessoas leigas têm um "entendimento limitado" de áreas específicas do conhecimento. Mas a tecnologia vem possibilitando que esse entendimento possa ser facilmente ampliado.

Os autores oferecem respostas perspicazes às objeções a seu ponto de vista. A complexidade é um dos contra-argumentos: as pessoas delegam o preenchimento de guias de cobrança de impostos a contadores porque são complicadas demais. Susskind e Susskind respondem que a capacidade que as máquinas têm para lidar com a complexidade é maior do que a dos seres humanos. Outra crítica diz respeito a aspectos emocionais: quando correm o risco de morrer ou falir, as pessoas preferem receber a notícia da boca de um ser humano. Os autores dizem que expertise e empatia raramente vêm no mesmo pacote. As pessoas que sabem como dar uma má notícia são boas em compaixão, não em expertise.

Mesmo assim, os dois Susskinds vão longe demais em seu argumento. Ignoram o fato de que, à medida que enriquecem, as pessoas preferem gastar os recursos que têm à disposição com serviços prestados por seres humanos. Os jovens, por exemplo, competem entre si para entrar em universidades de elite, onde o índice professores/alunos é mais alto (e pais ricos contratam cada vez mais professores particulares para ajudar seus filhos a entrar nessas instituições). Mas os autores têm razão em dizer que, nos próximos 25 anos, as profissões de nível superior mudarão mais do que mudaram nos últimos 75. Surgirão novas sub-disciplinas, como a de "engenheiros de conhecimento", que codificarão a expertise de determinados profissionais, e vários grupos de paraprofissionais, que encontrarão maneiras de aplicar esse conhecimento.

Profissionais do mundo, uni-vos! A tempestade que está se formando no horizonte tem profundas implicações sociais. As profissões altamente qualificadas representam uma grande fatia da sociedade moderna. Os profissionais com formação universitária estão acostumados a acumular patrimônio e privilégio: em 2011, 57% dos alunos das faculdades de medicina britânicas saíram dos três grupos de posição mais elevada na pirâmide socioeconômica do país. É inegável que esses profissionais terão de abandonar a ideia de que, nas palavras dos sociólogos Carr-Saunders e Wilson, "nada se conquista em sua esfera por meio da destruição ou revolução". A grande questão é saber se o reordenamento de um agrupamento social tão fundamental e estável ameaçará "a evolução constante e pacífica" da sociedade.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

 

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