PROFISSIONAIS EXIBEM FALHAS NA EDUCAÇÃO

De um restaurante no centro do Rio às Lojas Cem, a dificuldade de contratar mão de obra

O Estado de S.Paulo

16 de dezembro de 2012 | 02h07

Quando viu um dia o saladeiro partir com uma faca de cozinha para cima do cozinheiro, o carioca Marcelo Botelho pensou que era tempo de reavaliar sua ideia de ser dono de um restaurante no centro do Rio.

"O problema é a educação, em todos os sentidos", diz Botelho, que fechou o restaurante Café do Mercado em 2008, depois de três frustrantes anos em que, além de lidar com todos os problemas burocráticos e tributários que assolam o pequeno empresário brasileiro, teve de se virar com a péssima qualidade média dos seus 22 funcionários.

Não eram só as brincadeiras estúpidas, como passar SuperBonder no cadeado do colega, mas também os furtos sistemáticos e a incapacidade de fazer contas e medir pesos corretamente, de vestir e manter em bom estado os uniformes e de cumprir rotinas diárias de limpeza das instalações ao fim do expediente.

Num episódio típico, o funcionário encarregado de supervisionar uma festa de fim de ano, para a qual o restaurante vendera um pacote fechado, cobrou os 10% de gorjeta mesmo sabendo que esta já estava incluída no contrato. O cliente naturalmente reclamou alguns dias depois, e Botelho teve de reembolsá-lo.

Botelho pagava salários um pouco acima do mercado, e exigia ensino médio completo dos garçons, e fundamental completo e frequência do médio de funções como ajudante de cozinha. "Mas não adiantava nada", ele lamenta, ressalvando que há exceções, como os dois ótimos funcionários que ainda hoje trabalham com ele em seus negócios imobiliários.

José Domingos Alves, supervisor geral das Lojas Cem, rede de varejo com 9.850 funcionários e 202 lojas nos Estados de São Paulo, Minas, Rio e Paraná, atesta que a disputa por mão de obra com níveis mínimos de qualificação está se acirrando: "Quantidade de gente tem, difícil de achar são pessoas com qualidade", comenta o executivo.

Uma função particularmente demandada é a de montador de móveis, e as Lojas Cem agora tentam abrir a contratação de aprendizes, "o que era impensável no passado". Segundo Alves, "hoje o investimento em treinamento é muito maior, porque você pega uma pessoa totalmente despreparada e tem de qualificá-la".

A paraibana Wilma Cilene Silva Paiva, de 27 anos, é um exemplo de mão de obra com pouca educação formal trabalhando no comércio. Com ensino fundamental incompleto, ela trabalha numa lanchonete no centro do Rio. Wilma gostaria de estudar mais, mas diz que o horário de trabalho não deixa.

Pedro de Lamare, presidente do Sindicato de Hotéis, Bares e Restaurantes do Rio de Janeiro (SindRio), admite que "o serviço no Rio é deficiente, mas isso se explica porque o nosso é o maior setor em primeiro emprego, e também pela escola pública de péssima qualidade".

Ele ressalva que o ensino básico está melhorando no Rio, mas o processo é lento. O desafio, portanto, é aumentar o universo de mão de obra qualificada com treinamento. O SindRio está preparando um programa-piloto com a Central Única de Favelas (Cufa), para capacitar 6 mil pessoas por ano em comunidades faveladas, treinando-as em funções como pizzaiolo, crepeiro e salgadeiro. / F.D.

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