Profissional mais qualificado ganha espaço no varejo

De acordo com a Fecomercio, diminuição da oferta de vagas leva setor a buscar trabalhador mais preparado

LETÍCIA MARÇAL, LEONARDO COSTAESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2013 | 02h14

Dados da Federação do Comércio (Fecomercio) revelam que mais de 76 mil postos de trabalho foram fechados no comércio varejista de janeiro a abril deste ano. De acordo com a assessoria técnica da Fecomércio, essa retração se deve ao ritmo mais lento de crescimento do setor, que vem acompanhando o baixo desempenho do Produto Interno Bruto (PIB).

A tendência para os próximos meses é de que o ritmo de contratação desacelere. Segundo a Federação, os varejistas estão reduzindo cada vez mais suas expectativas quanto ao crescimento das vendas, em linha com a demanda dos consumidores, que vem caindo há alguns meses em função dos impactos das alta da inflação, principalmente dos alimentos.

À medida que as oportunidades de trabalho se reduzem no setor do varejo, aumenta a necessidade de qualificação profissional. De acordo com a Fecomercio, a profissão de vendedor - ou alguns postos no varejo - são muitas vezes vistos como porta de entrada no mercado de trabalho pela qual se passa sem nenhuma qualificação. A entidade alega que não é verdade e que faltam ainda profissionais com técnicas de venda, que entendam um pouco de psicologia, que saibam regras de comportamento e uma segunda língua.

Embora haja tendência de redução das vagas de emprego, o comércio ainda apresenta um bom desempenho. A maior procura, hoje, em termos numéricos, é por vendedores. Em termos de qualificação, há escassez de profissionais para ocupar cargos gerenciais. Para a Federação, lidar com o público requer muito mais preparo e talento do que se supõe.

O comércio é um campo em que a informação e a persuasão são ferramentas para o sucesso. Quando duas pessoas se relacionam com objetivos complementares, comprar e vender, a boa comunicação é o alvo desse relacionamento.

Expressão. Presidente e fundador do instituto de educação corporativa que leva seu nome, Reinaldo Passadori destaca como um bom profissional do comércio aquele que domina a prática de se relacionar e se expressar bem. "A comunicação é essencial no momento de influenciar, persuadir e transmitir informações claras e assertivas, de modo que o profissional consiga manter o potencial cliente seguro sobre o que está sendo negociado."

Passadori aponta justamente a habilidade de comunicar-se como a maior dificuldade enfrentada pelo profissional que procura emprego. No momento da entrevista, a facilidade de transmitir seus valores e talentos faz toda a diferença para o sucesso da contratação.

Além de saber se expressar, é preciso conhecer o produto com o qual se trabalha. Luciana Bosco, de 48 anos, começou a carreira no comércio como vendedora em uma loja de roupa de tricô. Sua verdadeira paixão, no entanto, sempre foi cozinha. Aproveitando o convite de uma cliente, Luciana entrou para o ramo em 1998 e nunca mais saiu. Chegou à gerência da loja Art Mix Oscar Freire e hoje trabalha nas lojas Spicy, de alto padrão no segmento, e Pepper.

Luciana diz que gostar do assunto e entender sobre os produtos que se vende ou vai vender é um diferencial para a conquista do emprego. "Em várias ocasiões, tivemos dificuldade para contratar vendedoras, pois não encontrávamos alguém que entendesse bem a respeito de utensílios mais sofisticados", conta.

Ter domínio sobre o produto que se oferece é a melhor garantia de satisfazer o cliente e efetuar a venda.

Para conquistar cargos mais altos, é interessante se planejar e começar cedo na carreira. Para os recém-formados, um programa de trainee pode ser um ótimo convite à entrada no mercado de trabalho e uma boa preparação para cargos gerenciais.

A C&A é uma das empresas que oferecem esse tipo de treinamento. Para se candidatar, é preciso ter curso superior (não específico) e bom nível de inglês. Comprometimento, boa comunicação, flexibilidade e bom relacionamento interpessoal também são características desejadas.

Maria Mottin, de 24 anos, é trainee no setor de planejamento de compras e produtos da C&A e escolheu a empresa por se identificar com o seguimento de moda. Ela conta que, durante o programa, é possível aprender a se relacionar melhor com o cliente e entender o que ele realmente deseja. "A experiência de contato com o consumidor e a possibilidade de conhecer os processos e dinâmicas do setor de logística são fatores essenciais para a atuação na área de compras", afirma.

Investir em cursos de especialização é um diferencial tão importante quanto saber onde se quer chegar. Assim como Maria, Valéria Molina, de 33 anos, começou como estagiária no Grupo Pão de Açúcar aos 22 anos. Hoje, é gerente de recursos humanos do grupo. Passou pelos cargos de analista júnior, pleno e sênior, tornou-se consultora e alcançou o cargo de gerência. Formada em psicologia, já se identificava com a área de RH desde a faculdade. Por isso, se especializou em gestão estratégica de pessoas.

Para chegar ao seu posto atual, ela conta que estudar, planejar e ter metas foi essencial para crescer e se desenvolver na carreira. A longa experiência dentro do grupo possibilitou que conhecesse bem o seu funcionamento e, com isso, pudesse ser mais produtiva e se sentir mais segura. A empresa e ela, acredita, criaram uma relação de fidelidade: "Eu escolhi o grupo, porque me identifico com seus ideais".

Sergio Povoa, diretor de gestão de gente do varejo do Grupo Pão de Açúcar, conta que a empresa oferece um plano de carreira que pode possibilitar ascensão profissional, e que todas as promoções são feitas com base na avaliação do desempenho profissional de cada um dos funcionários.

Passadori lembra que é crucial aos profissionais que almejam cargos de gerência saber se comunicar e liderar de forma eficaz os seus colaboradores. A ideia é deixá-los sempre motivados, realizados e seguros para que possam enfrentar o desafio do universo comercial.

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