Programa de compra de bônus não reduz independência do BCE, diz Trichet

'Nós não estamos imprimindo dinheiro', afirmou o presidente da instituição

Danielle Chaves, da Agência Estado,

31 de maio de 2010 | 09h05

O presidente do Banco Central Europeu (BCE), Jean-Claude Trichet, reagiu às críticas ao banco e afirmou que o novo programa de compra de bônus de governos não representa qualquer enfraquecimento de sua política ou sua independência. "Em palavras simples: nós não estamos imprimindo dinheiro", disse Trichet em uma conferência promovida pelo Banco Nacional da Áustria.

"Nós não fomos além da nossa meta de restabelecer um mecanismo de transmissão mais correto para a nossa política monetária", disse Trichet. A autoridade também afirmou que o BCE está tirando do mercado por meio de outras operações todo o dinheiro que injeta com a compra de bônus dos bancos.

Trichet reconheceu que o BCE tem tomado medidas extraordinárias com base nas promessas dos governos de colocar seus déficits orçamentários sob controle. "É crucial para os governos implementarem rigorosamente as medidas necessárias para garantir sustentabilidade fiscal", disse.

O presidente do BCE também ecoou os comentários feitos mais cedo pelo presidente do Banco Nacional da Áustria, Ewald Nowotny, de que o programa de compra de bônus é apenas uma solução temporária para problemas específicos de liquidez do mercado. "As compras feitas no mercado secundário não podem ser usadas como desvio do princípio fundamental da disciplina orçamentária", disse Trichet.

O BCE tem sido criticado, especialmente na Alemanha, por sua decisão de comprar bônus de governos da zona do euro para evitar que os mercados de dívida soberana sofresse do mesmo modo como o mercado monetário de atacado sofreu depois do colapso do banco de investimento norte-americano Lehman Brothers, em 2008.

Em uma das críticas, Axel Weber, presidente do banco central da Alemanha, o Bundesbank, e um dos possíveis sucessores de Trichet no próximo ano, afirmou recentemente que vê o programa de compra de bônus criticamente e que os planos têm "riscos de estabilidade substanciais".

Nas duas primeiras semanas do chamado Programa dos Mercados de Títulos o BCE comprou mais de 26 bilhões de euros (US$ 32 bilhões) em bônus de países altamente endividados, como Grécia e Portugal.

Trichet rejeita teorias de conspiração anglo-saxônica contra o euro

Em entrevista ao jornal francês Le Monde, o presidente do Banco Central Europeu (BCE) rejeitou veementemente as teorias sobre uma conspiração anglo-saxônica contra o euro. Trichet destacou que o euro "é uma moeda muito confiável que mantém o seu valor".

Alguns políticos da zona do euro têm afirmado que investidores predadores de países de fora da zona do euro estão tentando obter lucros com o enfraquecimento da moeda europeia. Uma transcrição da entrevista está disponível no site do BCE.

"Deve-se ficar alerta a qualquer teoria de conspiração. Eu simplesmente acredito que alguns investidores internacionais têm dificuldade para entender a Europa e seus mecanismos de tomada de decisões", disse Trichet. "Isso posto, não se deve ser complacente: nós temos alguns problemas sérios e precisamos tirar disso lições sérias", afirmou a autoridade.

Trichet destacou que a endividada Grécia "deve e vai" honrar seus compromissos implementando rigorosamente suas medidas de austeridade. Alguns observadores do mercado preveem que a Grécia não será capaz de evitar uma reestruturação de sua dívida em um período de três anos, quando os fundos internacionais chegarem ao fim. Trichet alertou contra esse movimento.

Segundo o presidente do BCE, dados econômicos recentes da zona do euro indicam que a região pode se sair levemente melhor do que o esperado no segundo semestre deste ano. "Mas nós permanecemos muito cautelosos", afirmou Trichet. As informações são da Dow Jones.

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