Márcio Fernandes/Estadão
Márcio Fernandes/Estadão

Programa de gás de cozinha da Petrobras tem potencial de atingir 2% dos atendidos no Bolsa Família

Valor de R$ 300 milhões anunciado pela Petrobrás poderia beneficiar 400 mil famílias, num universo de 66 milhões de consumidores de botijão de gás e de 15 milhões de famílias atendidas pelo Bolsa Família

Fernanda Nunes, O Estado de S.Paulo

29 de setembro de 2021 | 23h29

RIO  - A liberação de R$ 300 milhões pela Petrobras para ajudar a população mais carente a consumir gás de cozinha, anunciada na noite desta quarta-feira, pegou de surpresa empresas do setor, que não foram comunicadas antecipadamente pela estatal. Na prática, no entanto, o número de famílias beneficiadas deve ser pequeno frente ao universo de consumidores de gás no País, sobretudo os de baixa renda. 

A estimativa é de que 400 mil famílias sejam beneficiadas, num universo de 66 milhões de consumidores do botijão de 13 kg do gás liquefeito de petróleo (GLP), popularmente conhecido como gás de cozinha. O número é pequeno se comparado às quase 15 milhões famílias atendidas pelo programa Bolsa Família, um foco potencial do programa de assistência ao consumo de gás da Petrobras.

Para chegar ao cálculo de 400 mil famílias beneficiadas, foi considerado o valor de R$ 20 milhões mensais que a Petrobras deve gastar em 15 meses até chegar ao valor total de R$ 300 milhões anunciado nesta quarta-feira. Com R$ 20 milhões, é possível comprar 202 mil botijões num mês ao preço de R$ 98. Esse é o valor de venda na média do País, segundo a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Como um botijão dura cerca de dois meses, o número total de famílias beneficiadas seria de 400 mil. 

O programa de apoio ao consumo de gás ajuda a Petrobras a enfrentar as críticas de ser insensível às necessidades da população num momento de crise financeira. A expectativa do mercado é que a empresa anuncie novo reajuste de preço do gás nos próximos dias, já que os seus valores estão defasados em relação ao mercado internacional. 

Além disso, essa saída não afeta os planos do governo e as ambições dos investidores em bolsa de ver o mercado de derivados de petróleo, inclusive o de GLP, aberto à iniciativa privada. 

Se, em vez disso, a estatal optasse por subsidiar o preço do GLP, potenciais investidores tenderiam a considerar predatória a concorrência com a petrolífera e desistiriam de colocar dinheiro no setor. Isso teria impacto no programa de venda de refinarias da Petrobras. Isso explica a afirmação do presidente da petrolífera, Joaquim Silva e Luna, de o gás "é um tema de governo" e não da empresa, em coletiva de imprensa, na última segunda-feira.

"Esse é um movimento de ESG (sigla para de meio ambiente, social e governança, em inglês) positivo. É uma boa iniciativa da empresa", avaliou o presidente do Sindicato das Empresas Distribuidoras de Gás Liquefeito de Petróleo (Sindigás), Sérgio Bandeira de Mello. 

No centro desse debate está, na verdade, o consumo da lenha, alternativa para a parcela da população que não tem dinheiro para comprar gás. A lenha usada para cozinhar costuma ser recolhida em feiras e obras. São restos de madeira que comprometem a saúde de quem cozinha. Atualmente, a lenha corresponde a 26% do total de energéticos utilizados numa residência, porcentual maior do que o GLP (25%) desde 2018, segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE).

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