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Programa do Centrão

O apoio de DEM, PP, PR, PRB e SD à candidatura de Geraldo Alckmin passou ao largo de uma negociação programática em torno das diretrizes de política econômica para o próximo governo

Adriana Fernandes*, O Estado de S.Paulo

21 de julho de 2018 | 04h00

O apoio dos partidos do Centrão (DEM, PP, PR, PRB e SD) à candidatura do ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin (PSDB) passou ao largo de uma negociação programática em torno das diretrizes de política econômica para o próximo governo. Foi, na verdade, uma grande desculpa.

Embora gritante, a incompatibilidade do programa econômico foi a cortina de fumaça do Centrão para se afastar das negociações com o candidato do PDT, Ciro Gomes, à Presidência, patrocinada por Rodrigo Maia, presidente da Câmara.

O programa de fundo é o de sempre: vamos ter espaço ou não no próximo governo? Tempo de televisão, alianças regionais, protagonismo nas mesas diretoras da Câmara e do Senado em 2019 e cargos estão no centro da negociação, ainda cheia de incertezas diante da reação dos políticos dos dois lados prejudicados nos seus redutos pela aliança nacional.

Alckmin já está, inclusive, sendo atacado por aliados que tiveram a vida complicada pelo acordo.

Dos cinco partidos do Centrão, talvez o DEM fosse o com maior dificuldade em enquadrar sua plataforma liberal ao programa econômico de Ciro. Para os parlamentares do restante dos partidos, ajustando vai. A maior parte deles estava nos governos petistas.

Mesmo assim, foi o próprio Maia quem escalou o economista Claudio Adilson Gonçalez para apontar que as ideias defendidas por Ciro eram inconciliáveis com a plataforma liberal do DEM após reunião com o coordenador econômico de candidato, Mauro Benevides. Tudo isso na véspera do acordo do Centrão com o presidenciável do PSDB.

Não dá para negar que Ciro era o único presidenciável que tinha até agora, de fato, detalhado para o público em geral o que pretende fazer no seu programa econômico, inclusive para a reforma da Previdência.

Mas Ciro também mostrou enorme incoerência. Prometeu fazer ajustes no programa para se aliar ao Centrão, voltou atrás na ideia de “revogar” a reforma trabalhista. E, agora, depois do acordo do Centrão com os tucanos, tenta voltar para o lugar onde estava, mais próximo dos partidos de esquerda.

Os demais candidatos, por enquanto, apresentaram propostas generalistas. Alckmin só falou de forma geral. Marina o mesmo e o PT também. Estratégia natural nesse momento delicado da campanha eleitoral de definição das alianças e das candidaturas.

Com um grupo tão heterogêneo como o do Centrão, Alckmin já começou a ter dificuldades para ajustar o discurso econômico. Nas redes sociais, disse que não vai revogar nenhum dos principais pontos da reforma trabalhista e que não há plano de trazer de volta o imposto sindical.

Paulo Pereira da Silva, o Paulinho da Força Sindical e presidente do Solidariedade, no entanto, cobrou a volta do financiamento para os sindicatos em troca do apoio a Alckmin. Ele também é resistente à proposta de reforma da Previdência dura.

Outro problema à vista é a ideia do ex-governador, já confirmada por ele em entrevista, de reduzir de 30 para 20 o número de ministérios. Tipo de proposta que todos os presidentes prometem para reduzir gastos e dar mais eficiência à maquina administrativa, mas que sempre enfrenta a resistência dos partidos aliados sedentos por cargos e prestigio na Esplanada.

Ninguém imagina que nas negociações com as lideranças do Centrão Alckmin ficou ali discutindo temas de programa. Esse tipo de conversa, se aparecer, só mais adiante.

O mais provável é que no campo econômico a maior convergência do Centrão com o PSDB se dê na reforma tributária, a preferida dos partidos para começar na lista de prioridades da agenda econômica em 2019. Ela pode ganhar protagonismo nos debates em substituição à agenda impopular da Previdência.

Nos bastidores das articulações políticas feitas com os coordenadores econômicos, é a reforma tributária que tem tido maior destaque para ser discutida depois das urnas. Mesmo considerada inadiável, ela é a mais complexa das reformas porque implica num jogo em que uns perdem e outros ganham.

Difícil é saber a essa altura qual presidenciável terá coragem de expor sua plataforma econômica quando a campanha esquentar. Pelo histórico brasileiro, vamos continuar nas generalidades.

Difícil saber qual presidenciável terá coragem de expor sua plataforma econômica.

*É JORNALISTA DO BROADCAST

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