Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Progresso do País requer um grande esforço de convergência, o oposto do que temos feito

Em países que deram certo, há o reconhecimento dos principais atores políticos de que há causas unificadoras

Fabio Giambiagi*, O Estado de S.Paulo

22 de outubro de 2021 | 04h00

A Argentina era uma das nações mais ricas do mundo há um século, e hoje está na metade de baixo da “série B” mundial. Nos últimos 50 anos, foi governada por militares, pelos mais diversos tipos de peronismo e, recentemente, pelos liberais de Macri. De um modo geral, todas as gestões acabaram num fracasso colossal. Qualquer observador que analisar o enigma da decadência histórica dos hermanos concluirá que, talvez, parte do problema esteja representada pelos argentinos e sua incapacidade de se colocar de acordo em relação a alguns consensos básicos.

À luz dessa introdução, convido o leitor a refletir acerca de uma questão: quais são os casos que lhe vêm à memória quando pensa em países que deram certo nos últimos 50 anos? Podemos pensar em alguns exemplos óbvios. Listemos alguns deles, sem ordem de relevância:

  1. Alemanha: Com a unificação do país, converteu-se na “locomotiva europeia”, tendo um regime político em que, em alguns casos, os dois maiores partidos rivais chegaram a formar parte do mesmo governo;
  2. Japão: No pós-guerra, foi um dos exemplos de desenvolvimento, que alcançou o auge nas décadas de 1970 e 1980. Embora depois tenha ingressado numa estagnação o fez num nível de renda muito elevado e com uma enorme faixa de consenso político; 
  3. Estados Unidos: É a economia mais poderosa do mundo, mercê, entre outras coisas, da adoção de um core de políticas nas quais os interesses nacionais prevaleceram sobre as diferenças entre republicanos e democratas, até o surgimento do trumpismo; 
  4. China: Ainda que no contexto de um regime fechado, converteu-se no exemplo de políticas conduzidas com um sentido de unificação por um governo forte e representativo do país, ainda que sabendo que grupos minoritários não estão representados nele;
  5. Coreia do Sul: Ali houve também um certo senso de unidade nacional, no sentido de que algumas políticas têm sido mantidas durante décadas, com destaque para a ênfase extraordinária na educação, a abertura ao exterior e o equilíbrio macroeconômico.

O denominador comum desses casos é o sentimento de unidade: o reconhecimento dos principais atores políticos de que há causas unificadoras. O contraste entre estes êxitos e o fracasso de países onde a cultura da divisão está muito enraizada é flagrante. Nos últimos anos, a política do Brasil se “argentinizou”. O progresso do País requer um grande esforço de convergência. É o oposto do que temos feito. Deveríamos saber extrair lições disso. 

*ECONOMISTA

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