André Dusek/Estadão - 9/1/2018
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Projeção para inflação salta para 6,45% em 2022 após mega-aumento de combustíveis

Há um mês, a projeção era de 5,50%; após a nona alta consecutiva, a estimativa do IPCA para 2022 já está 1,45 ponto porcentual acima do teto da meta estabelecida para este ano, de 5%

Thaís Barcellos, O Estado de S.Paulo

14 de março de 2022 | 09h40
Atualizado 14 de março de 2022 | 14h56

Brasília - Após o mega-aumento de combustíveis anunciado pela Petrobras na semana passada, os economistas do mercado financeiro aumentaram de 5,65% para 6,45% a estimativa para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), a inflação oficial.

Há um mês, a projeção era de 5,50%. Além disso, o Relatório Focus divulgado nesta segunda-feira, 14, pelo Banco Central, também mostrou altas nas projeções para 2023 e 2024, indicando uma desancoragem mais ampla a dois dias da decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), o órgão que define a taxa básica de juros do País.

Após a nona alta consecutiva, a estimativa do IPCA para 2022 já está 1,45 ponto porcentual acima do teto da meta estabelecida para este ano, de 5%, apontando probabilidade cada vez maior de novo descumprimento pelo BC de seu mandato principal em 2022, após o desvio de 4,81 pontos porcentuais em 2021, quando o IPCA foi de 10,06%. O alvo central é de 3,50%, com tolerância de 1,50 ponto porcentual para cima e para baixo (2,00%).

O salto da projeção para o IPCA de 2022 no Relatório Focus desta semana é o maior em quase 20 anos, segundo levantamento realizado pelo economista Leonardo França Costa, da ASA Investments, a pedido do Estadão/Broadcast.

A estimativa para o IPCA deste ano disparou 0,80 ponto porcentual, de 5,65% para 6,45%, como consequência do novo rali dos preços de commodities, como o petróleo, diante da guerra na Ucrânia, e de surpresas de alta em dados de inflação corrente, como o IPCA de fevereiro (1,01%).

De 25 de outubro para 1º de novembro de 2002, a mediana para o IPCA 2003 subiu 1,10 ponto porcentual, de 7,10% para 8,20%, o maior avanço da série histórica do Focus, iniciada 3 de janeiro de 2000. Naquela época, a cotação do dólar disparou devido ao temor do mercado com a eleição ao Planalto do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Para um mesmo ano, o avanço apurado no Focus de hoje é recorde, segundo o economista-chefe do Banco Alfa, Luis Otavio de Souza Leal. Da mesma forma, o salto de 0,69 ponto porcentual da mediana para o IPCA de 2022 do dia 10 para o dia 11 de março (5,76% para 6,45%) foi o maior da série do Sistema de Expectativas do Banco Central.

Além da disparada da mediana de 2022, o Focus também mostrou aumento das projeções de 2023 (3,51% para 3,70%) e 2024 (3,10% para 3,15%), que se distanciaram mais do centro da meta de 3,25% e 3,00%, respectivamente. As projeções alteradas os últimos cinco dias úteis também sugerem que o movimento de alta pode continuar em 2022 (6,54%) e 2023 (3,72%).

A dois dias do Copom, a deterioração forte do cenário inflacionário para este e os próximos anos colocam mais pressão sobre o Banco Central que, em fevereiro, havia indicado a intenção de reduzir o ritmo de alta de juros, que há três reuniões é de 1,50 ponto porcentual.

Para Souza Leal, o quadro de inflação mais pressionado sugeriria, em condições normais, uma dose mais forte de aperto monetário para domar as expectativas. “Entretanto, a situação está longe de ser normal e acho que o BC pode optar por ‘não fazer marola’ e manter a ideia inicial de subir 1,00 ponto porcentual”, diz o economista, reforçando sua projeção de alta da Selic de 10,75% para 11,75% ao ano no Copom desta semana.

Essa também é a expectativa apontada no Sistema de Expectativas do BC. Depois, as medianas apontam para alta de 12,50% em maio (mais 0,75 ponto) e um ajuste final em junho, para 12,75% (mais 0,25 ponto), nível em que a Selic seria mantida até o fim deste ano. Na pesquisa do Projeções Broadcast, 44 de 53 instituições apostam em alta de 1pp, para 11,75%, já oito veem elevações maiores.

Segundo o economista Silvio Campos Neto, sócio da Tendências Consultoria, o movimento forte do Focus desta segunda não surpreende, dado o reajuste dos combustíveis e a percepção de pressões ainda bem disseminadas no IPCA.

“O contágio de 2023 via maior inércia também é difícil de evitar. De fato, o quadro inflacionário segue adverso e isso mantém a política monetária sob pressão, mas não creio em alta de 1,25 ponto porcentual, dado que já estamos num estágio avançado de ajuste. Mas o BC deve deixar os próximos passos em aberto, em reconhecimento aos maiores riscos e incertezas do momento.”

PIB

O Relatório de Mercado Focus divulgado nesta manhã mostrou melhora na previsão mediana para a expansão do Produto Interno Bruto (PIB) de 2022, que passou de 0,42% para 0,49%. Há um mês, a estimativa era de 0,30%.

O aumento aconteceu após a divulgação do crescimento do PIB do ano passado de 4,6% pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Para 2023, por sua vez, a mediana cedeu de 1,50% para 1,43%, de 1,50% há quatro semanas. Para 2024, a estimativa seguiu em 2,00%, mesma projeção de quatro semanas atrás. O Relatório Focus ainda trouxe a mediana para 2025, que também continuou em 2,00%. Há um mês, a estimativa de crescimento do PIB em 2025 já era de 2,00%.

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