Projeção inflada tenta evitar corte drástico

As questões conjunturais levam o governo a ajustar seu relatório de receitas e despesas menos preocupado com o realismo das projeções e mais com questões políticas ou com sua estratégia de política econômica. No início do ano, o governo calculava que seria necessário um corte de R$ 35 bilhões a R$ 40 bilhões no orçamento para o cumprimento da meta de superávit primário de 3,3% do Produto Interno Bruto (PIB).

, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2010 | 00h00

Mas, querendo evitar o desgaste político de um corte de tal magnitude, a equipe econômica inflou, sem ter elementos técnicos que justificassem, em quase R$ 20 bilhões a projeção de receitas para o ano, segundo informaram fontes do governo ao Estado. Dessa forma, o governo cortou naquele momento R$ 21 bilhões em despesas, bem menos do que se previa.

Anteontem, com mais elementos sobre a evolução da economia, o governo anunciou a redução em R$ 9,4 bilhões da estimativa de receita para o ano, mesmo com a indicação de que a atividade econômica está muito forte e que, no final das contas, a arrecadação deste ano deverá ficar maior até do que o número do início do ano, que havia sido propositalmente superestimado.

A estratégia agora é de "segurar" a estimativa de receitas com diferentes objetivos. Um deles é conter as pressões por aumento de gastos às vésperas das eleições. Outro é de "esconder receitas", de modo a cortar gastos e bancar possíveis novas despesas que o governo pode ser forçado a ter, como o aumento aprovado pelo Congresso Nacional de 7,71% para aposentados, acima da previsão de reajuste de 6,14%.

Outro objetivo seria garantir uma gordura para a eventual necessidade de o governo fazer um superávit primário maior para conter um possível superaquecimento da economia, que colocaria em risco o controle da inflação e levaria o Banco Central a subir muito fortemente os juros.

O relatório de quinta-feira evidencia a tentativa de o governo "ajustar" suas previsões para o comportamento da economia. A projeção de crescimento do PIB para este ano, por exemplo, subiu de 5,2% para 5,5%.

Mas o número está muito abaixo do previsto pelos analistas do mercado, que trabalham em média com expansão acima de 6%. Nos bastidores, os próprios técnicos da equipe econômica avaliam que a economia vai crescer pelo menos em torno de 6% este ano. Apesar de ser um número forte, uma fonte do governo lembra que o crescimento do PIB este ano tem de levar em consideração a queda de 0,2% do ano passado, ajudada pela crise financeira internacional..

Com uma projeção de PIB menor do que o mercado e seus próprios técnicos acreditam, o Ministério da Fazenda tenta esfriar a tese de superaquecimento econômico, encampada pelo BC. Ao mesmo tempo, o Planejamento, exibe um relatório de receitas e despesas para restaurar, como determina a legislação, o equilíbrio orçamentário.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.