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Projeções irrealistas?

Estimativas atualmente refletem aposta do mercado de que um candidato comprometido com as reformas irá vencer a eleição presidencial

Fábio Alves*, O Estado de S.Paulo

12 Setembro 2018 | 04h00

Não é desprezível o risco de uma forte onda de revisões para cima das projeções de inflação de 2018 – e até de 2019 – dependendo do desfecho da eleição presidencial.

Por enquanto, essas estimativas não embutem o que se viu ao longo do último mês: enquanto o dólar disparou ante o real, as expectativas inflacionárias caíram, contrariando uma correlação habitual entre pressão no câmbio e projeções de inflação em alta. Ou seja, as expectativas talvez não reflitam fielmente hoje um quadro mais complicado para a inflação adiante.

A valorização mais agressiva do dólar ante o real desde meados do mês passado foi resultado não somente das incertezas com a eleição presidencial, como também o cenário mais adverso aos mercados emergentes, levando a perdas significativas do peso argentino e da lira turca, entre outras moedas.

Na primeira pesquisa Focus de agosto, do Banco Central, do dia 3, a projeção para o IPCA (o índice oficial de inflação) era de 4,11% em 2018. No mais recente boletim, divulgado na segunda-feira, 10, a estimativa de inflação em 2018 caiu para 4,05%.

Mas, no mesmo período, a cotação de fechamento do dólar passou de R$ 3,7080 para R$ 4,0832, ou seja, a moeda americana subiu mais de 10% frente o real.

A disparada do dólar, que chegou a superar o patamar de R$ 4,21, já bateu, inclusive, nos preços dos produtos e serviços no atacado, afetando as cotações de commodities agrícolas, como soja, milho e trigo.

O Índice Geral de Preços - Disponibilidade Interna (IGP-DI), calculado pela Fundação Getulio Vargas (FGV), acumula em 12 meses até agosto uma alta de 9,06%. Outro importante índice de preços no atacado, o IGP-M, registra alta de 8,89% em 12 meses até agosto.

A ociosidade na economia brasileira, com a atividade perdendo fôlego e o desemprego ainda elevado, impediu até agora o repasse dessa alta no atacado para os preços ao consumidor. Em agosto, o IPCA surpreendeu para baixo, registrando queda de 0,09% e acumulando em 12 meses uma alta de 4,19%, comparado com a meta de inflação de 4,50% neste ano.

Mas a expectativa é de que esse quadro se reverta em setembro, quando se espera que a inflação do mês triplique em relação a agosto, em razão, entre outros fatores, de reajustes nos combustíveis justamente por causa da disparada do dólar.

Se o repasse da alta nos preços do atacado ao consumidor, de fato, se intensificar a partir deste mês, por que então as projeções de inflação para o ano de 2018 e também de 2019 permanecem bem comportadas?

“Como a eleição ainda está muito indefinida, não há muito incentivo a mudar desde já as projeções de inflação para os próximos anos”, explica um experiente economista paulista. “E se alguém pró-reformas ganhar? O câmbio voltaria a se apreciar e retiraria as ameaças sobre a inflação. Em outras palavras, antes do primeiro turno, dificilmente a pesquisa Focus vai mostrar mudanças relevantes nas projeções.”

É importante lembrar que o nível de “pass-through”, ou repasse da alta do dólar aos preços, é menor agora com a elevada ociosidade na economia. Mas isso pode mudar se as expectativas inflacionárias se desancorarem, ou seja, se subirem para além da meta fixada pelo BC. Para 2019, segundo a mais recente pesquisa Focus, a estimativa de inflação é de 4,11%, enquanto a meta do BC é de 4,25%.

“E as expectativas perderão essa ancoragem se o dólar disparar frente o real na esteira da eleição de alguém pouco comprometido com as reformas”, afirma o economista paulista. “E isso (desancoragem) vai acontecer, mesmo com ociosidade grande”, acrescenta ele, lembrando que esse foi o cenário observado em 2015 durante o governo Dilma Rousseff - de expectativas inflacionárias disparando em meio à desaceleração da economia.

Assim, as estimativas que constam da pesquisa Focus atualmente refletem a aposta do mercado de que um candidato comprometido com as reformas irá vencer a eleição presidencial. Ou seja, pode-se até dizer que as expectativas inflacionárias estão represadas.

Se a eleição presidencial caminhar para um desfecho contrário ao que o mercado aposta hoje, haverá provavelmente uma corrida dos analistas para corrigir seus números e refletir uma realidade bem mais amarga que a pesquisa Focus, do BC, nos mostra hoje.

*COLUNISTA DO BROADCAST

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