Grupo Luxor
Projeto de agropecuária do Grupo Luxor quer revitalizar áreas de pasto degradadas. Grupo Luxor

Projeto de agrofloresta e pecuária deve ser estendido a mais 24 mil hectares em Mato Grosso

Grupo Luxor, que vinha buscando formas mais sustentáveis de praticar a agropecuária, quer aplicar projeto experimental de criação de gado e lavoura em áreas de pasto já degradadas

Tânia Rabello, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2020 | 13h00

O projeto Pasto Vivo, financiado pela Grupo Luxor e pelo Meraki Impact, deve ser totalmente implementado até 2022 e, se tudo correr bem, será estendido a duas outras propriedades do grupo Luxor na mesma região. Os dois espaços trabalham com pecuária extensiva de recria e engorda: juntas, abrigam 24 mil cabeças de bovinos de corte e abatem 11 mil cabeças por ano. São a Fazenda Rancho de Couro, com 13 mil hectares, sendo 4,7 mil hectares de mata nativa, e a Fazenda Alvorada, com 11 mil hectares e reserva legal de 4 mil hectares. Assim, ao fim e ao cabo, seriam 25,2 mil hectares de agrofloresta/pecuária no oeste de Mato Grosso.

O hedge da Luxor Agro, Daniel Baeta, conta que a empresa já vinha buscando formas de tornar mais sustentável a pecuária nas três propriedades do grupo, o que acabou, por consequência, levando ao sistema agroflorestal. O pastejo rotacionado, por exemplo, é aplicado há pelo menos dez anos em 100% das invernadas das três propriedades. Outra tecnologia que começou a ser utilizada há dois anos é a adubação intensiva de pastagem, em 700 hectares.

Além disso, o sistema integração lavoura-pecuária (ILP) já cobre mil hectares de pasto e mais 600 hectares devem ser incorporados à técnica este ano. "Fomos umas das primeiras propriedades pecuárias da região a aliar a lavoura de grãos à criação de bovinos", conta o executivo da Luxor Agro. "Como Pontes e Lacerda (MT) é região de fronteira agrícola, não é muito tradicional em agricultura; aqui se trabalha mais com pecuária."

Mesmo com toda a tecnologia adotada até agora, Baeta reconhece que a Fazenda São Benedito, onde será implementado o projeto agroflorestal, ainda tem áreas de pasto degradado. "É justamente na área degradada que a agrofloresta vai começar."

Sobre o ineditismo de um projeto pecuário e agroflorestal dessa extensão e os riscos envolvidos, Daniel Baeta conta ao Estadão/Broadcast: "Antes de sermos pecuaristas, somos investidores. E o investidor sabe que a inovação, atualmente, é inevitável para o agronegócio", diz. "Além disso, qualquer inovação hoje deve trazer impactos positivos para o meio ambiente e acreditamos que, no curto ou médio prazo, se a pecuária brasileira não inovar para acabar com o modelo de uma cabeça por hectare, vai se tornar insustentável."

Mesmo reconhecendo que há bastante inovação na pecuária brasileira – com a lavoura-pecuária-floresta (ILPF) entre as principais tecnologias de sustentabilidade e uso intensivo da terra –, Baeta diz que o grupo preferiu seguir o caminho ainda pouco desbravado – quando se trata de pecuária de bovinos em grande escala – da agrofloresta, "porque ele faz todo sentido", destaca.

"Se você pensar na lógica ambiental, de aumentar a biodiversidade e produzir mais justamente por causa da biodiversidade, esse sistema me parece ótimo, ou seja, faz sentido tanto ambientalmente quanto economicamente", diz. "A dificuldade, reconheço, é implementá-lo em larga escala, que é o que nós vamos aprender com esse projeto."

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Grupos Luxor e Meraki investem R$ 5 milhões em projeto de agrofloresta e pecuária no Mato Graos

Ideia é juntar bovinos, pastagens e plantio de árvores em um espaço experimental e interligado; fazenda terá ainda uma reserva legal dentro do Cerrado, que pode gerar rendimentos sem desmatar

Tânia Rabello, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2020 | 13h00

Um projeto de R$ 5 milhões no Estado de Mato Grosso deve mostrar ainda este ano que a pecuária, setor costumeiramente alvo de ataques de ambientalistas, pode ser sustentável. A ideia do Grupo Luxor, empresa familiar de capital fechado, é juntar bovinos, pastagens e agrofloresta num grande espaço experimental, de 1,2 mil hectares, no município de Pontes e Lacerda, no oeste mato-grossense.

A Fazenda São Benedito, onde será desenvolvido o projeto, já trabalha com pecuária de corte, diz o head do Luxor Agro – braço agropecuário do grupo –, Daniel Baeta. "Desde a década de 1970 mantemos ali gado de recria e engorda a pasto, num modelo bem tradicional de pecuária", conta ele ao Estadão/Broadcast, acrescentando que, atualmente, 800 cabeças estão alojadas ali, em 850 hectares, onde a pastagem de braquiária predomina. "É uma pecuária bastante extensiva; a engorda é 100% a pasto", descreve.

A área de reserva legal da fazenda, que fica dentro do bioma Cerrado, compreende 350 hectares de mata nativa e também dali a Luxor Agro espera obter algum rendimento por meio do novo sistema – obviamente, com a floresta em pé. Além disso, o projeto contempla o aumento da área de reserva legal e também de áreas de proteção permanente (APPs).

Para levar à frente a empreitada, denominada Projeto Pasto Vivo, a Luxor Agro contratou a Pretaterra, especializada em modelos agroflorestais no Brasil e em diversos outros países. Em São Paulo, por exemplo, fez o desenho de grande parte das agroflorestas para um dos maiores empreendedores orgânicos do País: o ex-piloto de fórmula 1 Pedro Paulo Diniz, que hoje produz principalmente ovos orgânicos no município de Itirapina (SP), na Fazenda da Toca, conhecida no circuito de agricultura e consumo sustentáveis.

O projeto tem também como coinvestidor o Meraki Impact e outros parceiros, como o Savory Institute, responsável pela adequação do rebanho com manejo holístico, o Climate Smart Group, ligado ao segmento de créditos de carbono, e a Renature, facilitadores e responsáveis por buscar offtakers para os produtos regenerativos do projeto, além da Embrapa Solos, que, com a Pretaterra, contribuirão na área de pesquisa, avaliação de serviços ecossistêmicos e aferição do modelo agroflorestal integrado, principalmente com base nas experiências prévias com integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF).

Um dos gestores da Pretaterra, o engenheiro florestal Valter Ziantoni, relata que, no atual estágio, está sendo feito o levantamento das espécies que vão compor o sistema agroflorestal, inclusive no meio da pastagem, a fim de garantir alimentos alternativos para o gado, sombreamento e maior diversidade na área - além de retorno econômico de todo o sistema. "O pasto da São Benedito é predominantemente de braquiária; a ideia é plantar espécies arbustivas já consagradas em pesquisas, que sejam palatáveis ao gado, garantindo boa produtividade mesmo nos períodos de seca", explica Ziantoni citando, por exemplo, o "margaridão" (Tithonia diversifolia).

Sócia de Ziantoni na Pretaterra, a engenheira florestal Paula Costa acrescenta que neste momento também está sendo elaborado o "desenho" do projeto na área da fazenda - ou seja, o que vai ser plantado e em qual parcela da propriedade. "Estamos selecionando as espécies arbóreas e arbustivas, como castanhas, frutas e forrageiras, além de árvores madeireiras, para compor o sistema", comenta.

Ela reforça que o projeto, justamente pelo seu ineditismo em relação à escala em que será implementado, está sendo estudado e construído em seus mínimos detalhes. "Nada será iniciado antes de termos um projeto muito bem desenhado, com todas as suas potencialidades ambientais e econômicas", diz.

 

Ajustes finos

Inicialmente, na área piloto, grãos como milho e soja também estarão na mesma área, tendo como base os preceitos da integração lavoura-pecuária-floresta – um modelo de sistema agrossilvipastoril desenvolvido pela Embrapa –, em que grãos e pasto são semeados simultaneamente, além de espécies arbóreas. Assim que o grão, como milho, por exemplo, é colhido, o gado entra no pasto já germinado e com massa verde adequada para alimentar os animais. Enquanto isso, as árvores vão tomando corpo e garantirão, mais à frente, além de sombra para os bovinos, uma terceira fonte de renda – seja na venda de madeira, seja na produção de frutas ou castanhas, a depender da espécie plantada.

Entretanto, Paula e Ziantoni dizem que, embora esse plantio inicial siga algumas regras do ILPF, será um sistema muito mais diversificado de espécies vegetais do que um ILPF convencional, em que geralmente se plantam grãos como milho ou soja, uma espécie de pasto e uma espécie arbórea que produz madeira, como o eucalipto ou teca. "Sob esse aspecto, vamos seguir os preceitos de diversificação da agrofloresta, reunindo plantas que deem retorno econômico e que possam também alimentar os bovinos."

Ziantoni complementa dizendo que o momento atual é de "ajuste fino" das espécies vegetais que integrarão o projeto. "Estamos avaliando as plantas que serão usadas na ampliação da reserva legal e das APPs, no pasto e na agroflorestal”, diz.

A ideia, contam Paula Costa e Valter Ziantoni, é iniciar os primeiros plantios logo que a estação chuvosa retornar em Mato Grosso, por volta de meados de novembro. "Até lá já teremos o desenho do sistema e todo o seu potencial produtivo e a área piloto instalada", diz o engenheiro florestal. Ambos dizem que, além do conhecimento adquirido ao longo de mais de dez anos que trabalham com agrofloresta, a Pretaterra também tem assessoria, neste projeto, de uma equipe multidisciplinar e outros pesquisadores, como da Embrapa, na indicação das espécies de plantas que se adaptam à região e podem servir de alimento aos bovinos.

Viabilidade

Segundo os engenheiros florestais, o projeto Pasto Vivo tem por objetivo criar "o melhor modelo pecuário agroflorestal do mundo", e que seja, sobretudo, possível de replicar em outras propriedades do País. "Esse requisito é fundamental", reforça Paula Costa. "Vamos criar um sistema inédito de produção sustentável de alimentos, que alia agrofloresta e pecuária numa grande área, mas que seja possível de ser reproduzido nas propriedades do entorno", detalha.

A viabilidade econômica também é exigência primordial da Luxor Agro e dos outros investidores, assinala Daniel Baeta. "O que queremos é o retorno financeiro aliado à sustentabilidade ambiental do sistema", diz. "Somos, antes de tudo, investidores, e queremos o retorno desse investimento."

O executivo comenta ainda que, para que o projeto consiga ter impacto positivo no setor agropecuário, deve "ter escala" e por isso decidiu aplicar o experimento em uma área grande, de 1,2 mil hectares – o equivalente, aproximadamente, a 1,2 mil campos de futebol. "Assim conseguiremos um efeito relevante tanto no Brasil quanto no mundo, provando que a pecuária pode, sim, ser uma atividade lucrativa e sustentável", assinala.

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