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Pedro Fernando Nery
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'Projeto nacional': expressão já foi usada tantas vezes que não parece ter nenhum significado claro

Para os militares, o projeto nacional é o passado da ditadura; para Dilma, era a continuação daquele presente de 2010; para Ciro, uma novidade

Pedro Fernando Nery*, O Estado de S.Paulo

09 de novembro de 2021 | 04h00

Ciro Gomes anunciou a suspensão de sua pré-candidatura. O que é uma suspensão de pré-candidatura? Não sei. A pré-candidatura propunha um “projeto nacional de desenvolvimento”. Também não sei o que é isso. Sei que Felipe Neto tinha declarado apoio ao projeto. E até li trechos do livro de Ciro (Projeto nacional: O dever da esperança). Mas a expressão já foi usada tantas vezes, por tanta gente, que não parece ter nenhum significado claro.

Ciro criticou bastante nos últimos dias o governo Dilma. Sabe quem também propôs um projeto nacional de desenvolvimento? Dilma, já na sua primeira eleição (“Dar seguimento a um projeto nacional de desenvolvimento que assegure grande e sustentável transformação produtiva do Brasil”).

Sabe quem também? O comandante Villas Bôas. Seu instituto é voltado para a elaboração de um. Mas não se trata de um projeto “nacional”, e sim um projeto “de nação”. “Ele será a sonhada Grande Estratégia Brasileira, que só existiu em algumas oportunidades, nas três décadas após a 2.ª Guerra Mundial, mas sem a dimensão que se pretende”, diz no site.

Tudo é tão oco que, dois parágrafos depois, o marco temporal já mudou.

“Nossa sociedade se deixou impregnar por esquemas mentais que nos são estranhos, depois de 50 anos em que, a despeito das precariedades, trazíamos conosco um senso de grandeza.”

Para os militares, o projeto nacional é o passado da ditadura; para Dilma, era a continuação daquele presente de 2010; para Ciro, uma novidade.

O atual governo também quer um. Não é bem um “projeto” nacional de desenvolvimento, porque é uma “política” nacional de desenvolvimento. Está a cargo da Secretaria de Assuntos Estratégicos. Pazuello trabalha na Secretaria de Assuntos Estratégicos.

A expressão parece ter encontrado mais significado nos argumentos dos críticos. Um amigo economista diz que, quando ouve falar em projeto nacional de desenvolvimento, já esconde a carteira. É que esses projetos costumam ter, além das boas intenções como fim, a distribuição de dinheiro público para empresários como meio. Como evitar que um projeto nacional de desenvolvimento não vire o próximo livro da Malu Gaspar?

Um usuário do Twitter os compara ao “plano infalível do Cebolinha”: primeiro a grandiosidade, a ilusão do controle, e depois o fracasso monumental.

Devemos continuar ouvindo o termo até a eleição. Espero que ele ganhe significado. Há uma pergunta básica a responder. Como o novo “plojeto” de desenvolvimento responde às nossas tentativas que deram errado? 

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