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Projeto Xisto renasce e se torna estratégico para a Petrobras

Após ser oficialmente fechado no final dos anos 80, o Projeto Xisto da Petrobras, em São Mateus do Sul, a 140 quilômetros de Curitiba, é hoje uma unidade em que a preocupação maior é escolher quais negócios priorizar, tantas as alternativas surgidas nos últimos anos. Os negócios são pequenos e o faturamento em torno de R$ 80 milhões por ano garante à antiga Superintendência de Industrialização do Xisto (SIX), atual Unidade de Negócios da Industrialização do Xisto, a condição de menor instalação da área de abastecimento do sistema Petrobras. Em termos estratégicos, porém, a importância é crescente. Além de dominar o processo de extração do óleo do xisto, a SIX contribui no desenvolvimento de gasolina especial para carros de corrida de Fórmula 1 ? uma vantagem estratégica buscada pelos refinadores do mundo todo.A unidade é responsável também pela realização de testes em campo para refinarias, simulando as diversas possibilidades previstas pelo Centro de Pesquisas da empresa (Cenpes), no Rio de Janeiro. Entre os testes está o de aproveitamento dos óleos descobertos na Bacia de Campos, como o de Marlim, muito "pesado" para a maioria das refinarias nacionais. ?O Cenpes faz as simulações teóricas e nós realizamos os testes em condições muito similares as de uma refinaria", explica o gerente-geral da Six, Paulo Rosa de Campos. Durante mais de 20 anos, Campos operou refinarias de grande porte e conta que sentiu-se meio deslocado quando assumiu a unidade de xisto em julho do ano passado porque ali "tudo é muito diferente". Hoje, porém, Campos só fica angustiado na escolha das alternativas que surgem.ReciclagemEntre as possibilidades está a reciclagem de pneus usados e a descoberta de novos usos para a rocha, especialmente do xisto retortado, ou seja, da rocha que sofreu um primeiro aproveitamento pela pirólese na retorta. A pirólese é o processo de separação de elementos químicos através de aquecimento, sem combustão. O xisto retortado já é utilizado como fertilizante e na fabricação de ração animal por empresas surgidas na incubadora tecnológica mantida pela Petrobras na região. Exportação de tecnologiaA própria tecnologia do xisto virou mercadoria e a SIX negocia a venda dessa tecnologia para diferentes países, como a Rússia, China e até a Mongólia, um país que nunca realizou negócios com o Brasil. Campos credita essas possibilidades ao fato de a Petrobras nunca ter interrompido pesquisas, mesmo quando vieram as determinações governamentais. "Houve um grande enxugamento de pessoal e muita tristeza, mas o projeto sobreviveu", conta o geólogo Henrique Krahenbuhl Porto Alegre, há mais de 15 anos na Six.A continuidade das pesquisas foi um passo vital. "Nos anos 70, devido à crise do petróleo gerada pelo boicote da Opep, muitos países iniciaram a pesquisa com o xisto, mas depois todo mundo desistiu", recorda Campos. Segundo ele, a Petrobras dispõe hoje da melhor tecnologia para exploração do xisto, apesar de a produção ser em pequena escala. A produção diária da Six gira em torno de quatro mil barris diários, enquanto as refinarias da Petrobras processam em torno de 200 mil barris diários. Mas, se houver necessidade, a empresa consegue ampliar essa produção para novos patamares, pois as reservas conhecidas são para mais de 500 anos.LucrosA exploração do xisto se viabiliza com o petróleo em torno de US$ 15 o barril, o que significa que, aos níveis atuais (em torno de US$ 22 o barril), a SIX dá lucro. "Há quase dois anos deixamos de pedir dinheiro e estamos mandando dividendos para a Petrobras", garante Campos. A independência financeira se consolidará com a instalação de uma termelétrica movida a xisto retortado com capacidade de 70 MW, já está praticamente aprovada, num empreendimento conjunto com a Copel, companhia de eletricidade controlada pelo governo do Paraná. A termelétrica será nova fonte de receitas para a SIX e um dos seus subprodutos, as cinzas, são muito procurados pelas fábricas de cerâmica.Além de desenvolver tecnologia, uma das preocupações da Six é evitar danos ao meio ambiente. E quem percorre as minas da empresa pode constatar detalhes que passariam despercebidos a quem não é informado. A área "minerada", por exemplo, é regularmente recuperada e está recoberta por mata similar ao existente no período anterior à exploração. A área efetiva de exploração ocupa cerca de 1.500 metros e "caminha" em torno de 200 metros por ano. Ou seja, ao mesmo tempo que "abre" novas áreas, a empresa "fecha" área equivalente, mantendo o mesmo volume de área descoberta. E a recuperação da área é feita com o mesmo material retirado da região, ao qual é misturado o lixo de São Mateus do Sul. Com isso, essa cidade paranaense é uma das poucas do Brasil que resolveu de forma satisfatória a questão do lixo urbano.Meio ambientePara aferir se há algum "dano permanente" à região, a Petrobras faz pesquisas constantes, segundo Campos. E todas as indicações apontam para a recuperação natural da área. Isso é monitorado pela qualidade da água e pelos animais em reprodução em um parque ecológico instalado em São Mateus do Sul. O geólogo Porto Alegre defende esses cuidados, pois está convencido da resposta positiva. Uma prova disso é que até o lençol freático (caminho das águas em nível subterrâneo), cerca de 15 metros no subsolo, praticamente volta ao nível inicial logo após a restauração.O corte na mina ultrapassa os 40 metros de profundidade. E para que a natureza fique o mais próximo possível à configuração original, os técnicos da SIX instalaram colméias na floresta reconstituída, facilitando o trabalho de polinização das abelhas. E todo visitante recebe, como brinde, um pequeno pote de mel silvestre, o que leva ao inevitável comentário de que a unidade, além de derivados do xisto retortado, produz um doce mel.

Agencia Estado,

24 de março de 2002 | 13h54

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