Promoções ajudam varejo, mas são insuficientes

Vendas do comércio em janeiro cresceram 0,8%, mas a expectativa dos analistas é de cenário pessimista, de queda para o ano

Daniela Amorim, O Estado de S. Paulo

14 de março de 2015 | 09h50

RIO - Após um Natal fraco, as promoções para desencalhar os estoques do varejo favoreceram as vendas. O aumento no volume vendido foi de 0,8% em janeiro, após o tombo de 2,6% em dezembro, segundo a Pesquisa Mensal de Comércio do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Especialistas alertam, entretanto, que o resultado não altera o cenário pessimista para o setor. "Se o varejo fechar o ano com qualquer crescimento que seja, é algo a ser comemorado. O Produto Interno Bruto (PIB) negativo vai puxar o mercado de trabalho para baixo, a inflação está muito alta, o Banco Central vai continuar a aumentar os juros, assim como os bancos", disse o economista Fabio Bentes, da Confederação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). A CNC reduziu sua expectativa de alta nas vendas este ano de 1,7% para 1%.

Embora o resultado do varejo em janeiro tenha sido positivo, não representa uma recuperação consistente na atividade do setor e, portanto, é insuficiente para melhorar as expectativas com relação à economia, afirmou o economista-chefe da Icatu Vanguarda, Rodrigo Melo. "O crescimento verificado no varejo é frágil."

Em relação a janeiro de 2014, o volume vendido pelo varejo cresceu apenas 0,6%, o pior desempenho para o mês desde 2003. "Mesmo com alguns setores sendo beneficiados pelas promoções após o Natal, a gente tem (as vendas de) janeiro comparado com igual período de outros anos num patamar bem abaixo", disse Juliana Vasconcellos, gerente da Coordenação de Serviços e Comércio do IBGE.

Veículos. No varejo ampliado, que inclui as atividades de veículos e material de construção, a queda chegou a 4,9% em relação ao mesmo mês do ano passado, o resultado mais baixo para janeiro em toda a série histórica da pesquisa, iniciada em 2001.

"O resultado não indica, em absoluto, uma tendência de melhora ao longo do ano. Pelo contrário, os fundamentos continuam muito ruins, e não há perspectiva de um gatilho que reverta o pessimismo das famílias no curto prazo", avaliaram os economistas Rodrigo Baggi e João Morais, da Tendências Consultoria Integrada.

A conjuntura econômica permanece menos favorável ao consumo, com as concessões de crédito crescendo menos, o rendimento do trabalhador apresentando ganhos menores, e as famílias com baixas expectativas e suas rendas comprometidas, enumerou Juliana Vasconcellos. Os veículos, com queda de 16,6% nas vendas, e material de construção, com recuo de 2,8%, estão entre os setores mais impactados.

No caso de automóveis, houve ainda elevação na alíquota do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), que vinha reduzida como parte da política de incentivos do governo ao consumo. "A massa salarial está subindo menos, a renda está mais comprometida, o crédito crescendo menos. O setor de veículos está sendo bem impactado", afirmou Juliana.

Em material de construção, a manutenção da política do governo de redução de tributos não surte mais os efeitos vistos anteriormente.

"Apesar dos incentivos que o governo ainda mantém, as famílias estão receosas em investir em material de construção. E tem também o atacado, as empresas não estão investindo (em construção)", lembrou a gerente do IBGE.

Na passagem de dezembro para janeiro, aumentaram as vendas de equipamentos de informática e comunicação, móveis, eletrodomésticos, artigos de vestuário e calçados, todos sob influência das promoções para desencalhe de estoques. Outra atividade com impacto relevante foi a de artigos farmacêuticos, favorecida pelos preços que sobem em ritmo inferior à inflação./ COLABOROU GABRIELA LARA

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