Proposta de Geithner de metas para conta corrente divide países

Coreia do Sul e os EUA defendem redução de superávits e déficits, mas países exportadores, como Japão e Alemanha, discordam

Danielle Chaves, da Agência Estado,

22 de outubro de 2010 | 08h21

Uma proposta entre nações do G-20 que tem como meta cortes nos desequilíbrios em conta corrente, destinada a evitar uma "guerra cambial", está enfrentando oposição de grandes países exportadores. A Coreia do Sul, que sedia a reunião de ministros de Finanças e representantes de bancos centrais do G-20, e os EUA estão defendendo a ideia de compromissos para reduzir os superávits e os déficits abaixo de níveis específicos.

Essa seria uma forma de fazer países como a China - que resistem a fazer compromissos com relação à política cambial - concordarem em estabelecer metas com o objetivo de "reequilibrar" o crescimento global, dependendo menos dos consumidores norte-americanos. No entanto, Japão e Alemanha, cujo modelo de crescimento liderado pelas exportações gerou grandes superávits comerciais, estão se opondo à proposta na reunião do G-20.

"A ideia de estabelecer metas numéricas é irrealista", afirmou o ministro de Finanças do Japão, Yoshihiko Noda. O Japão e a Alemanha dizem que seus governos não podem determinar soluções macroeconômicas que são, em boa parte, resultado da atividade de empresas privadas e indivíduos. "A crença tradicional do Japão é a de que (...) embora os saldos fiscais possam ser controlados por meio de políticas, os saldos comerciais e em conta corrente não podem", disse à Dow Jones uma fonte ligada ao governo japonês.

Segundo essa fonte, a oposição de Tóquio também provavelmente reflete a preocupação de que um acordo para limitar o superávit japonês envolva permitir que o iene se valorize. O Japão interveio no mercado de câmbio em setembro, pela primeira vez em seis anos, mas a moeda do país se fortaleceu novamente e agora está perto de níveis recordes de alta ante o dólar.

Berlim, por sua vez, afirma que não é legalmente capaz nem filosoficamente inclinada a interferir em sua economia da forma necessária para cortar o superávit. O Bundesbank, banco central do país, argumenta que é natural para países com população em envelhecimento economizar mais do que investir, embora críticos digam que os alemães mais velhos não mostram sinais de que vão sacar essas economias quando se aposentarem.

Um documento interno do Banco da França, visto pela Dow Jones, identificou importantes obstáculos para a proposta - afirmando que ela é "analiticamente e economicamente falha". No entanto, como ela dá flexibilidade política e garante consistência entre as economias, "pode contribuir para apaziguar as tensões sem comprometer ninguém com uma política de taxa de câmbio específica".

"Isso pode explicar porque a China e os EUA parecem concordar nesse estágio da proposta", diz o documento francês, acrescentando, porém, que há "forte hostilidade de outras economias com superávit, como Alemanha, Japão, Canadá e a Comissão Europeia".

Metas podem aproximar EUA e China

A Coreia do Sul espera que a proposta de metas para superávits e déficits em conta corrente possa solucionar as diferenças entre os EUA e a China, que têm debatido há meses sobre o câmbio. "Se nos concentramos apenas nas taxas de câmbio, perdemos o objetivo principal, que é um crescimento forte e sustentável", afirmou uma autoridade do governo sul-coreano. "A taxa de câmbio é apenas um dos instrumentos", acrescentou.

Os EUA afirmam que o yuan desvalorizado está dificultando o reequilíbrio global, enquanto a China diz que a política monetária frouxa do Federal Reserve é "irresponsável", já que tem gerado grandes e potenciais fluxos desestabilizadores de capital para as nações emergentes.

Segundo o oficial sul-coreano, "a China está estudando (a proposta) como uma entre muitas propostas" e observou que ela "é melhor do que apenas falar sobre moedas, já que deixa para a China a decisão sobre qual ferramenta política" quer usar para atingir a meta.

Autoridades chinesas não foram encontradas imediatamente para comentar o assunto. No entanto, a ideia de metas para conta corrente combina com a declaração do vice-presidente do Banco do Povo da China (PBOC, banco central do país), Yi Gang, em 10 de outubro, de que o país está planejando políticas que possam resultar em queda de seu superávit para menos de 4% do Produto Interno Bruto (PIB) em três ou cinco anos, de cerca de 5,8% em 2009.

A China tem rejeitado as pressões para deixar o yuan se valorizar mais rapidamente, dizendo que está se movendo no seu ritmo em direção a um sistema cambial mais flexível.

Japão: meta prevê corte de desequilíbrio a 4% do PIB

O ministro das Finanças do Japão, Yoshihiko Noda, disse que os Estados Unidos e a Coreia do Sul apresentaram uma proposta preliminar para que os países reduzam os desequilíbrios em conta corrente para 4% ou menos de seus respectivos PIBs até 2015. Os comentários foram feitos após o encerramento do primeiro dia do encontro dos ministros das finanças e representantes dos bancos centrais do G-20.

Noda disse ter expressado oposição à ideia de introdução de qualquer "meta numérica, rígida" para o balanço em conta corrente, a mais ampla medida sobre os ganhos das nações com comércio e investimentos. Mas pode ser aceitável (utilizar tais metas) como um número de referência, para avaliar os progressos do reequilíbrio global, acrescentou. As informações são da Dow Jones.

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