Proposta do Mercosul à UE deve cobrir 85% do comércio

A oferta de acesso aos mercados dos países do Mercosul (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai) à União Européia (UE) está "está praticamente pronta" e deve cobrir pelo menos 85% do universo tarifário, faltando acertos em alguns setores, como químico, eletroeletrônico, automotivo e autopeças, segundo uma fonte diplomática.Para a Argentina, existem algumas "dificuldades", nas quais o Mercosul começa a resolver como, por exemplo, dar acesso de mercado para os setores têxteis, siderúrgicos e calçadistas. A maior dificuldade argentina é a concorrência brasileira, avalia a fonte.AgrícolaO setor agrícola está disposto a abrir as portas onde há ofertas exportadoras, mas recusa a redução imediata das tarifas aplicadas ao comércio entre os dois blocos, com receio da competição de produtos subsidiados na origem, porque, diz a fonte, a questão do subsídio não é tratada durante as discussões de acesso.O trigo é um exemplo. A Argentina, grande produtora e forte exportadora ao mercado europeu, poderia ver seu comércio prejudicado pelo trigo europeu subsidiado. "É evidente que os países sempre terão o recurso de direitos compensatórios junto à Organização Mundial do Comércio (OMC)", avalia a fonte, mas essas são as considerações que estão sobre a mesa na elaboração da oferta do Mercosul.Automotivo e eletroeletrônicoNo Brasil, há graus diferentes de dificuldade. Os setores automotivo e eletroeletrônico são sensíveis, seguem protegidos por tarifas máximas, 35%, para o comércio extra-Mercosul. A revisão recente do acordo automotivo entre Argentina e Brasil reflete a situação do setor, que teve como um dos objetivos o aumento da quantidade de autopeças nacionais nos carros produzidos no Mercosul.A novidade, afirma a fonte, é que as montadoras estão começando a olhar as próprias matrizes como parceiras e podem desonerar essa tarifa. A cadeia automotiva exporta por ano US$ 7,5 bilhões entre veículos e autopeças. Há necessidade premente de aumentar as vendas externas para ocupar a capacidade instalada, que, no caso das montadoras, opera com ociosidade de 40%, segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea).MéxicoOutro dado motivador para a cadeia automotiva: os resultados do acordo comercial firmado entre Brasil e México. Em 2001, o México foi responsável pelo terceiro maior superávit do Brasil, graças ao setor automotivo, responsável por quase metade das vendas. Ano passado, os dois países assinaram ainda um acordo de complementação econômica, quando o Brasil recebeu mais concessões na área automotiva. Mas, em troca, permitiu descontos de 20% a 100% sobre tarifas a produtos químicos e agrícolas.A indústria brasileira de produtos elétricos e eletrônicos também está na lista dos conservadores em disposição de abertura de mercado. Deficitário, o setor se sustenta de insumos importados, "beneficiados pela Zona Franca de Manaus", para montar produtos, que têm a obrigatoriedade de serem produzidos no Brasil. O bloco apresenta para a UE uma lista conjunta e é a mesma que deverá ser levada às negociações da Área de Livre Comércio das Américas (Alca).O Brasil propõe que 25% dos produtos possam ter as tarifas reduzidas a zero em até dez anos, e os 75% restantes tenham a abertura em mais de dez anos. No primeiro grupo estão produtos como balcões refrigeradores e filtros para automóveis, e no segundo há itens como os motores usados em aparelhos de refrigeração e ventiladores de mesa.QuímicoAs dificuldades dos setores químico e petroquímico também não são uma novidade. Eles tiveram problemas para serem incluídos no acordo com o México e talvez neste caso também, "os prazos de redução de tarifas sejam maiores que 10 anos, podendo chegar a 15", prevê a fonte. Outra alternativa para esses setores seria a redução alternada, com variações maiores de tarifas em certos períodos ao longo desses 10 anos.O Mercosul cumprirá o prazo de 28 de fevereiro, previsto para a troca de ofertas entre os blocos, afirma a fonte. Em contrapartida, sabe que não receberá uma nova oferta comunitária. O comissário europeu de comércio, Pascal Lamy, admitiu a possibilidade de melhorar a proposta da UE - entregue em julho de 2001-, mas somente depois de receber a nova oferta do bloco sul-americano - a primeira foi feita em novembro de 2001.A proposta atual do bloco liderado pelo Brasil abrange, segundo os europeus, a eliminação de tarifas de importação para pouco mais de 30% dos produtos comercializados com a UE , enquanto, de acordo com Lamy, os europeus já puseram na mesa sua oferta envolvendo 90% dos produtos comercializados com o bloco do Cone Sul. A próxima rodada de negociação acontece na semana de 17 de março, em Bruxelas.

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