Celso Junior/AE-4/9/2008
Celso Junior/AE-4/9/2008

Proposta francesa de estoque global é combatida no G-20

Brasil e EUA atacam a ideia da França de regulação dos preços dos alimentos, mas Itamaraty aceita ajudar os países pobres

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

22 de janeiro de 2011 | 00h00

O Brasil e os Estados Unidos bloqueiam a proposta da França de usar o G-20 para regular os preços de produtos agrícolas e criar um estoque mundial de alimentos. Ontem, em Berlim, o G-20 reuniu pela primeira vez os negociadores agrícolas do bloco. Mas a proposta do presidente francês Nicolas Sarkozy foi duramente atacada e Paris foi acusado de manipular a crise alimentar para defender seus interesses protecionistas.

Apesar de atacar a ideia, o Brasil aceitou a proposta de ajudar países pobres a refazerem seus estoques e de estabelecer regras para frear a especulação no comércio de commodities, reivindicações também de Paris.

A França preside o G-20 neste ano e colocou a questão do preço de alimentos e a volatilidade dos mercados como uma das prioridades. Mas, no encontro entre negociadores agrícolas, ontem, ficou evidente o mal-estar causado pela proposta, mostrando os limites de cooperação do G-20.

Alegando necessidade de controlar a volatilidade dos preços de alimentos, Sarkozy insiste num maior controle sobre a especulação no setor agrícola e, acima de tudo, na criação de uma espécie de estoque mundial de alimentos. Na diplomacia brasileira, a ideia é conhecida como "Conab Mundial" e é vista como uma tentativa perigosa de intervir nos mercados globais, exatamente quando a renda para as exportações brasileiras atinge uma alta recorde.

Mais distorção. Para o governo brasileiro, o debate é "legítimo". Mas não há como estabelecer um controle mundial sobre preços de alimentos, como quer a França. Ontem, o Itamaraty deixou claro que a intervenção criaria ainda mais distorção no mercado agrícola e abriria portas para que países ricos usassem as novas regras para favorecer seus produtores.

Conforme o Estado revelou ontem, foi a alta nos preços de commodities que evitou que a balança comercial brasileira com a Europa se tornasse negativa. A renda com a exportação de açúcar e milho para a UE, por exemplo, aumentou entre três e seis vezes em apenas um ano.

O Brasil, porém, não pode rejeitar o debate, sob o risco de ver sua posição como líder dos países em desenvolvimento ser questionada pelos aliados. Muitos desses aliados são importadores de alimentos e enfrentam protestos. Em 2010, a alta no preço de commodities fez suas contas atingirem pontos críticos.

O Itamaraty, consciente da sensibilidade do assunto, disse ontem que está disposto a negociar no G-20 uma solução para os países mais pobres enfrentarem a crise. Isso incluiria a criação de incentivos para formação de estoques nesses países e até a venda de produtos a preços mais baixos. A estimativa é de que, se essas medidas forem aplicadas, a distorção não será substancial.

Na avaliação do Brasil, há ainda espaço no G-20 para um acordo que limite a especulação no mercado financeiro com as commodities. Mas essa é uma fraqueza apenas da Europa. Tanto o Brasil como os Estados Unidos já têm em suas bolsas mecanismos de controle contra a especulação em produtos agrícolas.

Um estoque mundial e um controle de preços, na avaliação do Brasil, congelaria a expansão da produção nacional. Hoje, o País já o terceiro maior exportador agrícola, superado apenas pela UE e pelos Estados Unidos.

O governo dos Estados Unidos também liderou o ataque, deixando claro que não é a regulação dos estoques que solucionará a volatilidade. Sarkozy chegou a levar a ideia de regulação ao presidente Barack Obama, mas não recebeu seu aval.

O governo americano deu total apoio à recusa brasileira na reunião do G-20 e defendeu a formação de estoques como atribuição de cada governo, em decisões soberanas. O Itamaraty agora espera que a França desista de seus planos ou pelo menos reduza suas ambições. O teste ocorrerá na próxima semana em Paris, na primeira reunião entre negociadores-chefes de cada país.

REAÇÃO PELO MUNDO

Coreia do Sul

Anunciou que aumentará o abastecimento de legumes, carnes e peixe antes do feriado do Ano Novo Lunar, no fim de janeiro.

Arábia Saudita

Promete aumentar reserva de trigo para cobrir um ano de abastecimento.

Indonésia

Abolirá imposto de importação sobre trigo, soja e carnes. Governo ainda quer estimular as plantações caseiras.

Argélia

Suspendeu todas tarifas de importação sobre açúcar e óleo.

Índia

Avalia limitar exportações de alimentos.

França

Quer o estabelecimento de um controle de preços mundial.

Japão

Está monitorando a situação e analisando suas reservas para o ano.

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