finanças

E-Investidor: "Você não pode ser refém do seu salário, emprego ou empresa", diz Carol Paiffer

Imagem Amir Khair
Colunista
Amir Khair
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Propostas

Há dissenso nas propostas para retomar o crescimento e, nesse sentido causa decepção os programas de governo para a economia dos dois candidatos de oposição ao atual governo.

Amir Khair, O Estado de S.Paulo

07 de setembro de 2014 | 02h05

O programa de Aécio e de Marina convergem para duas propostas "salvadoras": restaurar o tripé macroeconômico e conceder autonomia formal ao Banco Central (BC) para o controle da inflação. Param por aí sem apresentar a conexão dessas duas propostas para justificar o crescimento econômico.

O mercado financeiro é que sempre defendeu essas propostas. Elas consolidam a posição que lhe interessa de continuidade das altas taxas de juros (Selic e ao tomador), que historicamente lhe garante lucros elevados.

É situação ímpar no contexto internacional, que opera com taxas de juros básica ao nível da inflação e ao tomador com spreads na faixa de 3% a 5% ao ano.

Caso vençam essas propostas corre-se o risco de voltar ao passado de absoluta dominância financeira, que tanto estrago causou e que ainda causa ao tecido econômico, pois as taxas de juros, embora reduzidas no governo Dilma, ainda se encontram entre as mais altas do mundo.

Vale destacar que o BC na gestão do economista Alexandre Tombini tem diretoria não ditada pelo mercado financeiro, como foram as anteriores, e daí poder tomar decisões não pautadas por ele. Isso tem levado a críticas de que suas decisões não servem para ancorar as expectativas dos agentes econômicos. O que comanda as expectativas é a inflação passada e não a incerta futura. Essas críticas, no entanto, são atenuadas quando as decisões da autoridade monetária vão na direção de elevação da taxa básica de juros.

Tripé enganoso. É sintomático falar na perna fiscal do tripé macroeconômico como sendo composto pelo superávit primário (receitas menos despesas exclusive juros) em vez do resultado nominal (receitas menos despesas, inclusive juros), que é o conceito adotado em todos os países e organismos internacionais como o Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco Mundial e Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Isso ocorre para tirar o foco da causa central da sobrevalorização cambial e do rombo nas contas públicas causados pelos juros básicos elevados. Falar em câmbio flutuante é outra enganação, pois é administrado e em poucos meses o BC já torrou US$ 95 bilhões em swaps cambiais para segurar o câmbio em R$ 2,20/US$. Falar em meta de inflação sob responsabilidade do BC é enganoso também, pois a maior parte da inflação, como se verá à frente, independe do Banco Central.

Independência do BC. A independência do Banco Central colide com a política de articulação do front econômico para combater a inflação e para estimular o crescimento. Além disso, o BC só controla 5% da inflação. Vejamos. Nos últimos quatro anos, a média de inflação anual foi de 6,0%, com a seguinte subida anual média de preços: alimentos 9,0%, serviços 8,5% e preços monitorados pelo governo 3,6%. Na composição do IPCA, os alimentos participam com 25%, os serviços com 33%, os preços monitorados pelo governo com 20% e todos os demais itens dos preços comercializáveis (sujeitos à concorrência externa) pesam 22%. Assim, os alimentos contribuíram com 2,2 pontos (25% de 9,0), os serviços com 2,8 pontos (33% de 8,5) e os preços monitorados com 0,7 ponto (20% de 3,6), totalizando 5,7% de inflação em 6,0% ocorrido, ou seja, os três itens responderam por 95% da inflação (5,7 dividido por 6,0). Mas então o BC não controla a inflação? Não, pois a política monetária que vem adotando a Selic elevada para combater a inflação nada influi nos preços dos alimentos, nem nos preços dos serviços e nada tem a ver com os preços monitorados pelo governo.

O BC só influencia os preços dos bens comercializáveis, exclusive os alimentos, e o faz pelo câmbio, que mantém artificialmente valorizado usando a Selic elevada para atrair os dólares especulativos, que inundam a economia e drenam US$ 10 bilhões anualmente para a banca internacional. Vale considerar que mesmo essa estratégia tem limites, pois quem exporta para o Brasil tem folga suficiente nos preços em dólar e consegue reduzi-los para penetrar nosso mercado dado os elevados preços que vigoram na nossa economia.

Qual então o sentido das propostas de conceder independência formal ao BC? Nenhum, a não ser para manter livre a prática das elevadas taxas de juros, que retiram 6% do PIB nas contas públicas, tornando-as deficitárias. Como é o governo federal que paga essa conta, há falta de recursos, mesmo com a alta carga tributária, para atender à demanda social e de infraestrutura do País.

Crescimento. Para crescer é necessário em primeiro lugar eleger novo modelo econômico baseado num sistema de metas de crescimento em vez de metas de inflação. Com o posicionamento adequado da Selic ao nível da inflação (6%), o câmbio flutuaria para perto de R$ 3,00/US$, devolvendo parte significativa da perda de competitividade interna e externa. Como a disputa externa é mais dura, a briga por margem econômica é decisiva. Com o câmbio adequadamente posicionado abre-se espaço comercial para a disputa.

A retirada de tributos que ainda oneram as exportações (especialmente créditos de ICMS retidos pelos governos estaduais) e a convergência de preços dos insumos básicos para próximos dos níveis internacionais (com o fim da proteção tarifária em vigor) completam o arcabouço possível para a retomada da disputa externa. Com isso, novos acordos internacionais podem se tornar viáveis facilitando negociações atualmente amarradas por protecionismos que procuram compensar a pouca competitividade dos produtos aqui produzidos.

Outro elemento decisivo para abrir espaço ao crescimento é retirar as barreiras que tolhem o consumo e o investimento. A principal barreira ao consumo é a má distribuição de renda e altas taxas de juros ao consumo, atualmente em 102,36% ao ano, segundo a Associação Nacional dos Executivos de Finanças Administração e Contabilidade (Anefac). Mais do que dobra (!) o preço dos bens que são financiados por prazos a partir de um ano. A principal barreira ao investimento é a falta de perspectiva de expansão do consumo. Investir por quê, quando há capacidade ociosa e risco elevado da concorrência externa? É melhor esperar, e eventuais sobras de caixa podem ser aplicadas nos títulos do governo federal, sem riscos, boa rentabilidade e liquidez imediata.

Mudança. A sociedade pede mudança. A presidente parece reconhecer o fracasso da política econômica e a carência social que vigora no País. Acenou com nova equipe para o comando da economia. Fez bem, mas deve deixar claro que mudanças pretende. Entre elas, é necessário parar de sufocar a Petrobrás e Eletrobrás, fortalecendo-as para o desempenho de sua função estratégica para o desenvolvimento do País. Ainda resta um fio de esperança!

Tudo o que sabemos sobre:
Amir Khair

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.