Adriano Machado e Rodolfo Buhrer/Reuters
Adriano Machado e Rodolfo Buhrer/Reuters

Propostas inacabadas de candidatos para economia preocupam empresários

CNI reduz previsão de crescimento dos investimentos neste ano, por considerar que o debate eleitoral deixou de lado a agenda econômica; programas dos presidenciáveis não são claros o suficiente para elevar confiança, diz a confederação

O Estado de S.Paulo

12 Outubro 2018 | 04h00

Propostas vagas, sem explicações de como as medidas serão adotadas e falta de clareza nos programas econômicos dos candidatos à Presidência, Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT), têm gerado incertezas nos setores produtivo e financeiro e podem afetar o desempenho já pífio da economia brasileira em 2018 e em 2019.

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) reviu na quinta-feira, 11, sua projeção de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) deste ano de 1,6% para 1,3%. Há setores, como o de calçados, que estão ainda mais pessimistas. “Acho que será uma façanha se chegar a 1,0%”, diz Heitor Klein, presidente da associação dos fabricantes de calçados, a Abicalçados.

Segundo o Informe Conjuntural da CNI, que tem por base pesquisas com as empresas, as incertezas em relação ao programa econômico do futuro governo, em especial no que se refere ao ajuste fiscal, frearam também decisões de ampliação da produção, do emprego e do investimento. A CNI cortou de 3,5% para 2,2% a previsão de crescimento dos investimentos públicos e privados neste ano.

“A propensão ao investimento tem caído desde março. Após o abandono da reforma da Previdência e, à medida que a eleição foi se aproximando, a incerteza com a economia ficou mais latente. O debate entre candidatos não focou na agenda econômica, mas em segurança e corrupção”, diz Flávio Castelo Branco, gerente executivo da CNI.

Na opinião de Klein, os investimentos só virão quando o setor reduzir sua capacidade ociosa, de até 35%. Para isso, são necessárias medidas para diminuir o custo Brasil, que tira a competitividade da indústria nacional. Ele ressalta, porém que, hoje, as propostas dos dois candidatos “não são suficientemente claras e detalhadas a ponto de dar confiança”.

Para Abram Szajman, presidente da Fecomércio-SP, “enquanto não houver detalhamento de propostas não dá para falar em investir. O dinheiro é medroso e covarde”.

José Velloso, presidente executivo da Abimaq (representa os fabricantes de máquinas e equipamentos), avalia que as empresas precisam ter maior convicção de como o próximo presidente vai enfrentar a crise fiscal, assim como simplificar o sistema tributário e reduzir o custo do crédito com uma reforma bancária.

“A definição do segundo turno não vai fazer o empresário comprar máquina. Nosso mundo é diferente do mercado financeiro. A indústria leva tempo para tomar decisões sobre ampliar produção”, diz Velloso.

Congresso

Além das incertezas em relação aos programas dos presidenciáveis, a renovação no Congresso também é vista como um fator pouco favorável à retomada econômica, segundo o economista-chefe da LCA Consultores, Bráulio Borges. A leitura é que os parlamentares sem experiência terão dificuldade para fazer as articulações políticas necessárias para viabilizar projetos mais ousados. “O encaminhamento das reformas acabará mais lento. As incertezas tendem a cair (com o resultado do segundo turno), mas não será de uma forma expressiva”, diz Borges, que reviu a projeção de crescimento do PIB do próximo ano de 3% para 2,2%.

No mercado financeiro, que começou a semana em euforia com a vantagem de Bolsonaro sobre Haddad no primeiro turno, o clima já esfriou diante das incoerências do discurso do candidato de direita.

A pesquisa do Datafolha que indicou Bolsonaro com 58% das intenções de votos válidos não foi suficiente para fazer as ações subirem na quinta-feira – o Ibovespa, principal índice da Bolsa, caiu 0,91% e o dólar avançou 0,35%, a R$ 3,7763. / ANDRÉ ÍTALO ROCHA, CLEIDE SILVA, EDUARDO LAGUNA, LORENNA RODRIGUES E LUCIANA DYNIEWICZ

Encontrou algum erro? Entre em contato

Luciana Dyniewicz e Cleide Silva, O Estado de S.Paulo

12 Outubro 2018 | 04h00

A incoerência e a superficialidade nas propostas de política fiscal dos candidatos Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT) estão entre as principais fontes de inquietude dos economistas e empresários. Segundo eles, é natural que os candidatos evitem temas espinhosos, como um ajuste fiscal, às vésperas da eleição, mas, neste ano, o debate político está ainda mais incongruente: “Não se sabe qual é a plataforma dos dois”, diz a economista-chefe da XP Investimentos, Zeina Latif.

Do lado do candidato de direita, o projeto de vender estatais para equilibrar as contas públicas – que já era questionado por especialistas – perdeu ainda mais credibilidade após Bolsonaro criticar a privatização da Eletrobrás. Do lado do candidato de esquerda, não há definição sobre a disponibilidade ou não de realizar uma reforma da Previdência nem em relação ao modelo que seria adotado.

“Essa conversa (de Paulo Guedes, guru econômico de Bolsonaro, indicado para ser ministro da Economia) de zerar o déficit em um ano com privatizações é conversa para boi dormir”, diz o economista-chefe da LCA Consultores, Bráulio Borges. Cálculos do economista apontam que uma eventual onda de privatizações não arrecadaria mais que R$ 400 bilhões, incluindo estatais como Banco do Brasil, Petrobrás e Eletrobrás. A campanha de Bolsonaro, que falava em levantar R$ 1 trilhão com a venda de ativos, já anunciou que essas empresas ficariam de fora do projeto.

Borges acrescenta que a relação entre Guedes e Bolsonaro lembra a da ex-presidente Dilma Rousseff e do ex-ministro da Fazenda, Joaquim Levy. “Havia uma tensão inerente entre os dois”, diz. “Os ruídos na campanha de Bolsonaro podem se acentuar.”

A falta de unidade no discurso fiscal das duas campanhas pode dificultar a criação de uma equipe econômica de peso, acredita Zeina. O economista Marcio Pochmann, um dos responsáveis pelo programa do PT, tinha um discurso de que a reforma da Previdência não era necessária e que o crescimento econômico estabilizaria o déficit na área. Haddad, no entanto, sinalizou estar disposto a debater o assunto. “Quando não se tem um propósito claro e não se deixa evidente quais são os compromissos, fica muito mais difícil montar a equipe”, diz Zeina.

Do lado dos empresários, há também o receio em relação a propostas que consideram inexequíveis, como a do candidato Haddad, de usar reservas cambiais para promover desenvolvimento. “Isso não existe”, diz o presidente da Abinee (representa as empresas do setor eletroeletrônico), Humberto Barbato.

Ele também discorda da abertura comercial unilateral proposta por Bolsonaro. Segundo Barbato, antes disso, seria preciso promover mudanças estruturais para reduzir os custos da produção local. Em relação às propostas liberalizantes de Guedes, Barbato diz que se “chocam com as do candidato”. Já Fernando Figueiredo, presidente da Abiquim (representa a indústria química), vê com otimismo as propostas das duas candidaturas. “Se 90% delas forem cumpridas, o País voltará a crescer.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.