Prós e contras de uma obra polêmica

INVESTIMENTOS

O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2011 | 03h08

Norte Energia ganha

status de gestão pública

Os 11 municípios da área de influência da Hidrelétrica de Belo Monte vão receber R$ 3,7 bilhões de investimentos da Norte Energia, empresa que detém a concessão da usina. O dinheiro será aplicado em projetos de saneamento, moradia, escolas, hospitais e postos de saúde nas cidades de Placas, Uruara, Medicilândia, Brasil Novo, Altamira, Gurupa, Porto de Moz, Senador José Porfírio, Vitória do Xingu, Anapu e Pacajá.

Em Altamira, serão investidos R$ 900 milhões, 24% do volume total de recursos. Parte do dinheiro será aplicado na construção de casas para abrigar as famílias que moram em palafitas, como os gêmeos Marcos e Maicon, de 7 anos, do Igarapé Altamira. Ali, vivem cerca de 16 mil pessoas, que terão a opção de se mudar para a nova vila construída pela Norte Energia, receber o dinheiro ou uma carta de crédito. As moradias atuais são precárias, feitas de madeira, ao lado do esgoto a céu aberto. É ali que os gêmeos passam as tardes empinando pipa com os colegas, depois de voltarem da escola.

O lixo e o mau cheiro já não incomodam mais os pequenos, que conhecem bem o futuro do local: "Vamos ter de mudar porque aqui será alagado pela usina", explica Marcos.

De acordo com os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em Altamira, apenas 11,2% da população era atendida com abastecimento de água em 2008. Esgotamento sanitário praticamente não existia na cidade. A universalização dos serviços será uma obrigação da Norte Energia, que já ganhou até status de administradora pública. "Agora qualquer coisa que a cidade precise, mandam procurar a Norte Energia. Até parece que a prefeitura não tem orçamento próprio", afirma o empresário Waldir Antonio Narzetti.

A gestão pública é uma das grandes preocupações da região, que terá aumento de arrecadação com a construção da usina e dos novos investimentos. Em Vitória do Xingu, por exemplo, só com a arrecadação de ISS de um ano seria possível asfaltar toda a cidade, de 13 mil habitantes. Recentemente, o prefeito do município foi preso por suspeita de lavagem de dinheiro.

NOVO PROJETO POLÊMICO

'Belo Monte tem de ser

melhor que Transamazônica'

Para os antigos moradores de Altamira e região, a construção da Hidrelétrica de Belo Monte é a repetição de um outro projeto gigante e polêmico: a Rodovia Transamazônica, projetada durante o governo do presidente Emílio Garrastazu Médici, em plena ditadura militar. A obra atraiu milhares de trabalhadores, que fincaram raízes na região, formaram família e hoje torcem para que a história de Belo Monte seja melhor que a da Transamazônica: até hoje a rodovia é de terra.

"Lembro certinho o dia que desceram aqui para abrir a rodovia. Era início da noite, por volta de sete horas", conta José Amâncio de Almeida Lobato, de 64 anos. Funcionário da prefeitura de Vitória do Xingu (cujo prefeito foi preso e muitos vereadores podem ser cassados por corrupção), ele chegou na cidade há quase 50 anos, depois de deixar a casa dos pais em Abaetetuba, próximo de Belém. "Precisava trabalhar, ganhar dinheiro. Aqui encontrei emprego e formei minha família", diz Lobato, que tem nove filhos.

Conhecido como Tio Patinhas, uma alusão ao personagem "pão duro" da Walt Disney, ele não fez fortuna na região, mas tem suas "posses". "Todos os meus filhos são bem de vida e eu tenho uma boa casa na cidade. Não me falta nada." A única reclamação é a falta de água tratada e esgoto, que ele espera ser resolvido pelas compensações obrigatórias da Norte Energia.

Os benefícios também fazem parte das esperanças de José Francisco Luz, de 57 anos. Durante a visita da reportagem do Estado ao centro de treinamento do Consórcio Construtor Belo Monte, em Altamira, ele fazia sua inscrição para o curso de mecânico de máquinas pesadas, que deve ser iniciado em janeiro. Nascido em Almerim, cidade do Pará localizada no Baixo Amazonas, Francisco sente o cheiro de grandes empreendimentos e vai onde eles estão. Foi atrás de uma grande obra que ele chegou em Altamira, na década de 70. Foi direto para o canteiro de obras da Transamazônica. Ali ficou até 1979, quando arrumou as malas e foi trabalhar no então grandioso Projeto Jari, um empreendimento às margens do Rio Jari para a produção de celulose. Foi nessa época que aprendeu os ofícios de mecânico. Anos mais tarde foi para o garimpo e, em 1993, voltou para Altamira, onde comprou terras e virou agricultor.

Nos últimos anos, viveu sossegado na propriedade de 100 hectares - um quarto do terreno será afetado pela usina. Aproveitou também para terminar os estudos e se formar. Mas bastaram as obras de Belo Monte começarem a sair do papel para ele se alvoroçar: "Preciso me reciclar. Faz tempo que não trabalho como mecânico".

GRANDE NEGÓCIO

Moradores transformam as próprias casas em hotéis

A chegada de trabalhadores, investidores e empresários em Altamira pegou a rede hoteleira no contrapé. A demanda por leitos explodiu, mas a cidade não tinha estabelecimentos preparados para acomodar o batalhão de pessoas que chegou para trabalhar com a obra. A escassez virou negócio. Além de novos hotéis, os moradores decidiram improvisar e ganhar um trocado. Aqueles que tinham casas espaçosas não pensaram duas vezes: alugaram suas residências para as empresas e foram morar numa casa menor, alugada. Quem tinha alternativa foi viver em chácaras ou sítios.

O comerciante Francisco Rodrigues, de 59 anos, tinha planos de construir salas comerciais no segundo andar de seu estabelecimento, mas acabou se moldando às necessidades da Norte Energia, empresa que detém a concessão da hidrelétrica. Transformou a área em 21 quartos, onde moram cerca de 120 funcionários da companhia. Cada diária sai por R$ 150 - receita garantida em contrato para os próximos dois anos.

Entusiasmado, o comerciante iniciou a construção de uma segunda pousada com 37 apartamentos, prevista para ser concluída em abril de 2012. "Já pediram para alugar a casa onde moro. Nem ouvi a proposta para não cair em tentação", diz ele, um acreano que chegou a Altamira em 1959.

OPOSIÇÃO

Famosos se unem contra

a construção da usina

A Hidrelétrica de Belo Monte desperta paixões em estrelas do entretenimento. Primeiro foi o cineasta James Cameron, diretor de Avatar e Titanic, e a atriz Sigourney Weaver, que protestaram contra a obra ainda na fase inicial, em 2010. Agora, 19 artistas da televisão brasileira participaram de um vídeo, promovido pelo recentemente criado Movimento Gota D'Água, para questionar a construção da usina e pedir sua suspensão.

A veterana atriz Maitê Proença, por exemplo, tirou literalmente o sutiã em ato de protesto no vídeo idealizado pelo ator e seu ex-namorado Sergio Marone. Entre os participantes do vídeo estão nomes de peso como Ary Fontoura, Juliana Paes, Letícia Sabatella, Marcos Palmeira e Murilo Benício, entre outros profissionais muito conhecidos do grande público. Em tom de jogral, eles enfatizam no filme as razões para se suspeitar da obra e de sua necessidade para o País, ao contrário do que prega o governo.

Marone começou a desenvolver o projeto há dois meses em parceria com a jornalista Maria Paula Fernandes e o cineasta Marcos Prado, que dirigiu o elenco estrelado. Postado no YouTube, o movimento Gota D' Água convida os que se sensibilizarem a assinar uma petição que será encaminhada ao governo pedindo a suspensão da Usina de Belo Monte. Em três dias de veiculação, já somaram quase 700 mil adesões.

Marone informa que o vídeo foi inspirado na iniciativa "Vote + 5", encabeçado pelo ator americano Leonardo Di Capprio e com direção de Spielberg, que tinha a finalidade de estimular os americanos a votarem nas eleições. Os índices de abstenção entre os americanos têm sido alto. Animado com a repercussão alcançada, Marone enviou uma cópia legendada da ação brasileira contra Belo Monte por intermédio da ONG Amazonwatch.

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