Protecionismo pode emperrar recuperação global, diz OMC

Organização afirma que mecanismos de defesa comercial podem "criar um legado de indústrias não-competitivas"

Reuters,

14 de setembro de 2009 | 11h38

As políticas protecionistas podem emperrar a recuperação econômica global e enfraquecer setores-chaves até bem depois da atual crise, disse a Organização Mundial do Comércio nesta segunda-feira, 14.

 

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Em relatório conjunto com a Unctad (agência da ONU para comércio e desenvolvimento) e a OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico), a OMC disse que a maioria dos países importantes evocou "mecanismos de defesa comercial" para resistir à crise.

 

"Os pacotes fiscais e financeiros adotados para lidar com a crise claramente favorecem a restauração do crescimento comercial globalmente, mas alguns deles contêm elementos que favorecem os bens e serviços domésticos às custas das importações", disseram as agências.

 

Eles disseram que os pacotes de apoio a setores e outras medidas podem "criar um legado de indústrias não-competitivas e excesso de capacidade setorial que irá continuar gerando pressões protecionistas mesmo depois que a atividade econômica ganhar impulso outra vez."

 

O relatório, preparado para a cúpula deste mês do G20 em Pittsburgh, prevê que a recessão reduzirá em 10 por cento neste ano o volume de mercadorias comercializadas no mundo, e diminuirá em 30 a 40 por cento os investimentos internacionais diretos.

 

O estudo concluiu que até agora as grandes economias resistiram ao "protecionismo de alta intensidade", mas alertou que políticas já adotadas poderiam facilmente ser amplificadas junto com mais perdas de postos de trabalho nos próximos anos.

 

"O principal risco é que os membros do G20 irão continuar a ceder terreno a pressões protecionistas, mesmo que só gradualmente, particularmente conforme o desemprego continuar aumentando", disseram eles.

 

"O perigo é de um acúmulo de 'areia nas engrenagens' do comércio internacional, que poderia agravar a contração do comércio e dos investimentos mundiais e afetar a confiança em uma recuperação rápida e sustentável da atividade econômica global."

 

As três agências conclamaram os governos a buscarem um novo tratado comercial multilateral que promova incentivos ao comércio e aos investimentos.

 

Neste mês, ministros do Comércio reunidos em Nova Délhi se comprometeram a completar a Rodada de Doha do comércio global até o final do ano que vem. Diplomatas acreditam, porém, que isso exigirá uma enorme dose de apoio políticos dos principais governos.

 

"Uma decisão coletiva dos membros do G20 de levar a Rodada de Doha a uma conclusão rápida seria bem-recebida por outros membros da OMC e enviaria um sinal inequívoco de que medidas protecionistas não são a solução para esta crise, e que medidas adotadas para combater a crise serão rapidamente canceladas", disseram as agências.

 

"Concluir a Rodada de Doha irá reduzir substancialmente o escopo para a introdução de novas restrições comerciais ou a elevação das existentes", disse o relatório.

 

A divulgação do texto coincide com uma reunião em Genebra de autoridades que buscam novos passos nas negociações para a abertura dos setores globais de agricultura, indústria e serviços.

 

OCDE, OMC e Unctad pedem compromisso do G-20 contra protecionismo

 

O secretário-geral da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), Angel Gurria, o diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Pascal Lamy, e o diretor-geral da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad), Supachai Panitchpakdi, pediram que os governos do G-20 se comprometam fortemente com a abertura do comércio e do investimento à medida que a economia global começa a se recuperar.

 

Eles disseram que o aumento do desemprego significa que a expansão de medidas protecionistas continua uma ameaça. "Não se pode considerar que a crise global já tenha acabado, apesar das indicações recentes de recuperação econômica em algumas partes do mundo", afirmaram eles. "O crescente desemprego resultante da crise continuará a estimular pressões protecionistas nos próximos anos."

 

Os três diretores acrescentaram que os líderes do G-20, que se reúnem no final deste mês, devem "concretizar" seu pedido para a conclusão da rodada Doha de negociações comerciais. Eles acrescentaram que muitos dos programas para resolver a crise que foram colocados em prática por membros do G-20 têm um viés em favor dos produtores domésticos que deve ser revertido à medida que esses países começam a embarcar em estratégias de saída.

 

"É fundamental que os governos comecem a planejar uma estratégia de saída coordenada que eliminará esses elementos assim que possível", afirmaram.

 

Os três disseram que não há indicações de forte aumento do protecionismo como reação à crise, mas afirmaram que medidas tarifárias e não-tarifárias, subsídios e procedimentos administrativos que encarecem as importações foram aplicados nos últimos meses, atuando como "areia no motor do comércio internacional, o que pode retardar a recuperação global".

 

A decisão do governo norte-americano anunciada na última sexta-feira de impor sobretaxas aos pneus fabricados na China durante os próximos três anos provocaram novo receio de que a crise econômica venha a elevar as tensões comerciais. Ontem, a China indicou que pode restringir as importações de produtos automotivos e aviários provenientes dos EUA.

 

As três agências preveem que o volume de comércio mundial cairá 10% em 2009, enquanto os fluxos de investimento estrangeiro direto deverão recuar entre 30% e 40%. As informações são da Dow Jones.

 

(Com agência AE)

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