Protecionismos e suas diferenças
Imagem Celso Ming
Colunista
Celso Ming
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Protecionismos e suas diferenças

Há em curso uma tendência protecionista que tende a afetar as relações multilaterais em todo o mundo, mas que possui origens distintas

Celso Ming*, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2022 | 18h45

Muitos analistas vêm apontando para o forte crescimento do protecionismo global sem, no entanto, fazer distinções sobre a motivação e a natureza de cada protecionismo. É preciso atenção a essas distinções porque, se é para buscar antídotos, é preciso também saber em que direção seguir.

Há um inegável aumento do protecionismo comercial, cujo principal objetivo é controlar a entrada de mercadorias e serviços no país para proteger a produção nacional e o emprego.

Quando o então presidente Donald Trump lançou seu “American First”, tinha por objetivo derrubar as importações da China. Foi um movimento carregado de xenofobia, que também procurou barrar agressivamente a entrada de imigrantes.

Motivação semelhante tem o protecionismo europeu, que há décadas pretende proteger a pouco eficaz agricultura da região e, por isso, alega questões ambientais ou de segurança alimentar para impedir a livre importação de grãos de países em desenvolvimento, entre os quais o Brasil.

Também tem por objetivo criar condições de desenvolvimento da indústria nacional o protecionismo do Brasil. Isso se faz por meio de altas tarifas alfandegárias, por reservas de mercado (como na Lei de Informática) e imposição de cotas de importação (como as de veículos).

Uma terceira modalidade de protecionismo tem a ver com questões geopolíticas. É a oposição dos Estados Unidos a que outros países utilizem a tecnologia chinesa (da Huawei) para a instalação dos equipamentos de conexão 5G.

Mas o protecionismo mais evocado no momento é o que pretende reduzir a forte dependência de suprimentos obtidos no exterior.

Nestes quase dois meses de guerra na Ucrânia ficou claro que a Europa, principalmente a Alemanha e a Itália, é excessivamente dependente de suprimentos de gás e de petróleo de procedência russa. Também em consequência da guerra, o resto do mundo passou a correr riscos de desabastecimento de trigo e de fertilizantes produzidos pela Rússia e pela Ucrânia.

O objetivo agora é proteger a própria economia de súbitas quebras no fornecimento de alimentos, de produtos ou de insumos estratégicos que possam ser causadas por catástrofes ou por uma guerra.

Outra onda protecionista tem a ver com a pandemia. A produção de muitos países e o fluxo da economia mundial de mercadorias e serviços se desorganizaram porque medidas para conter o avanço da covid-19, como lockdowns, distanciamento social e o impedimento de circulação de navios, exigiram a paralisação de atividades e interromperam o curso de distribuição da cadeia global.

Este último bloqueio parece temporário e não deve exigir respostas protecionistas de longo prazo. Mas os outros são mais difíceis de desfazer ou porque carregam tintas ideológicas ou porque carregam exigências de segurança nacional. 

*CELSO MING É COMENTARISTA DE ECONOMIA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.