REUTERS/Marcos Brindicci
REUTERS/Marcos Brindicci

Protesto contra imposto para Argentina

Concentrada na paralisação do transporte público, manifestação realizada em ano eleitoral inviabilizou que a população se locomovesse

Rodrigo Cavalheiro, correspondente, O Estado de S. Paulo

31 de março de 2015 | 21h13

A Avenida 9 de Julho vazia, os ciclistas com roupas de trabalho, sem opção de ônibus, trens e metrô, e o lixo transbordando dos coletores de Buenos Aires foram os sinais mais claros do impacto da paralisação organizada nesta terça-feira, 31, por sindicatos argentinos contra um imposto sobre o salário. A repercussão deixou a presidente Cristina Kirchner sob pressão e sob ameaça de uma greve semelhante, mas de três dias, nos próximos meses. Haverá eleição no país em outubro.

Nem mesmo em domingos ou feriados há tão pouca gente nas ruas de Buenos Aires. A greve geral teve impacto semelhante nas principais capitais das províncias, embora tenha sido total apenas na região metropolitana, com aproximadamente 12 milhões de habitantes, 30% do país. De acordo com Martín Polo, economista da consultoria Analytica, o “custo” da mobilização para o país foi de aproximadamente US$ 340 milhões.

O eixo da greve foi a mobilização no setor de transporte. O bloqueio do sistema de trens, metrô e ônibus tornou inviável a milhões que vivem na região metropolitana chegar ao centro da capital, apoiassem ou não o motivo do ato. Caminhoneiros pararam e cortes esporádicos foram feitos no anel rodoviário da capital, o que inibiu ainda mais a locomoção.

O resultado foram ruas vazias e um moderado congestionamento na rede de ciclovias. “Nunca uso a bicicleta, tenho preguiça. Mas hoje foi o único jeito”, afirmou a editora de livros Adriana Monzani, de 56 anos, que pedalou seis quilômetros até o trabalho. 

Esse foi o terceiro e mais abrangente ato organizado nos últimos anos contra o tributo que desconta entre 9% a 35% da renda, de acordo com a faixa salarial. Está isento quem ganha menos de 15 mil pesos (R$ 5,5 mil). Como os salários são corrigidos pela inflação (23% por ano segundo o governo, 38% de acordo com consultorias independentes), o grupo de pagantes cresce. Segundo o governo, ele representa apenas 11% do total de trabalhadores.


A maior parte dos taxistas, que poderiam amenizar a dificuldade de locomoção, ficou em casa por medo de repressão nos piquetes. E também porque a maioria dos veículos é abastecida a gás, o que dá uma autonomia menor, de cerca de sete horas. “Eu não peguei um passageiro argentino hoje”, disse o taxista Pedro Luis Cepeda, explicando que uma viagem da região metropolitana ao centro da capital, feita pela maioria dos operários, pode custar 150 pesos (R$ 54).

Reações. O sindicalista Hugo Moyano, aliado do kirchnerismo até 2011, o principal do país, considerou a greve bem sucedida por ter “sabido interpretar a vontade da população”. 

A reação da presidente foi a convocação de um discurso em rede nacional, no fim da tarde. Na inauguração de um ginásio na cidade de La Matanza, de forte eleitorado peronista, ela contestou a adesão a greve. “Sabemos que todos teriam ido trabalhar se não fosse a falta de transporte”, afirmou. A presidente disse ter vergonha de que um ato assim ocorra no país, “impedindo os trabalhadores de chegar ao emprego”. 

Ao seu lado, estava o governador Daniel Scioli, um peronista moderado que lidera com pequena vantagem (30%), a corrida pela presidência. Na segunda-feira, o prefeito de Buenos Aires, Mauricio Macri, segundo colocado conforme as sondagens de opinião (29%), se disse contrario a paralisação porque “agrava a crise argentina”. O terceiro pré candidato, o ex-kirchnerista Sergio Massa (15%), prometeu ontem que em seu governo o imposto será extinto.

Notícias relacionadas
    Tudo o que sabemos sobre:
    argentinagreve

    Encontrou algum erro? Entre em contato

    Tendências:

    O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.