Noel Celis/AFP
Noel Celis/AFP

Protestos contra grupo imobiliário em crise ganham força na China

Evergrande, uma das maiores empresas privadas do país, admitiu que enfrenta ‘enorme pressão’, mas descartou falência

Redação, AFP e Reuters

15 de setembro de 2021 | 08h18

Os protestos contra o grupo imobiliário chinês Evergrande, que enfrenta grandes dificuldades financeiras, ganharam força nesta quarta-feira, 15, quando se espalharam para mais cidades na China, depois que a empresa ofereceu vagas de estacionamento ou propriedades aos investidores, que exigem reembolso em dinheiro.

A gigante do setor admitiu que pode não ter capacidade de cumprir com suas obrigações financeiras, superiores a US$ 300 bilhões, o que gera temor entre compradores, investidores e empreiteiros de uma falência, que traria consequências para a segunda maior economia do mundo.

Dezenas de manifestantes protestam pelo terceiro dia consecutivo diante da sede da Evergrande em Shenzhen, sudeste da China. Entre eles estavam compradores de imóveis em construção que já fizeram o pagamento e temem que a propriedade não seja entregue.

O grupo gritava "Evergrande, devolva o nosso dinheiro". Eles estavam irritados depois que a empresa ofereceu saldar sua dívida com promessas de propriedades e vagas em estacionamento.

"Eles nos ofereceram barracas, creches, vagas de estacionamento... mas não podemos usá-las. Nenhum de nós aceita isso", disse uma mulher que revelou apenas o sobrenome, Wang. Ela explicou que sua empresa sofre com as dívidas não pagas da imobiliária.

Analistas afirmam que a Evergrande, que tem cotação na Bolsa de Hong Kong, registra mais de 1 milhão de propriedades pagas por clientes e ainda não construídas, o que aumenta a sensação de pesadelo entre os investidores chineses, muitos compradores de seu primeiro imóvel.

A Evergrande, uma das maiores empresas privadas da China e uma das líderes internacionais no setor imobiliário, admitiu na terça-feira, 14, que enfrenta "enorme pressão", mas descartou o cenário de falência. Procurada pela agência de notícias AFP nesta quarta, a empresa não fez comentários.

O Ministério da Habitação e do Desenvolvimento Rural Urbano da China realizou uma reunião com bancos com os quais a empresa possui dívidas, segundo relatório da agência Bloomberg desta quarta-feira, que diz que a Evergrande ainda discute com as entidades financeiras a possibilidade de prolongar os pagamentos e renovar alguns empréstimos. Procurado também pela agência de notícias Reuters, o ministério não quis comentar o caso.

O grupo, que viu a rápida expansão em 280 cidades chinesas aumentar sua reputação, está à beira do colapso, mas analistas afirmam que o governo chinês não permitirá uma quebra caótica.

"Uma falência da Evergrande poderia prejudicar a confiança dos consumidores, caso venha a afetar os depósitos pagos pelas famílias por casas que ainda não foram concluídas, mas presumimos que o governo atuará para protegê-los", afirmou a agência de classificação de risco Fitch em um comunicado.

A Evergrande disse na terça que contratou consultores para examinar suas opções financeiras e alertou para os riscos de não cumprimento cruzado entre a venda de propriedades em queda e a falta de progressos na alienação de ativos.

Na semana passada, o fornecedor de informações financeiras REDD disse que a Evergrande planeja suspender o pagamento de juros devidos no fim deste mês. 

Protestos incomuns 

Na província de Jiangsu, no leste da China, investidores nervosos se reuniram nesta quarta-feira diante da sede regional da empresa na cidade de Taizhou. 

Protestos similares foram registrados na província de Anhui e trabalhadores reivindicaram os salários na cidade de Ezhou, em Hubei, também no leste do país.

A preocupação aumenta entre os fornecedores que não receberam pagamento - alguns deles em Shenzhen afirmam que a empresa deve quase US$ 1 milhão -, assim como entre os investidores que esperavam os rendimentos de retorno para pagar suas próprias dívidas e os salários de seus funcionários.

"Estão tentando negociar com suas propriedades ruins. São produtos que não conseguem vender", declarou à AFP um investidor que não revelou o nome.

É incomum que as autoridades comunistas da China permitam protestos de qualquer tipo, especialmente em várias cidades ao mesmo tempo. As redes sociais, habitualmente sob rígido controle do governo, estão repletas de imagens das manifestações.

Os analistas afirmam que a abordagem permissiva pode marcar o desejo do governo chinês de mostrar à opinião pública que está a seu lado, enquanto estuda os próximos passos.

A Evergrande foi fundada em 1996 por Xu Jiayin, que se tornou o homem mais rico da China durante o boom imobiliário do país nos anos 1990.

Durante anos, a empresa investiu em larga escala em projetos em novas cidades. Em 2009 arrecadou 9 bilhões de dólares em sua entrada na Bolsa de Hong Kong. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.